Inspirado na trajetória de Iara Iavelberg, psicóloga e militante brutalmente assassinada pela ditadura militar brasileira em 1971, o espetáculo “Iara – A Dialética do Mito” faz sua primeira temporada em São Paulo neste fim de semana, após mais de uma década de circulação internacional. As apresentações ocorrem neste sábado (28) e no domingo (28), na Casa Teatro de Utopias, na Lapa, na zona oeste da capital paulista. As sessões serão seguidas de debates com o público.
Livremente inspirada na história da guerrilheira paulista, a peça evita uma reconstrução biográfica tradicional. Em cena, a atriz Camila Scudeler percorre diferentes personagens femininas para refletir sobre o protagonismo das mulheres na resistência ao regime militar e sobre o apagamento de suas histórias.
“Nossa preocupação sempre foi falar dela. O [Carlos] Lamarca, [companheiro de Iara], nem é muito mencionado porque o foco é exatamente esse outro lugar, essa mulher, essa história”, explica a atriz. “As sessões de tortura tinham um recorte de gênero. Além de lutar contra a ditadura, essas mulheres também rompiam os estereótipos femininos da época”, destaca Scudeler.
Psicóloga formada pela Universidade de São Paulo (USP), Iara ingressou na militância política após o golpe de 1964. Ela integrou a Organização Revolucionária Marxista Política Operária (Polop), a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), a VAR-Palmares e, posteriormente, o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), organização à qual ingressou junto com seu companheiro, Carlos Lamarca. Os dois se conheceram em abril de 1969, dois meses após a deserção do ex-capitão do Exército. O casal passou a integrar a lista dos mais procurados pela ditadura militar, com fotografias espalhadas por todo o país.
Em agosto de 1971, Iara foi cercada por agentes da repressão em Salvador (BA). Embora a ditadura tenha divulgado que ela havia cometido suicídio, investigações posteriores comprovaram que a militante foi assassinada. Em 2004, o Estado brasileiro reconheceu oficialmente sua responsabilidade pela morte.

Criada em 2014 pelo Grupo Arlequins, em coprodução com o Cuerpo Abierto Teatro (Colômbia-Brasil), para marcar os 50 anos do golpe militar,”Iara – A Dialética do Mito” chega agora à capital paulista em um contexto político muito diferente daquele de sua estreia.
Depois da ascensão da extrema direita ao poder, das tentativas de golpe de Estado protagonizadas pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e da intensificação das disputas em torno da memória histórica, a obra ganha novos significados.
“A peça estreou em 2014, era tudo antes de Bolsonaro, ainda no governo Dilma [Rousseff]. Tantas águas rolaram de lá para cá nesses 12 anos”, reflete a atriz Camila Scudeler. “Tem sido muito interessante acompanhar como o espetáculo dialoga com diferentes contextos políticos e sociais”, pontua.
Depois de estrear na Colômbia, em 2014, o espetáculo passou por Argentina, Cuba e Estados Unidos. A atriz conta que uma das reações mais frequentes do público estrangeiro é o desconhecimento sobre a ditadura brasileira.
“Muita gente conhece as ditaduras do Chile e da Argentina, mas nunca ouviu falar da brasileira. Ao mesmo tempo, no próprio Brasil, ainda há muita gente que desconhece esse período. Para chegar ao absurdo de, em 2018, ter gente pedindo a volta da ditadura. É um trabalho de formiguinha, mas essencial.”

A circulação internacional também influenciou na construção da peça. Scudeler explica que o espetáculo foi concebido para dialogar com públicos de diferentes países, combinando português, espanhol e inglês, aproximando experiências históricas compartilhadas pelos países latino-americanos.
“A ideia é diminuir barreiras e mostrar que o idioma não é necessariamente um limite para a gente se entender. Muitas vezes existe essa separação entre latino-americanos e brasileiros, mas nós também somos latino-americanos. É possível dialogar”, afirma.
Serviço
Iara – A Dialética do Mito
Quando: 27 e 28 de junho, às 18h
Onde: Casa Teatro de Utopias – Rua Duilio, 46, Lapa, São Paulo (SP)
Ingressos: R$ 50 (inteira), R$ 25 (meia) e R$ 100 (ingresso de apoio), via Sympla.
Duração: 60 minutos, seguidos de debate com o público.
