POR IGUALDADE

Antirracismo e feminismo são apontados como centrais na luta contra o fascismo

Conferência reuniu lideranças que apontaram essas dimensões como estruturais para compreender o cenário político atual

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"Precisamos organizar uma luta antifascista e por um futuro de igualdade e fraternidade”, defendeu Fernanda Melchionna
“Precisamos organizar uma luta antifascista e por um futuro de igualdade e fraternidade”, defendeu Fernanda Melchionna | Crédito: Jorge Leão

Com críticas ao racismo, ao machismo e à concentração de riqueza, participantes da 1ª Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, encerrada neste domingo (29), defenderam a organização política e a unidade como caminhos para enfrentar a corrente extremista que se observa em várias partes do mundo. A mesa “Antirracismo, Feminismo e Direitos Civis na Luta contra o Fascismo” reuniu lideranças do Brasil e de outros países, que apontaram essas dimensões como estruturais para compreender o cenário político atual e construir respostas.

Participaram da mesa a jurista Mireille Fanon, da Fundação Frantz Fanon (França), a integrante do Novo Partido Anticapitalista e do Bureau da IV Internacional, Penélope Duggan, a cientista política associada à Secretaria de Promoção da Igualdade Racial da Bahia (Sepir) Danielle Costa, a diretora do Instituto Movimento Humaniza, Ideli Salvatti, a vereadora de São Paulo Luana Alves (Psol), a advogada e ativista da associação Ação contra o Ódio (Espanha) Pastora Filigrana Garcia, e a liderança indígena Auricélia Arapiun. Como debatedoras, participaram Letícia Carolina Nascimento e a deputada estadual Laura Sito (PT). Ao longo do debate, as participantes reforçaram a necessidade de organização e unidade para enfrentar o avanço da extrema direita.

Como mediadora, a deputada federal Fernanda Melchionna (Psol) afirmou que o debate é “parte das tarefas do nosso tempo”. Ela também apontou elementos estruturantes do que chamou de neofascismo. “Esse projeto tem a supremacia branca, o ataque aos negros e negras, a xenofobia contra os imigrantes e o machismo como estrutural.”

Segundo a parlamentar, há uma reação conservadora global permanente a qualquer avanço da luta das mulheres, citando como exemplo tentativas de revogar o aborto legal em diferentes países e também no Brasil.

Melchionna ainda relacionou o avanço da extrema direita à crise do capitalismo. “É dessa crise profunda que surgem esses elementos. Por isso, precisamos organizar uma luta antifascista e por um futuro de igualdade e fraternidade”, disse.

Conforme apontou Fernanda Melchionna, há uma reação conservadora global permanente a qualquer avanço da luta das mulheres | Crédito: Jorge Leão

Desigualdade e fascismo como instrumento de dominação

A ex-ministra Ideli Salvatti destacou dados sobre desigualdade no Brasil. “Nós somos mais de 50% da população de pretos e pardos, mais de 50% somos mulheres, e 1% detém 63% da riqueza. Ou seja, 99% está sendo explorado”, enfatizou.

Para ela, o fascismo atua como mecanismo de manutenção desse sistema. “O fascismo nada mais é do que a última cartada para continuar controlando, tendo poder e explorando a maioria da população.”

Neste sentido chamou atenção para a intensidade dos ataques promovidos pela extrema direita. “É todo dia, toda hora, um ataque diferente. Eles bombardeiam ininterruptamente para nos ocupar e dificultar a nossa reação.”

Ao abordar sobre a diversidade e intensidade da ofensiva fascista, a diretora evocou o dramaturgo Bertolt Brecht. “Me desculpe, Brecht, mas eu não gosto de dizer que o fascismo é uma cadela no cio. Prefiro dizer que o fascismo é um pitbull com raiva. Com muita raiva”, destacou Salvatti, citando casos que vem acontecendo no estado catarinense como debate sobre projeto sobre identidade de gênero em escolas, militarização e feminicídios.

Diante deste cenário ela destacou a necessidade de organização. “O desafio é conseguir identificar a espinha dorsal desses ataques e enfrentar esse projeto de forma articulada.”

