POTÊNCIA POPULAR

Periferias e povos originários defendem cultura como resistência no Encontro de Culturas RS

Mesa em Porto Alegre reuniu Renato Freitas, GOG e Pedro Garcia em debate sobre território e memória

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Ao longo da mesa, os convidados defenderam a cultura como ferramenta de resistência, organização comunitária e transformação social
Ao longo da mesa, os convidados defenderam a cultura como ferramenta de resistência, organização comunitária e transformação social | Crédito: Fabiana Reinholz

A cultura produzida nas periferias e por povos historicamente marginalizados esteve no centro do debate da mesa “Cultura e Periferia: potência e futuro”, realizada na tarde de terça-feira (30), durante o Encontro de Culturas do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre. O debate reuniu o presidente da Comissão de Igualdade Racial da Assembleia Legislativa do Paraná, Renato Freitas, o rapper GOG e o mestre Kaingang Pedro Garcia, do Pontão Kaingang, com mediação da poeta, MC e arte-educadora da Restinga, PoetaDesperta.

Ao longo da mesa, os convidados defenderam a cultura como ferramenta de resistência, organização comunitária e transformação social. Em comum, as falas apontaram que as políticas culturais precisam ultrapassar a lógica do financiamento de eventos para fortalecer os territórios, reconhecer os saberes populares e garantir o protagonismo das populações negras, indígenas e periféricas.

A mediação da mesa ficou a cargo da PoetaDesperta, que abriu a conversa defendendo que discutir cultura passa, necessariamente, pelo reconhecimento dos territórios e dos povos que historicamente construíram o Brasil. Para ela, não é possível pensar políticas culturais sem considerar as relações entre identidade, pertencimento e direito ao território.

“A gente, para falar de cultura, não fala de cultura sem falar de território, né? E há muito tempo atrás os donos dos territórios do Brasil, principalmente, são os povos originários”, disse.

Ao conduzir o debate, a mediadora também propôs reflexões sobre o conceito de “corpo-território” e o aquilombamento como formas de resistência política e cultural. Dirigindo-se a Renato Freitas, destacou os desafios enfrentados por quem ocupa espaços institucionais historicamente negados à população negra e periférica. “Como que é aquilombar esse corpo, território, vivo?”

Cultura de resistência

Na sequência, Renato Freitas defendeu que as políticas culturais devem reconhecer a cultura produzida nas periferias como elemento central da organização popular. Para o deputado, foi o hip-hop que, nas décadas de 1990 e 2000, ofereceu à juventude negra um horizonte político em meio ao avanço da violência e do genocídio da população negra.

“O hip-hop construiu uma hegemonia de pensamento em todas as grandes periferias dos grandes centros urbanos brasileiros, sobretudo com a juventude preta que estava desesperançosa e suficientemente indignada com tudo o que se via até ali. Essa hegemonia foi de luta e resistência, de sobrevivência.”

Segundo Freitas, a cultura periférica possibilitou a formação política de uma geração inteira e contribuiu para processos históricos de transformação social. Ao mesmo tempo, alertou para o avanço da indústria cultural sobre os territórios populares, que, segundo ele, substitui produções críticas por conteúdos voltados ao consumo e ao individualismo.

“Isso daí é um domínio da indústria cultural que nos quer obedientes e perdidos em si mesmo, sem capacidade de organização”, afirmou.

Ao relacionar cultura e políticas públicas, o parlamentar defendeu que o papel do Estado é fortalecer as expressões culturais que nascem dos territórios e das comunidades.

“A política pública que o governo pretende, ou pelo menos que nós necessitamos a partir desses momentos de fortalecimento de pessoas que produzem cultura, é dar sentido à nossa tradição de resistência. A nossa cultura não é de quem tá embriagado em prazeres provindos do privilégio. A nossa cultura é de resistência. A cultura é de vida.”

