Após a assinatura virtual do memorando que marcou o compromisso preliminar dos Estados Unidos e do Irã em encerrar o conflito, ocorrida na quarta-feira (17), nesta sexta-feira (19), estava previsto um encontro para selar oficialmente o acordo de paz na Suíça. O vice-presidente estadunidense, JD Vance, no entanto, desmarcou a viagem. O Ministério das Relações Exteriores suíço anunciou, em comunicado: “As conversações previstas entre Estados Unidos, Irã, e os mediadores Catar e Paquistão foram adiadas”, sem divulgar uma nova data.
Nesta sexta (19), um ataque de Israel no Líbano deixou 47 mortos. A interrupção do plano de dominação israelense no Oriente Médio, com destaque para o Líbano, estava prevista no memorando.
A jornalista Flavia Gianini, especializada em política e economia internacional, avalia que o simbolismo do adiamento é bastante negativo e sinaliza o desalinhamento entre os aliados Estados Unidos e Israel.
“O Irã comemorou publicamente esse acordo. Os itens são quase uma carta de rendição dos Estados Unidos relacionada à guerra. Netanyahu sentiu essa pressão e, em vez de recuar, ele vai mais para cima. Isso gera uma instabilidade regional. A gente tem aí talvez uma retomada de sanções e medidas econômicas e militares, interrupção nos corredores comerciais, que é a grande causa desse conflito. E a gente tem um enfraquecimento da confiança mútua para esse acordo funcionar, já que, para que isso ocorra, os dois lados têm que concordar e cumprir. O que a gente acabou de ver é que, mesmo os EUA avançando nas negociações e fazendo esse acordo, o Netanyahu vai ter que ou ceder ou apertar até quando não conseguir mais manter essa conversa”, afirma.
Gianini analisa especificamente um dos pontos do acordo, que é o aporte que os EUA, o país agressor, teriam que pagar para reconstruir o Irã, fixado em US$ 300 bilhões. A jornalista explica que, nesses casos, existe uma corresponsabilidade para custear esses valores, até porque há interesses maiores econômicos na retomada do funcionamento pleno do Estreito de Ormuz.
“Essa foi uma moeda de troca estadunidense que o governo trouxe para o acordo de negociação, no qual eles ajudariam a financiar. Mas, no geral, esses acordos são uma combinação entre recursos do país, investimento privado de empresas e grupos privados que têm interesse em que o corredor volte a funcionar, porque a guerra é economicamente inviável, no começo, para certos grupos, mas depois de um tempo se torna para a maioria deles. Ela começa a dar prejuízo e, quando todo mundo começa a ter prejuízo, todo mundo se sacode para resolver o problema”, aponta. “Isso aconteceu, por exemplo, no Iraque. Lembrando que esses países que sofreram guerra não foram reconstruídos completamente até hoje.”
Ainda sobre o Estreito de Ormuz, o Irã anunciou que não vai cobrar taxas de embarcações que passarem pelo canal por pelo menos 60 dias. “Isso influencia, porque isso destrói os planos de Netanyahu de manter, de certa forma, o controle da região. O que ele quer é o controle da Ásia Ocidental, que a gente chama erroneamente de Oriente Médio. Israel está localizada numa parte comercial muito fundamental para tudo isso. Como todo mundo começou a ter prejuízo, é hora de organizar para todo mundo”, aponta Flávia Gianini, que acrescenta que essa manobra pode pressionar ainda mais Netanyahu a manter sua ofensiva.
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