A participação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na cúpula do G7 foi marcada por divergências com as principais economias ocidentais e por uma avaliação crítica do papel desempenhado pela União Europeia diante do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Integrantes do governo brasileiro avaliam que a Europa atravessa uma crise de liderança e tem adotado uma postura de excessiva dependência em relação a Washington.
Segundo uma fonte palaciana, a própria organização da cúpula teria sido moldada para evitar atritos com Trump. Na leitura do governo, temas tradicionalmente associados ao G7, como combate às mudanças climáticas, fortalecimento do multilateralismo e financiamento ao desenvolvimento, perderam espaço para agendas consideradas prioritárias pelos Estados Unidos.
O diagnóstico apareceu também na análise dos documentos aprovados durante o encontro. O Brasil assinou apenas três declarações conjuntas: a de combate ao câncer, a de proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital e a de enfrentamento ao tráfico de drogas. Já outros textos foram considerados incompatíveis com posições defendidas por Brasília ou excessivamente alinhados à visão geopolítica das potências do Norte Global. Entre os documentos adotados pelos líderes estiveram declarações sobre parcerias internacionais, combate ao Ebola, tráfico de drogas, migração e temas geopolíticos.
Outro ponto de atrito foi o debate sobre a China. De acordo com integrantes da comitiva brasileira, parte dos países do G7 atribuiu ao modelo econômico chinês parte dos desequilíbrios da economia global. Lula rebateu essa interpretação e argumentou que o crescimento chinês ocorreu dentro das regras da globalização estabelecidas pelas próprias economias desenvolvidas. O presidente brasileiro também encontrou respaldo em líderes de países convidados, que destacaram a importância dos investimentos chineses para o desenvolvimento de nações emergentes.
A área digital foi uma das poucas em que houve maior convergência entre os participantes. A declaração apoiada pelo Brasil sobre proteção de menores na internet prevê que plataformas adotem mecanismos de segurança desde a concepção de seus serviços, ampliem sistemas de verificação de idade e fortaleçam medidas contra conteúdos nocivos. O debate também esteve associado aos impactos da inteligência artificial sobre crianças e adolescentes e à responsabilização das grandes empresas de tecnologia.
