REFERÊNCIA

Coletivo Feminino Plural completa 30 anos de história em defesa da vida das mulheres

Com gestão compartilhada e perspectiva interseccional, o coletivo aposta na construção de espaços de escuta

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Local abriga o Espaço Feminista Enid Backes, que reúne um acervo com mais de 3 mil obras de literatura feminista
Local abriga o Espaço Feminista Enid Backes, que reúne um acervo com mais de 3 mil obras de literatura feminista | Crédito: Clara Aguiar

No Dia Internacional da Mulher deste ano, celebrado em 8 de março, o Coletivo Feminino Plural comemorou 30 anos de trajetória dedicados à defesa dos direitos das mulheres. Ao longo de três décadas, a organização feminista tem atuado na construção de políticas públicas, na formação e no acolhimento de mulheres, consolidando-se como uma das principais referências do movimento feminista no Rio Grande do Sul.

Nesse percurso, destacou-se pela incidência política, pela promoção da formação feminista e pela produção de conhecimento sobre a realidade das mulheres, contribuindo para fortalecer a luta por igualdade e justiça de gênero.

Uma das coordenadoras do coletivo, Mariza Iracet destaca que a organização surgiu da articulação de mulheres que já identificavam a necessidade de enfrentar a violência de gênero, antes mesmo da criação de legislações como a Lei Maria da Penha e a tipificação do feminicídio. “O coletivo trabalha desde o início promovendo o enfrentamento à violência contra as mulheres e às violações de direitos de mulheres e meninas”, afirma.

Segundo o coletivo, a atuação sempre esteve voltada à defesa dos direitos humanos de mulheres e meninas, ao enfrentamento da violência, e à construção de políticas públicas. “Também buscamos fortalecer redes e mobilizações feministas, criando espaços de reflexão, articulação e participação social.”

Experiência na ponta e construção de políticas públicas

Entre as experiências está o trabalho desenvolvido no Centro de Referência para Mulheres em Situação de Violência Patrícia Esber (CRM Patrícia Esber), em Canoas. O coletivo foi responsável pela implementação de um serviço de atendimento com metodologia feminista e perspectiva de gênero. Mariza Iracet atuou diretamente no espaço por nove anos, período em que mais de 6 mil mulheres foram atendidas. “O coletivo foi responsável pela implementação do serviço, e é importante dizer que ele continua funcionando”, ressalta.

A experiência também evidenciou limites da rede de proteção. “Em nove anos que trabalhei no CRM Patrícia Esber/Canoas tivemos a perda de duas mulheres. Uma delas não havia chegado no serviço. A outra tinha medida protetiva, estava em acompanhamento jurídico e abriu mão, acabando sendo morta. Na época ainda não era feminicídio”, relata.

Para ela, esses casos reforçam a importância da articulação entre os serviços. “Quando a rede funciona, as vidas das mulheres são preservadas.”

A experiência acumulada ao longo de 2011 a 2022 também permitiu ao coletivo desenvolver uma metodologia de avaliação de risco e um protocolo de fluxos da rede de atendimento, que chegou a inspirar municípios da Região Metropolitana de Porto Alegre.

 “Pensamos esse espaço como um lugar que pode ser ocupado por outras mulheres, com grupos, leituras e atividades coletivas”, afirma Mariza Iracet | Crédito: Arquivo Pessoal

Formação, mobilização e enfrentamento das desigualdades

A atuação do coletivo se desdobra em iniciativas de formação política, produção de conhecimento e mobilização social, como o Lupa Feminista e o Garotas de Vermelho. “As iniciativas ajudam a dar visibilidade às desigualdades de gênero, ampliar o debate público e fortalecer a participação social, especialmente entre meninas e jovens”, destaca Thais Siqueira, que coordena a Lupa Feminista junto ao Observatório de Feminicídios no Rio Grande do Sul.

Segundo o coletivo, essas ações dialogam com conquistas históricas do movimento feminista, como o direito ao voto e a construção de políticas públicas de enfrentamento à violência, incluindo delegacias especializadas, casas-abrigo e a Lei Maria da Penha.

A estratégia passa por informar, mobilizar e criar redes de apoio, ampliando o acesso a direitos e fortalecendo a autonomia das mulheres.

Memória feminista, formação e acesso ao conhecimento

Outro eixo da atuação do coletivo é a preservação da memória das lutas das mulheres. Nesse contexto, destaca-se o Espaço Feminista Enid Backes, que reúne um acervo com mais de 3 mil obras de literatura feminista, entre livros e materiais sobre temas como feminismo, capacitismo, direitos das mulheres LBT, mulheres negras e história dos movimentos sociais.

