Oriente Médio

Estados Unidos precisam mostrar internamente alguma vitória e o Irã não vai se render, diz analista

Para Amauri Chamorro, o que está em jogo é a derrocada definitiva da Otan e a falência do projeto de dominação ocidental

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Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no Salão Oval da Casa Branca. — Foto: SAUL LOEB / AFP
Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no Salão Oval da Casa Branca | Crédito: Saul Loeb/AFP

A guerra no Oriente Médio entrou em uma nova fase. Não aquela dos bombardeios e das baixas contadas em números frios, mas a das versões, dos silêncios e das encenações diplomáticas. Enquanto o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirma categoricamente que está em negociações avançadas com o Irã, o governo de Teerã nega qualquer contato oficial. Há uma guerra de narrativas em curso — e ela interessa a todos os envolvidos.

Mas, sob a superfície das declarações públicas, o que realmente está em disputa? Para o especialista em comunicação política Amauri Chamorro, a resposta é simples e brutal: a rendição ou a resistência.

“O que está em disputa, na verdade, é se o Irã se rendeu ou não aos Estados Unidos. Isso é fundamental”, analisa Chamorro no Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato. “Os Estados Unidos precisam mostrar internamente alguma vitória, algum sentido para as baixas militares e para o altíssimo custo de uma operação que, tudo indica, não foi positiva. O Irã não vai entregar essa vitória.”

A proposta de uma mesa de diálogo — com mediação sugerida pelo Paquistão e pela Turquia — soa, à primeira vista, como um caminho para a paz. Mas, segundo Chamorro, trata-se de uma armadilha. Um plano de 15 pontos apresentado ao Irã incluiria o controle total do programa nuclear civil iraniano e a redução de seus mísseis balísticos. Ou seja, o desarmamento do país.

“Chegar a sentar numa mesa de negociação oficialmente já é, de alguma maneira, um cheque em branco”, afirma o especialista. “É você permitir que os Estados Unidos digam que venceram. E o Irã dificilmente vai permitir isso.”

Para Chamorro, a analogia é direta: imagine que você tenha armas em casa para se defender. Alguém exige que você se desarme prometendo levantar o bloqueio. Você aceita. E, no momento seguinte, é invadido. Foi o que ocorreu com o acordo nuclear anterior, desfeito por Trump em 2018. “Primeiro, vocês não cumpriram a parte de vocês. Agora, depois de matar metade da alta direção do Estado iraniano, vocês vêm me dizer que eu tenho que me desarmar? É brincadeira”, resume Chamorro, reproduzindo o que seria o raciocínio em Teerã.

O Irã, lembra Chamorro, não está defendendo apenas um regime político. Está defendendo a segunda maior reserva de petróleo leve do mundo, além de imensas reservas de gás e minerais. É um país rico, estratégico e com uma história que remonta a 7 mil anos.

“Não é sobre liberdade, não é sobre mudar o regime para que as mulheres não precisem usar véu. O que está em jogo é o controle de riquezas e a soberania de um povo”, afirma.

A recusa iraniana em ceder, materializada em ações concretas como a permissão para que navios atravessem o Estreito de Ormuz — contrariando a imposição dos EUA —, é também uma ação comunicacional. “O Irã está mostrando ao mundo que tem o controle daquele território.”

Irã: um país que o Ocidente insiste em não enxergar

Parte da narrativa ocidental sobre o Irã, segundo Chamorro, se sustenta sobre uma construção ideológica que não corresponde à realidade. O país não é o poço de atraso e isolamento que muitos imaginam.

“O povo persa é um dos que mais leem no mundo. Eles têm acesso à internet, usam redes sociais, têm acesso à comunicação. Não é um país isolado”, pontua o especialista, que esteve no Irã em 2019. “As mulheres não estão mais usando véu desde 2019. Há um processo de disputa entre a flexibilização da lei islâmica e as novas gerações, mas o próprio Estado já entendeu a necessidade dessas mudanças.”

Chamorro ressalta que o Irã é extremamente desenvolvido do ponto de vista científico e cultural. A maioria das pessoas que estudam nas universidades são mulheres, e elas ocupam carreiras como engenharia e medicina. As equipes olímpicas são formadas por mulheres. “Não é um país atrasado. A gente vê que há uma moralidade falsa dos Estados Unidos, e muitas pessoas acreditam que eles estão levando liberdade e democracia. Isso não é real.”

A solidão do império: Europa de braços cruzados e Otan em frangalhos

Um dos aspectos mais reveladores do atual momento geopolítico, segundo Chamorro, é o silêncio dos aliados europeus. Diferentemente do que ocorreu na invasão do Iraque — quando países como a França e a Inglaterra enviaram tropas e El Salvador chegou a mandar soldados —, desta vez a Otan se recusou a entrar em campo.

