27ª Edição

GO: Festival de Cinema Ambiental expõe paralelo entre vitrine verde e fomento para povos e comunidades tradicionais

Premiação consagra narrativas de denúncia territorial, mas escancara contradições do circuito audiovisual

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27ª edição do Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (Fica 2026)
27ª edição do Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (Fica 2026) | Crédito: João Palhares/Brasil de Fato DF

Após quase uma semana de programação entrelaçada à 27ª edição do Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (Fica), na tarde do domingo, 21 de junho, já não se via mais os becos e ruas de pedra do Centro Histórico da antiga Vila Boa tão cheios. Ainda pela manhã, o evento concentrou pessoas-realizadoras audiovisuais e homenageadas para a cerimônia de encerramento e premiação no Cine Teatro São Joaquim, ocasião em que 16 produções das Mostras Competitivas receberam troféus e menções honrosas. 

Apesar do clima de celebração e do expressivo investimento que marcou o encerramento do evento, uma análise mais atenta à lista de vencedores e aos valores distribuídos revela uma fratura estrutural. Se por um lado as narrativas dos povos originários seguiram com um espaço de exibição inédito, representando quase um quarto de todos os filmes competitivos do Festival, o fomento financeiro escancarou as desigualdades do circuito: a Mostra Indígena ficou com apenas 14% dos R$ 355 mil distribuídos em prêmios, conforme apuração do Brasil de Fato DF.

Embora temáticas sobre povos originários circundem a movimentação em torno das datas do Festival, e demais exibições – como o documentário O Jardim de Maria, vencedor do Prêmio Fiocruz na mostra internacional -, a análise estrutural se volta para a vitrine institucional criada especificamente para esses realizadores: a Mostra de Cinema Indígena e de Povos Tradicionais. Das 38 obras exibidas nas quatro mostras competitivas do Fica, nove integram a produção de povos tradicionais, dentre elas os premiados Wilfred Buck e O Brilho da Herança.  

Isso significa que quase 24%, praticamente um quarto de todo o peso curatorial do Festival, foi dedicado a essas narrativas. No entanto, quando o prestígio da exibição se converte em fomento financeiro e reconhecimento técnico, a proporção encolhe drasticamente: ao todo, o Fica 2026 distribuiu R$ 355 mil em prêmios em dinheiro. Desse montante, a Mostra Indígena e de Povos Tradicionais contou com apenas R$ 50 mil, que equivale a pouco mais de 14% de todo o recurso de premiação. 

A discrepância ocorre porque, diferentemente de mostras como a do Cinema Goiano com cerca de 39% do total pulverizados em 11 categorias diferentes, a Mostra Indígena é restrita a apenas duas categorias financeiras, sendo Melhor Longa e Melhor Curta. Dessa forma, cineastas e técnicos indígenas e quilombolas não possuem, dentro de sua própria mostra, a oportunidade de serem remunerados e reconhecidos por prêmios técnicos fundamentais, como Melhor Direção, Melhor Fotografia, Som ou Montagem. 

Os debates urgentes sobre a conservação de terras-territórios, enfrentamento aos conflitos inerentes às mudanças climáticas e a ofensiva do agro-hidro-mineronegócio,  e, sobretudo, a ameaça de fechamento do curso de Cinema e Artes Visuais do Instituto Federal de Goiás (IFG) reafirmaram o potencial de anúncio e denúncia do espaço. No entanto, diante do cenário, não conseguiram camuflar contradições políticas e climáticas que cercam a organização do evento, conforme aponta o cineasta do povo quéchua, da Bolívia, Iván Molina Velázquez.

Público acompanhou debates e mostras na programação do Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (Fica 2026)
Público acompanhou debates e mostras na programação do Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (Fica 2026) | Crédito: Secult/Governo de Goiás

E agora, o que fazer para além das telas?

Com quase 37 anos de carreira dedicados à produção de documentários e à formação audiovisual, Iván estava de passagem pela cidade de Goiás, momento em que também apresentou as produções Taypi e La Illa (Bolívia) e participou de rodas de conversas da 8ª Tenda Multiétnica. Em conversa com o Brasil de Fato DF, o cineasta fez uma análise crítica sobre o papel dos festivais de cinema ambiental na atualidade, contrapondo o formato institucionalizado e mercadológico à urgência da crise climática global e à reflexão a partir das narrativas e cosmovisões dos povos originários.