Salvatti ainda ressaltou a importância do protagonismo político de mulheres. “Nós temos que brigar muito, inclusive na esquerda, para que mulheres e pessoas negras tenham espaço, protagonismo e reconhecimento”, afirmou, ao relembrar a presença de mulheres no núcleo do governo Dilma Rousseff.

“O fascismo nada mais é do que a última cartada para continuar controlando, tendo poder e explorando a maioria da população”, destacou Ideli Salvatti | Crédito: Jorge Leão

Racismo e misoginia como bases estruturais

A cientista política Danielle Costa afirmou que o espaço da conferência deve ir além da reflexão. “Esse é um espaço de debate, mas também de organização política.” Como levantado por outros participantes da conferência, ela alertou para a capacidade de articulação da extrema direita. “Não podemos subestimar a capacidade de liderança de Donald Trump de organizar essa mobilização no mundo”, afirmou.

Costa defendeu que o combate ao fascismo passa pelo enfrentamento direto ao racismo e à misoginia. “Não dá para falar de fascismo sem falar de racismo. Não dá para falar de fascismo sem falar de misoginia.” Para ela, essas questões são estruturais. “Não são pautas identitárias. São estruturantes, porque o capitalismo se retroalimenta dessas desigualdades.”

A cientista política também destacou os impactos históricos da escravidão presentes no contexto atual. “A população negra segue na base da pirâmide social, e mais de 60% das vítimas de feminicídio são mulheres negras.”

Ao citar a filósofa Angela Davis, reforçou que o racismo está no coração do fascismo, e criticou as divisões no campo progressista. “Não dá mais para tratar essas pautas como secundárias. Elas são essenciais para o combate ao capitalismo”, afirmou.

“Não dá para falar de fascismo sem falar de racismo”, enfatizou Danielle Costa | Crédito: Jorge Leão

Luta histórica e resistência indígena na Amazônia

Representante dos povos indígenas do Pará, Auricélia Arapiun destacou a longa história de resistência de sua região. “Eu venho da Amazônia, do Pará, de Santarém, que antes da invasão tinha 3 milhões de habitantes e hoje abriga 14 povos”, contou. Ela lembrou a participação de seus ancestrais na Revolta da Cabanagem, uma das lutas mais importantes do país, que completou 191 anos, e reforçou que “não foi apenas uma luta indígena, mas da população que sofria à margem dos rios e nas florestas”.

A ativista explicou que, embora hoje o acesso à comunicação e à tecnologia facilite a mobilização, a resistência sempre foi difícil. “Antes, para se comunicar entre Santarém, Belém e outras regiões, levava-se dias. Hoje temos o poder da era digital e das universidades, mas a luta não é nova.”

Arapiun citou conquistas recentes, como a ocupação da Secretaria de Educação do Pará e a atuação durante a COP30, quando o governo brasileiro tentou controlar a participação indígena. “Nós não fomos negociar, fomos para derrotar. Esse território é nosso, essa casa é nossa”, disse, lembrando que os povos indígenas permanecem independentes frente a tentativas de cooptar ou dividir seus movimentos.

Ela também criticou a atuação de multinacionais e do agronegócio em territórios indígenas, destacando a ocupação da Cargill, empresa americana que invadiu terras ancestrais, incluindo cemitérios de seus ancestrais, e que transformou o rio Tapajós em um corredor logístico para exportação de soja, ameaçando o ecossistema e o modo de vida de seu povo. “Defender o território é defender o futuro da humanidade e do planeta.”

A liderança criticou decisões políticas sobre os territórios sem consulta prévia aos povos indígenas, configurando descumprimento da Convenção 169 da OIT, ratificada pelo Brasil em 2002. “Não é possível decidir sobre o nosso território sem nos ouvir. (…) Se é esperança, que seja construída conosco, respeitando nossa forma de resistir e lutar pelo futuro, pela vida e pelos territórios.” E reforçou o compromisso com a resistência. “Nós vamos continuar lutando, independentemente de quem esteja no poder. Essa luta é pela vida e pelo futuro da humanidade”, finalizou.