“A Otan, neste momento, demonstra que não existe. O que existe são os Estados Unidos. A Europa não tem capacidade militar de se defender”, sentencia Chamorro. “Quando foram chamados na convocatória de ‘vamos lá levar a liberdade’, disseram: ‘Desculpa, mas eu não vou nessa viagem não’.”

O especialista aponta que os países europeus compram petróleo do Irã diariamente — assim como compram da Rússia e da Venezuela, mesmo sob bloqueio. “O sistema capitalista cria mecanismos para burlar suas próprias leis. O que eles fazem é criar um realpolitik muito diferente daquilo que falam.”

A recusa europeia, no entanto, não é apenas pragmática. É também resultado de uma relação cada vez mais tensa com os Estados Unidos, especialmente após as políticas de Trump. O episódio emblemático foi a implosão dos gasodutos que ligavam a Rússia à Alemanha — um ataque terrorista, segundo Chamorro — que forçou a Europa a importar gás mais caro de outros lugares. “A Alemanha só perdeu com a guerra da Ucrânia. Perdeu industrialmente, perdeu economicamente”, resume.

Se a Europa recua, um dado ainda mais eloquente sobre o esfacelamento da aliança militar ocidental vem da Turquia. O país, que possui o segundo maior exército da Otan — com mais de 1 milhão de efetivos —, deixou claro que não participará de qualquer conflito contra o Irã.

“A Turquia tem 500 km de fronteira seca com o Irã. Imagine se vão se enfiar numa guerra com um país que tenha essa manobra?”, questiona Chamorro. “A relação entre Turquia e Irã é de séculos. Eles estão super bem com os Estados Unidos, super bem com a China, super bem com o Irã. Não vão usar o espaço aéreo deles para bombardear ninguém.”

O resultado, segundo o especialista, é que “a Otan esfarelou. Os Estados Unidos ficaram sozinhos”.

A derrota silenciosa dos Estados Unidos

Para além da conjuntura imediata, Chamorro propõe uma leitura de longo prazo: os Estados Unidos vêm acumulando derrotas militares e políticas há décadas, mas o imaginário de invencibilidade do império permanece intocado.

“Os Estados Unidos perderam a guerra da Coreia, levaram uma surra no Vietnã, não ganharam a guerra do Iraque, não ganharam a guerra do Afeganistão. Eles não conseguiram vencer as guerrilhas locais, não conseguiram instalar governos, não conseguiram administrar esses países”, enumera.

O que os Estados Unidos têm, segundo Chamorro, é “um equipamento militar e cinematográfico muito ostensivo”. Mas, na hora da verdade, a vitória contundente nunca vem. “O caso do Iraque é claro: mataram Saddam Hussein, enforcaram ele, transmitiram ao vivo. E aí? O que aconteceu depois? Não ganharam. A Líbia é um caos. A Síria também tem um processo instável.”

Nesse cenário, o Irã se recusa a ser o troféu que falta na prateleira das vitórias estadunidenses. “Eu duvido que o Irã vá entregar essa primeira vitória em quase 80 anos para os Estados Unidos.”

Há, ainda, uma dimensão doméstica que não pode ser ignorada. Trump enfrenta um momento político delicado nos Estados Unidos, com eleições parlamentares à vista e a possibilidade real de perder maiorias. Além disso, pesam sobre ele acusações graves, inclusive de pedofilia — uma “pedra no sapato” que, segundo Chamorro, ajuda a explicar a escalada belicista.

“Há uma necessidade também de criar um caos no planeta para distração da opinião pública. Os Estados Unidos funcionam assim”, afirma o especialista, lembrando o episódio em que Bill Clinton bombardeou a Iugoslávia em meio ao escândalo com a estagiária Monica Lewinsky. “É normal que a gente não pode cair há 100 anos na mesma história de acreditar.”

Um perigo para o mundo, uma lição para o Brasil

A despeito do acerto de sua análise crítica, Chamorro faz um alerta: “Os Estados Unidos não são um país frágil”. Eles detêm a maior indústria bélica do mundo, o maior exército, a força aérea mais equipada, submarinos nucleares, satélites, tecnologia de ponta. “Eles têm capacidade, têm força militar, têm dinheiro para reverter essa situação.”

Mas um país tão grande e tão desestabilizado é, também, um perigo para todo o mundo. “Eles estão muito debilitados em termos reputacionais. E isso é muito perigoso para eles e muito bom para a gente.”

Ao final, Chamorro conecta a análise à realidade brasileira. As lições desse momento, segundo ele, servem para iluminar os embates internos no país. “Isso serve, na verdade, para setores da oposição brasileira, fascistas, genocidas, que apoiam o Estado de Israel cometendo genocídio, que apoiam os Estados Unidos e batem continência para um país estrangeiro. A gente não pode ter medo de enfrentar isso.”

Para ouvir e assistir

O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

Editado por: Thaís Ferraz

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