Para Molina, as urgências climáticas exigem uma transformação profunda não apenas nas temáticas dos filmes, mas na própria forma de fazer cinema. Segundo o cineasta, a estética hegemônica validada pelo mercado é invariavelmente antropocêntrica e incapaz de traduzir a pluralidade das cosmologias originárias. “Quando você vê a cosmovisão, a mitologia dos povos, o sujeito não é uma pessoa, o sujeito é um rio. É uma montanha, é uma árvore, é um pássaro”, explica o documentarista. 

Em sua análise, após a participação nas mostras competitivas do Festival,  pontuou que a linguagem ocidental, ainda presente em algumas produções, veem “que o personagem tem que ser a pessoa”, o que reforça uma linguagem “aristotélica” de que o homem crê que o planeta é dele. Molina questiona a imposição desses modelos narrativos sobre pessoas-realizadoras, exigindo liberdade estética: “Por que [o cinema indígena] tem que ter o parâmetro de validação pela linguagem hegemônica? Cinema indígena é cinema indígena!”, enfatiza.

A ruptura de perspectiva, para o cineasta, estende-se à própria ilusão do “ambientalismo urbano”. Ao analisar o distanciamento entre as discussões teóricas dos festivais e a prática da conversação, Molina é incisivo ao desconstruir a ideia de que a crise climática será resolvida a partir de pequenas atitudes sustentáveis nos grandes centros metropolitanos. Assim como demais diálogos socializados durante o Festival, o cineasta exige a reivindicação urgente de protagonismo, mas não só concentrada sobre os povos: “o que nós fazemos nas cidades não salva a terra, a terra não vai ser salva nas cidades; são os povos indígenas que salvarão a terra”. 

Diante de um “planeta enfermo”, o papel de um evento como o Fica surge para além da projeção de filmes. Em uma metáfora do universo audiovisual, Molina provoca: a urgência de olhar para além da tela iluminada e decidir se vai, de fato, interagir com as realidades e vozes marginalizadas que circundam o evento. “No cinema falamos disto: se escuta o que está fora de campo. Tem a imagem, mas escuta o que não se vê? Vou olhar o que escuto ou não? É uma decisão que têm que fazer”, encerrou sua fala sobre a organização do Festival. 

Festival Fica 2026 pauta comunicação e luta por direitos indígenas
Debate no Festival Fica 2026 pautou comunicação e luta por direitos indígenas | Crédito: João Palhares/Brasil de Fato DF

Premiações 

A Mostra de Cinema Indígena e Povos Tradicionais premiou o longa-metragem canadense Wilfred Buck, de Lisa Jackson, e o curta nacional O Brilho da Herança, de Deco Machado. A mostra ainda concedeu uma Menção Honrosa ao documentário Thutalinãnsu, de Helena Corezomaé, exaltando a organização coletiva e o protagonismo das mulheres indígenas.  Para o cineasta e quilombola Fábio Martins, jurado da mostra, essas produções não são apenas expressões artísticas, mas instrumentos vitais de sobrevivência territorial frente à mineração e ao racismo ambiental. 

“O audiovisual é mais uma ferramenta fundamental para que nossas vozes ecoem na defesa dos territórios”, reflete Martins. Definindo o atual momento criativo dessas pessoas-realizadoras como um processo de “CultuAção”, onde cultura e ação caminham juntas, o cineasta destaca que, não por acaso, os territórios mais preservados do Brasil são aqueles cuidados por povos tradicionais. “Nossas narrativas fortalecem a luta pela preservação da vida, da cultura e da natureza”, destaca. 

O papel de guardiãs de memórias também se fez presente na Mostra do Cinema Goiano. A exibição de locais consagrou Atravessa Minha Carne, de Marcela Borela com Melhor Longa, além de prêmios de Fotografia, Montagem e Trilha Musical; e o curta-metragem Canto, de Danilo Daher, com cinco troféus, incluindo Melhor Curta, Direção e Roteiro. No cinema goiano ainda foram premiados Som e Movimento, com Melhor Direção de Longa para Silvana Beline e Vasta Natureza de Minha Mãe com Melhor Som para Aristóteles Tothi.

Na Mostra Becos da Minha Terra, Todo Ser Humano, de Ismael Lombardi, conquistou os prêmios de Melhor Filme e Melhor Direção. Já Espelho de Vênus venceu nas categorias Melhor Montagem e Melhor Roteiro, enquanto Super 8, de Michel Queiroz, recebeu o prêmio de Melhor Som. Avaliando a importância dessas produções estaduais, Tuanny Araujo, atriz, diretora e jurada da mostra goiana, ressaltou o poder de recontar a história a partir de perspectivas diversas, em especial o protagonismo de corpos e vivências negras. 

Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (Fica 2026) distribuiu R$ 355 mil em prêmios
Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (Fica 2026) distribuiu R$ 355 mil em prêmios | Crédito: Secult/Governo de Goiás

“Cada filme deixa para a posteridade rastros da nossa história contada pela perspectiva de quem está no centro dessa construção”, aponta Tuanny, evidenciando o cinema regional como um indispensável “dispositivo de reconstrução histórica” e de partilha coletiva.

Na Mostra Internacional Washington Novaes, foram condecorados o longa A Noite e o Dia de Miguel Burnier, de João Dumans, com o Prêmio Cora Coralina de Melhor Longa-Metragem e o prêmio Carmo Bernardes de Direção. Entre os curtas, o iraniano Bablooi levou o troféu Acari Passos, enquanto ROL, o rio levava as manchas da vida, venceu como Melhor Filme Goiano. O documentário Pau d’Arco, de Ana Aranha, despontou como uma das obras mais aclamadas pelo seu retrato urgente da violência agrária, recebendo Menção Honrosa e os prêmios do Júri Jovem e do Júri da Imprensa. 

Para além das produções, a presença na mesa de avaliação da mostra principal também foi um ato político. A cineasta e professora Patrícia Yxapy, do povo Mbyá-Guarani, pontuou que ocupar a cadeira de jurada oficial não é uma concessão fácil, mas o resultado de “muito esforço” e das históricas “lutas dos povos indígenas”. As obras projetadas na competição internacional são essenciais porque exigem do público um confronto direto com violências contemporâneas, explicou em entrevista ao Brasil de Fato DF.

“[O cinema] traz muita reflexão, traz muito esse pensamento, esse olhar sobre o momento em que a gente tá vivendo mesmo, os conflitos com agronegócio, tanto a gente como povos indígenas quanto outras minorias”, refletiu Yxapy, reafirmando que o cinema só tem sentido se for utilizado como ferramenta de luta. 

Desdobramentos

Foi nesse cenário de movimentos em torno de identidades e narrativa institucional, que a comunidade acadêmica e cultural do IFG Campus Goiás também teve uma conquista diante da reavaliação imposta pela Direção-Geral do IFG, que pode resultar na suspensão de vagas do bacharelado em Cinema sediado na Cidade de Goiás. O protesto em defesa do espaço, protagonizado durante a abertura da 27ª edição do Festival, ganhou contornos nacionais no encerramento, com o endosso contundente da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). 

Estudantes, professores, egressos e artistas realizaram ato em frente ao Cine Teatro São Joaquim durante a abertura do Fica 2026, na capital goiana.
Estudantes, professores, egressos e artistas realizaram ato em frente ao Cine Teatro São Joaquim durante a abertura do Fica 2026, na capital goiana. | Crédito: João Palhares/Brasil de Fato DF

Em uma declaração oficial assinada por Márcia Corrêa e Castro, coordenadora do Canal Saúde e jurada da Mostra Fiocruz, a instituição classificou como um “contrassenso” a ameaça ao curso em um momento de expansão da indústria. O documento expôs uma fratura regional profunda: enquanto o audiovisual contribui com R$ 70,2 bilhões para o Produto Interno Bruto (PIB) nacional, ele segue esmagadoramente concentrado no Sudeste, que em 2025 concentrou 105 longas contemplados pelo Fundo Setorial, contra apenas 14 do Centro-Oeste. A declaração reforça que fechar o polo do IFG é inviabilizar o direito dos jovens da região de participarem ativamente e de sonharem com a democratização da produção. 

Em conversa com o Brasil de Fato DF, Márcia alertou que a concentração de fomento no Sudeste reflete diretamente em como a memória do país é construída. “Isso reflete o fato de que a maneira como a história no Brasil é contada está privilegiando muito uma determinada perspectiva. E eu não acho que isso seja mais aceitável”, criticou. De acordo com ela, Diante de uma indústria que movimenta 0,6% do PIB nacional, a queda dos cursos no Campus de Goiás aparece como um “contrassenso” histórico. “Se os IFs foram criados para democratizar o acesso ao conhecimento, não tem nada mais pertinente do que um IF de audiovisual no Centro-Oeste, que está pouquíssimo representado nesse mercado”, complementou.

Para a pesquisadora, eventos como o Fica atraem os olhares da indústria para uma cidade no interior do estado, bem no “meio do agronegócio”. Acabar com essa formação, segundo ela, é retirar de cena a oportunidade de a juventude local e de regiões vizinhas, como o Norte, disputar e se expressar dentro desse espaço de poder.


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Editado por: Flávia Quirino

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