Ainda durante a sua fala, Freitas aprofundou a crítica à lógica mercantil da produção cultural. Para ele, a chamada “alta cultura” historicamente serviu para excluir as manifestações populares, enquanto o mercado passou a disputar também a produção simbólica das periferias: “O mercado cultural é milionário. Por isso o Estado investe pouco em cultura para deixar mais autonomia, ou melhor o domínio, na mão dos cara”.

Em contraposição, defendeu uma concepção de cultura ligada ao cultivo da vida, da memória e das relações comunitárias. “A cultura que vem da raiz, a cultura que cultiva, vê nascer a árvore frondosa e se alimenta do fruto e promete o fruto para as próximas gerações.”

‘A saída é para dentro’

Já GOG levou ao debate a oralidade característica do hip-hop, conduzindo sua intervenção em versos rimados que misturaram poesia, crítica social e reflexão política. Ao afirmar que “a primeira geração do hip-hop brasileiro não vive uma história, nós somos a história”, o rapper defendeu o reconhecimento dos pioneiros ainda em vida. “O debate passa por dar as rosas em vida, porque morto não sentirei o seu perfume”, rimou, em defesa da valorização daqueles que construíram a cultura periférica.

Em seguida, GOG transformou a metáfora do futebol em uma crítica sobre consciência e identidade. “No país da bola, o que vai decidir o jogo é a bolinha dos olhos. Negão, olha para mim, tem que ser craque na bola dos olhos”, declamou, ao defender que a verdadeira transformação passa pela forma como a população enxerga a si mesma e sua realidade. Para o artista, a cultura não é algo distante ou restrito às elites, mas o próprio espaço onde os sujeitos constroem suas identidades. “A cultura viva é nosso templo, porque nós somos cultura.”

O rapper também criticou a visão elitizada da produção cultural. Segundo ele, ficou para trás o tempo em que “cultura era o livro mais alto da estante” ou um privilégio “dos cultos”. Na avaliação de GOG, o hip-hop e os movimentos sociais democratizaram esse conceito ao transformar a cultura em uma prática cotidiana, pertencente ao povo. “A saída é para dentro”, repetiu em diferentes momentos, defendendo que a transformação social nasce do reconhecimento da própria história, identidade e potência coletiva.

GOG diferenciou a importância das políticas públicas daquilo que chamou de “política do público”. Embora reconheça o papel do Estado, afirmou que a verdadeira revolução acontece quando as pessoas deixam de se reconhecer apenas pela falta e passam a construir pertencimento. “Potência é muito importante, mas eu quero querência. Transformar carência em querência”, rimou, defendendo que o fortalecimento das comunidades depende da valorização de sua própria capacidade de transformação.

Cultura viva e memória indígena

Representando o Pontão Kaingang, o mestre Pedro Garcia trouxe ao debate a perspectiva dos povos originários. Em seu relato, afirmou que seu processo de formação aconteceu fora das instituições formais de ensino, por meio dos ensinamentos transmitidos pelos mais velhos e da convivência com a floresta.

“Minha formatura como mestre Cuiã é junto com os meus antepassados. Aqueles eram meus professores e a minha universidade era mata fechada.”

Garcia recordou as violências sofridas pelos povos indígenas durante o processo de colonização, quando falar a própria língua e praticar os costumes tradicionais passou a ser proibido. “Eles proibiam nós falar na língua, eles proibiam nós usar nossos costumes.”

Ao defender o fortalecimento da Política Cultura Viva, ressaltou a importância do intercâmbio entre diferentes povos e comunidades para reconstruir saberes historicamente silenciados.”A cultura viva ensina sobre isso, todos nós que tamos aqui.”

Ele também defendeu que a preservação das culturas tradicionais representa um compromisso coletivo com as futuras gerações. “Vamos deixar um caminho bom, um Brasil melhor para nossa população brasileira.” No encerramento, Garcia realizou uma reza.

Editado por: Marcelo Ferreira

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