Para o coletivo, preservar essa memória é uma estratégia política. “Muitos dos direitos que temos hoje são resultado da organização e da mobilização do movimento feminista”, afirmam.

Além da preservação, o espaço também funciona como ambiente de formação, com oficinas, clubes de leitura e rodas de conversa. “Pensamos esse espaço como um lugar que pode ser ocupado por outras mulheres, com grupos, leituras e atividades coletivas”, afirma Iracet.

Formação de redes e atuação em diferentes territórios

A atuação do coletivo também se dá na formação de profissionais e no fortalecimento das redes de atendimento. Em municípios como São Leopoldo, o grupo atuou na capacitação de equipes, destacando a importância da formação contínua. “É uma cidade com uma rede bem completa, mas como as pessoas transitam muito, é importante estar sempre fazendo capacitação”, explica Iracet.

Atualmente, o coletivo realiza formação com profissionais e usuárias dos nove Centros de Referência Especializado de Assistência Social (Creas) de Porto Alegre, com previsão de um seminário ao final do processo. “São nove Creas, com formação para os profissionais e para as usuárias, e um grande seminário”, expõe a coordenadora.

O coletivo também desenvolve projetos em diversas frentes, como o Girassóis, Ponto de Cultura, o Saberes e Poderes de Meninas e Mulheres e a produção do espetáculo Brilhante Nega Lu. Outra iniciativa é o projeto Garotas de Vermelho, voltado à dignidade menstrual.

Também está em desenvolvimento o projeto Ocupa Sapatão, com atividades em Tramandaí, Porto Alegre e Rio Grande, incluindo oficinas sobre saúde LBT, saúde mental e prevenção. As ações em Porto Alegre devem ocorrer em agosto, durante a Semana da Visibilidade Lésbica, ainda em fase de articulação.

Além da preservação, o espaço também funciona como ambiente de formação, com oficinas, clubes de leitura e rodas de conversa | Crédito: Arquivo Pessoal

Feminicídios expõem falhas estruturais

Mesmo com avanços legislativos, o cenário de violência segue crítico. O Rio Grande do Sul registrou 80 feminicídios em 2025 e já soma 27 de casos em 2026 (até 10/4/2026). “Isso nos faz pensar o que está faltando e o que ainda precisamos cobrar como política pública.”

Segundo o coletivo, a persistência desses números está relacionada ao desmonte das políticas públicas, à falta de orçamento adequado e à baixa execução dos recursos, além da permanência de uma cultura machista.

A integrante do Feminino Plural e conselheira estadual de Direitos Humanos Cris Bruel reforça que a violência precisa ser compreendida de forma estrutural. “Existe todo um contexto por trás dessas violências. Quando o patriarcado é atacado, há uma resposta. A estrutura não quer ser modificada”, explica. Também pesa, segundo a organização, a disseminação de discursos misóginos nas redes sociais, impulsionados por grupos como redpills e incels.

Leis avançam, mas ainda enfrentam limites

O coletivo destaca que sua atuação antecede legislações fundamentais, como a Lei Maria da Penha, que completa 20 anos em 2026.

Apesar dos avanços, a organização aponta a necessidade de constante atualização das políticas, incluindo o enfrentamento à violência digital e o aprimoramento da Lei do Feminicídio, que passou por mudanças recentes.

Para o coletivo, o enfrentamento à violência passa também pelo fortalecimento de políticas de prevenção, incluindo os grupos reflexivos com homens autores de violência. “Muitas vezes esses grupos são realizados de forma voluntária, quando deveriam ser estruturados como política pública, com profissionais remunerados”, explica Iracet.

Segundo ela, essas iniciativas são fundamentais para interromper ciclos de violência. “A ideia é que esses homens voltem para a sociedade repensando seus atos, entendendo o machismo e para que não repitam essas atitudes com outras mulheres.”

A atuação do Coletivo Feminino Plural se dá de forma articulada em diferentes espaços. Mariza Iracet integra o Conselho Estadual dos Direitos da Mulher; Cris Bruel participa do Conselho de Direitos Humanos; e Thais Siqueira coordena a Lupa Feminista.

Com gestão compartilhada e perspectiva interseccional, o coletivo aposta na construção de espaços de escuta e fortalecimento. “As rodas de conversa são fundamentais para que as mulheres percebam que não estão sozinhas e que, juntas, com informações, podem transformar suas realidades”, finaliza Iracet.

Editado por: Katia Marko

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