“Defender o território é defender o futuro da humanidade e do planeta”, afirmou Auricélia Arapiun | Crédito:  Jorge Leão

Feminismo, trabalho e luta internacional

Pastora Filigrana Garcia destacou a importância da unidade e da generosidade na luta contra o fascismo. “Esta conferência é um exemplo de trabalho coletivo e estratégico”, defendeu.

Ela explicou que sua associação atua na defesa de jornalistas, ativistas e trabalhadores, denunciando discursos de ódio ultradireitistas que influenciam governos. “Nosso trabalho combate o racismo, o antifeminismo e a LGBTfobia, enfrentando o fascismo que esses discursos alimentam.”

Como advogada laboralista, ela atua especialmente em setores precários, racializados e feminilizados, como o setor de cuidados. “O patriarcado não é apenas machismo: é uma ordenação econômica que explora mulheres pobres e racializadas, reforçada pelo fascismo.” Ela também destacou a relação entre neoliberalismo e fascismo. “O neoliberalismo nega direitos básicos, e o fascismo reforça essa lógica, justificando exploração e vulnerabilidade de corpos racializados e migrantes.”

Por fim, reforçou a importância da luta das mulheres racializadas. “As lutas de mulheres negras, migrantes e ciganas não são apenas sobre sobrevivência ou direitos humanos: são estratégicas e ensinam a qualquer movimento revolucionário sobre resistência e transformação social.”

A pastora Filigrana Garcia destacou a importância da unidade e da generosidade na luta contra o fascismo | Crédito:  Jorge Leão

Radicalidade e centralidade das lutas antirracistas

A vereadora Luana Alves defendeu que a esquerda precisa compreender a dimensão do momento político e abandonar saídas conciliatórias. “Quando a gente organiza uma conferência antifascista, é mais do que um estudo teórico. É armação para a prática.”

Segundo ela, não há espaço para neutralidade diante do atual estágio do capitalismo. “Ou essa prática é radical e está ao lado dos povos mais atacados por esse sistema, indígenas, negros e negras, mulheres, ou vai servir para sustentar o sistema capitalista. Não tem meio termo.”

A parlamentar também criticou a crença em reformas dentro do modelo atual. “Existe ainda parte da esquerda que acredita que, a partir de negociações, seria possível melhorar a vida da classe trabalhadora. O capital já provou que não está interessado nisso.”

Para Alves, o sistema opera de forma racializada. “Vai ter exploração assalariada, mas também o roubo puro e simples de parte da classe trabalhadora, como segue acontecendo com a população negra e com os povos indígenas.”

Ela citou ainda o encarceramento em massa e a privatização de presídios como exemplos concretos. “Isso significa trabalho escravo, direto, sem disfarce. Ao abordar o papel das mulheres, destacou a centralidade da desigualdade de gênero para o capitalismo. “As mulheres são as mais pobres do mundo, trabalham mais e ainda assumem o trabalho de cuidado que o capital não paga.”

Alves também alertou para disputas ideológicas no campo da juventude. “Existe um discurso liberal que disputa essas pautas, inclusive na mídia. Se nossas organizações não forem espaço para essa juventude, a gente não vai disputar a realidade.” E concluiu: “A luta antirracista e contra o patriarcado não é detalhe. Se a gente não incorporar isso na teoria e na prática, a gente vai ficar para trás na história.”

“Quando a gente organiza uma conferência antifascista, é mais do que um estudo teórico. É armação para a prática”, pontuou Luana Alves | Crédito: Jorge Leão

Avanço global da extrema direita e ofensiva conservadora

Já a dirigente francesa Penélope Duggan alertou para o crescimento da extrema direita em escala internacional. “Vemos governos de direita e autoritários que estão se radicalizando para o fascismo. Isso representa um perigo para o planeta inteiro.”

Ela citou conflitos recentes como parte desse cenário. “Vemos guerras na Ucrânia, na Palestina, no Sudão e em outras regiões, com enorme perda de vidas e destruição.” Duggan também destacou o caráter racista e sexista desses projetos políticos. “O racismo e o sexismo não são elementos separados, são centrais para a extrema direita”, afirmou.

