A guerra está cada vez mais dentro do território da Rússia. A Ucrânia realizou um dos maiores ataques ao país, incluindo a capital Moscou, em toda a guerra, lançando cerca de 200 drones contra a capital na manhã da última quinta-feira (18), atingindo áreas civis e de infraestrutura energética. O Kremlin prometeu retaliação “massiva e regular”. A intensificação dos ataques consolida o cenário de escalada da guerra, redesenha o cálculo da Rússia e da Ucrânia, e deixa as perspectivas de paz mais distantes.
Foram quase 1.000 drones lançados em diversas regiões do país. Durante o ataque a Moscou, em particular, foram atingidos estabelecimentos comerciais, prédios residenciais, e todos os quatro aeroportos da capital foram fechados na parte da manhã. Uma criança morreu e outras 16 pessoas ficaram feridas. Além disso, os drones atingiram a refinaria de petróleo de Moscou, que foi atacada pela segunda vez em menos de uma semana, causando uma grande nuvem de fumaça que encobriu o céu da cidade.
Em entrevista ao Brasil de Fato, o analista do International Crisis Group para a Rússia, Oleg Ignatov, aponta que estes ataques ucranianos possuem um caráter tanto simbólico, de efeito moral, quanto estratégico. Segundo ele, os dois objetivos atuais da lógica militar da Ucrânia se baseiam em “tentar interromper a logística militar russa ao redor da linha de frente e intensificar os ataques de longo alcance contra a infraestrutura petrolífera russa em Moscou”. Os ataques visam atingir fábricas militares e cidades importantes como Moscou e São Petersburgo.
“Isso tem um significado simbólico porque se trata de Moscou, e tem um significado estratégico porque a Ucrânia está tentando interromper o refino de petróleo russo para causar problemas no mercado de combustíveis. Este não é o primeiro ano em que eles fazem isso, só que agora as capacidades aumentaram. E, portanto, esses ataques se intensificaram”, explica Ignatov.
A reação imediata das autoridades russas foi de, em primeiro lugar, prometer uma retaliação firme contra a Ucrânia. Em um comunicado à imprensa, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Serguei Lavrov, afirmou que Moscou irá responder às ações de Kiev com “ataques massivos regulares”.
Já o porta-voz da presidência russa, Dmitry Peskov, buscou ressaltar o fato de que os danos foram poucos diante de um ataque com tamanha proporção. Ele afirmou que, “apesar de tudo, os sistemas de defesa aérea demonstraram excelente desempenho”, considerando que a maioria dos drones foram repelidos.
Nesta sexta-feira (19), as tentativas de ataques ucranianos contra a capital russa continuaram, com dezenas de drones lançados contra Moscou, mas todos foram abatidos pelos sistemas de defesa e não causaram danos na cidade, conforme informou o prefeito Serguei Sobianin.
Ataques de longa distância X ofensiva russa em Donbass
Não é a primeira vez que os ataques ucranianos alcançam a capital russa. Em 2023, drones chegaram a atingir áreas centrais da cidade, mas, depois disso, os sistemas de defesa aérea foram fortemente reforçados e não foram registrados ataques semelhantes em mais de dois anos. Portanto, os ataques da última quinta-feira refletem não somente o cenário de escalada da guerra, mas também evidenciam a atual capacidade da Ucrânia de furar a blindagem aérea russa sobre a capital.
De acordo com Ignatov, a tática destes ataques de longa distância é tentar “desestabilizar a logística russa”, bem como a situação política interna na Rússia. “Ou seja, criar a imagem de que a Rússia, se não está perdendo a guerra, está em um beco sem saída e precisa negociar”, completa.
O analista destaca que isto acontece em um cenário de incapacidade de Kiev conseguir reverter a ofensiva russa na região de Donbas, no leste ucraniano, onde acontecem os combates mais intensos entre os exércitos de ambos os países pela conquista de territórios.
“Ao mesmo tempo, a Rússia continua sua ofensiva em Donbass. E a Ucrânia não conseguiu deter o exército russo na região. Então, por um lado, a situação é a Rússia tomando território ucraniano e continuando a fazer isso. Por outro lado, sim, a Ucrânia está tentando aumentar o custo da guerra para a Rússia. Há uma espécie de corrida para ver quem consegue atingir seus objetivos mais rapidamente”, argumenta.
A atual fase do conflito mostra que a resolução segue distante. E, apesar do aumento dos ataques em longas distâncias em diversas regiões russas e ucranianas, a batalha no terreno por Donbass é que pode ter um papel definidor. A Rússia já declarou diversas vezes que pode interromper as ações militares assim que as forças ucranianas se retirarem das posições que ainda ocupam em Donetsk e Lugansk. Mas Kiev não abre mão de defender o controle sobre estes territórios.
Desta forma, os confrontos tendem a intensificar também na linha de frente, pois os resultados dos avanços russos em Donbass podem determinar o rumo das negociações de paz. Oleg Ignatov lembra que as autoridades russas, em particular, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, e o assessor presidencial, Yuri Ushakov, já anunciaram abertamente que o controle pleno sobre as regiões de Donetsk e Lugansk representa uma condição para a resolução da guerra.
De acordo com Ignatov, tal afirmação é difícil de reverter, pois nesse caso a tomada de Donbass já configura uma “decisão política”. E, nesse sentido, o cálculo é: se não for possível controlar Donbass por meio de negociações, então a tomada vai ser pela força e, assim, negociar uma resolução com base nessa posição de força, “exigindo algo mais ou adaptar suas exigências de alguma forma”.
“Acho que, com tanto em jogo, será difícil para a Rússia abandonar a ideia de tomar a região do Donbas. E para a Ucrânia também não será possível simplesmente sair de lá. Então, por isso, a batalha por Donbas pode de fato ser a última batalha da guerra, mas será muito difícil, talvez longa”, completa o analista.
