Cúpula do Mercosul

Em discurso, Lula dá recado a Trump, defende soberania da América Latina e incentiva acordo com a China

Presidente também citou sua candidatura às eleições 2026 para que Brasil 'se mantenha como um país democrático'

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Lula participou de reunião de cúpula que encerrou a presidência paraguaia do Mercosul.
Lula participou de reunião de cúpula que encerrou a presidência paraguaia do Mercosul. | Crédito: Daniel Duarte/AFP

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) defendeu a integração sul-americana, em discurso realizado nesta terça-feira (30), durante a reunião de cúpula do Mercosul em Assunção, no Paraguai.

Em recado indireto ao presidente Donald Trump – cuja política externa do governo vem ameaçando a soberania de países da América do Sul –, Lula sugeriu que ninguém seria “dono da América do Sul”. O mandatário brasileiro aproveitou o discurso para defender negociações comerciais do Mercosul com a China.

“Ninguém é dono do mundo. E ninguém é dono da América do Sul. Nenhum país do Mercosul ganhará mais liberdade de ação por meio de alinhamentos automáticos ou escolhas excludentes. Nossa força estará na capacidade de dialogar com todos, sem deixar de lado nossos interesses. Diversificar parcerias, ampliar a cooperação e preservar a autonomia são requisitos para que a região encontre seu espaço em um mundo em transformação”, disse Lula. 

“O Mercosul está avançando nos diálogos com Canadá, Índia e Vietnã. Nesta cúpula, daremos mais um passo ao lançar as negociações de uma parceria econômica com o Japão. Em breve, queremos fazer o mesmo com a China e seguir nos aproximando dos mercados mais dinâmicos do planeta”, seguiu Lula.

O Brasil vem sendo afetado por tarifas comerciais impostas por Washington. No ano passado, o “tarifaço” de Trump exigiu esforços diplomáticos por parte de Brasília. Neste ano, os EUA propõem uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros

Em relação à China, o Brasil foi o país que recebeu o maior volume de investimentos chineses em 2025, totalizando US$ 6,1 bilhões, segundo levantamento publicado pelo Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC) no último mês de maio.

Lula chegou a se reunir com Trump na capital estadunidense para tratar sobre o tema. No discurso em Assunção, o presidente brasileiro apontou para os riscos do protecionismo comercial. 

“Guerras e conflitos aprofundam a instabilidade global e elevam os preços dos alimentos e da energia. O protecionismo ressurge como resposta falaciosa à complexidade dos desequilíbrios macroeconômicos globais. A fragmentação da economia mundial impõe severos desafios ao comércio, aos investimentos e ao desenvolvimento sustentável”, avaliou Lula. 

A reunião de cúpula deste ano teve como pano de fundo as recentes mudanças de poder na América do Sul, especialmente as eleições de Abelardo de Espriella, no Equador, e Keiko Fujimori, no Peru, nomes da extrema-direita sul-americana.

No discurso, Lula chegou a citar os resultados eleitorais, destacando a institucionalidade democrática dos países citados. 

Para o professor André Araújo, professor de Relações Internacionais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) e pesquisador do Observatório de Regionalismo, o fato de dois governos de direita se somarem aos demais governos políticos do mesmo espectro político na região cria tensões para o Mercosul. “No entanto, o Brasil não fica necessariamente isolado”, avalia, em conversa com o Brasil de Fato

“Apesar das divergências políticas, as lideranças buscaram aspectos consensuais, acima das divergências ideológicas”. Segundo ele, a reunião mostrou certa unidade em relação ao Mercosul, especialmente em relação à agenda externa.

Um dos motores dessa coesão é o acordo Mercosul-União Europeia, que começou a vigorar parcialmente. “Nos últimos anos, houve uma aceleração na assinatura de acordos comerciais por parte do Mercosul”, diz Araújo, destacando a possibilidade de que um acerto comercial seja formalizado com o Canadá, além dos avanços em negociações com os Emirados Árabes Unidos, Coreia do Sul e Japão. 

No momento mais incisivo do discurso em Assunção, Lula disse que pretende se candidatar ao quarto mandato presidencial para que o Brasil “se mantenha como um país democrático”.

“Independentemente de quem seja eleito no Brasil, o Mercosul continuará sendo prioridade. O Mercosul não pode funcionar de acordo com a eleição deste ou daquele presidente. Senão, a gente nunca vai ter um bloco forte funcionando. Nunca vai conseguir se transformar em um bloco econômico de muita vitalidade”, explicou Lula.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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