Segundo ela, esses governos promovem uma ofensiva contra direitos conquistados. “Estão colocando a família heteronormativa no centro das políticas e restringindo direitos como o aborto, além de atacar pessoas LGBTQIA+”, disse.

A dirigente também apontou contradições sociais. “Ao mesmo tempo em que defendem esses valores, implementam políticas que precarizam o trabalho e dificultam a vida das famílias.” Ela destacou ainda o papel das mulheres na resistência. “Em diferentes países, mulheres estão na linha de frente, organizando a vida cotidiana, resistindo às guerras e às políticas autoritárias.”

“Vemos governos de direita e autoritários que estão se radicalizando para o fascismo. Isso representa um perigo para o planeta inteiro”, expôs Penélope Duggan | Crédito:  Jorge Leão

Imperialismo, racismo e tecnofascismo

A jurista e ativista Mireille Fanon denunciou a escalada de conflitos e a desestruturação do direito internacional. “Há uma desorganização profunda das normas internacionais e uma guerra contra a autodeterminação dos povos”, afirmou. Ela também criticou políticas de Estado voltadas à repressão de migrantes.

Fanon citou intervenções sobre países como Haiti, Cuba e Venezuela. “O que vemos é a imposição de políticas externas que colocam países sob tutela e aprofundam crises”, disse. Ao tratar da Palestina, foi enfática: “Segue sob bombas, vítima de um genocídio e de um etnocídio sem fim”.

Para a jurista, o fascismo assume hoje novas formas. “Estamos longe do fascismo dos anos 1930. Caminhamos para o tecnofascismo.”. Nesse cenário, o racismo segue estruturante: “A questão negra permanece como variável de ajuste desse sistema”.

Em sua avaliação não há racismo sem capitalismo, como não há capitalismo sem fascismo. E alertou para o horizonte projetado: “É um mundo em que apenas elites terão direitos, enquanto corpos racializados serão ainda mais desumanizados”.

“O amor e a raiva são expressões do sim e do não, e também motores da luta”, pontuou Mireille Fanon | Crédito: Jorge Leão

Fanon também apontou desafios estratégicos. “Como transformar uma sociedade estruturada por hierarquias raciais? É possível organizar resistências que apontem para a autonomia e a emancipação dos povos oprimidos?”, questionou.

Ao final, defendeu articulação internacional. “É juntos que podemos resistir e inventar forças contra esse projeto”, afirmou. Para ela o amor e a raiva são expressões do sim e do não, e também motes de luta. “É todos juntos que podemos resistir e, sobretudo, inventar forças de resistência.”

Na manhã desta segunda-feira (30) Fanon visitou o quilombo Kedi, onde foi realizada uma roda de conversa.

Apagamento, centralidade no debate e fascismo como política de controle

A ausência de pessoas trans na programação foi um dos principais tensionamentos da intervenção das debatedoras da mesa, a pedagoga Letícia Carolina Nascimento e a deputada estadual Laura Sito (PT).

“Eu talvez seja a única travesti na programação oficial”, afirmou Letícia. Ela criticou o espaço reduzido. “Não vou debater, vou denunciar.” Para ela, o fascismo se sustenta em “pânicos morais” que atingem diretamente a população trans. “Fake news como ‘kit gay’ e mentiras sobre nossos corpos são estratégias que levam a extrema direita ao poder.” A debatedora enfatizou que não há unidade quando silenciam uma travesti. “A revolução será travesti ou não será.”

Para Sito, o fascismo deve ser compreendido como parte do funcionamento do sistema. “É uma política de Estado que emerge em momentos de crise para controlar a sociedade”, afirmou. Ela também destacou que racismo, patriarcado e LGBTfobia têm raiz comum no colonialismo e atuam juntos no controle dos corpos.

Ao citar dados, a deputada evidenciou o caráter estrutural das desigualdades: “Mais de 70% da população carcerária é negra, mais de 80% dos jovens assassinados são negros, e a expectativa de vida de pessoas trans é de 35 anos, 27 anos para pessoas trans negras”. Para ela, essas dimensões são inseparáveis. “Não existe luta antifascista que não seja antirracista e que não enfrente a LGBTfobia”, concluiu.

Editado por: Katia Marko

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