A cultura produzida nas periferias e por povos historicamente marginalizados esteve no centro do debate da mesa “Cultura e Periferia: potência e futuro”, realizada na tarde de terça-feira (30), durante o Encontro de Culturas do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre. O debate reuniu o presidente da Comissão de Igualdade Racial da Assembleia Legislativa do Paraná, Renato Freitas, o rapper GOG e o mestre Kaingang Pedro Garcia, do Pontão Kaingang, com mediação da poeta, MC e arte-educadora da Restinga, PoetaDesperta.
Ao longo da mesa, os convidados defenderam a cultura como ferramenta de resistência, organização comunitária e transformação social. Em comum, as falas apontaram que as políticas culturais precisam ultrapassar a lógica do financiamento de eventos para fortalecer os territórios, reconhecer os saberes populares e garantir o protagonismo das populações negras, indígenas e periféricas.
A mediação da mesa ficou a cargo da PoetaDesperta, que abriu a conversa defendendo que discutir cultura passa, necessariamente, pelo reconhecimento dos territórios e dos povos que historicamente construíram o Brasil. Para ela, não é possível pensar políticas culturais sem considerar as relações entre identidade, pertencimento e direito ao território.
“A gente, para falar de cultura, não fala de cultura sem falar de território, né? E há muito tempo atrás os donos dos territórios do Brasil, principalmente, são os povos originários”, disse.
Ao conduzir o debate, a mediadora também propôs reflexões sobre o conceito de “corpo-território” e o aquilombamento como formas de resistência política e cultural. Dirigindo-se a Renato Freitas, destacou os desafios enfrentados por quem ocupa espaços institucionais historicamente negados à população negra e periférica. “Como que é aquilombar esse corpo, território, vivo?”
Cultura de resistência
Na sequência, Renato Freitas defendeu que as políticas culturais devem reconhecer a cultura produzida nas periferias como elemento central da organização popular. Para o deputado, foi o hip-hop que, nas décadas de 1990 e 2000, ofereceu à juventude negra um horizonte político em meio ao avanço da violência e do genocídio da população negra.
“O hip-hop construiu uma hegemonia de pensamento em todas as grandes periferias dos grandes centros urbanos brasileiros, sobretudo com a juventude preta que estava desesperançosa e suficientemente indignada com tudo o que se via até ali. Essa hegemonia foi de luta e resistência, de sobrevivência.”
Segundo Freitas, a cultura periférica possibilitou a formação política de uma geração inteira e contribuiu para processos históricos de transformação social. Ao mesmo tempo, alertou para o avanço da indústria cultural sobre os territórios populares, que, segundo ele, substitui produções críticas por conteúdos voltados ao consumo e ao individualismo.
“Isso daí é um domínio da indústria cultural que nos quer obedientes e perdidos em si mesmo, sem capacidade de organização”, afirmou.
Ao relacionar cultura e políticas públicas, o parlamentar defendeu que o papel do Estado é fortalecer as expressões culturais que nascem dos territórios e das comunidades.
“A política pública que o governo pretende, ou pelo menos que nós necessitamos a partir desses momentos de fortalecimento de pessoas que produzem cultura, é dar sentido à nossa tradição de resistência. A nossa cultura não é de quem tá embriagado em prazeres provindos do privilégio. A nossa cultura é de resistência. A cultura é de vida.”
Ainda durante a sua fala, Freitas aprofundou a crítica à lógica mercantil da produção cultural. Para ele, a chamada “alta cultura” historicamente serviu para excluir as manifestações populares, enquanto o mercado passou a disputar também a produção simbólica das periferias: “O mercado cultural é milionário. Por isso o Estado investe pouco em cultura para deixar mais autonomia, ou melhor o domínio, na mão dos cara”.
Em contraposição, defendeu uma concepção de cultura ligada ao cultivo da vida, da memória e das relações comunitárias. “A cultura que vem da raiz, a cultura que cultiva, vê nascer a árvore frondosa e se alimenta do fruto e promete o fruto para as próximas gerações.”
‘A saída é para dentro’
Já GOG levou ao debate a oralidade característica do hip-hop, conduzindo sua intervenção em versos rimados que misturaram poesia, crítica social e reflexão política. Ao afirmar que “a primeira geração do hip-hop brasileiro não vive uma história, nós somos a história”, o rapper defendeu o reconhecimento dos pioneiros ainda em vida. “O debate passa por dar as rosas em vida, porque morto não sentirei o seu perfume”, rimou, em defesa da valorização daqueles que construíram a cultura periférica.
Em seguida, GOG transformou a metáfora do futebol em uma crítica sobre consciência e identidade. “No país da bola, o que vai decidir o jogo é a bolinha dos olhos. Negão, olha para mim, tem que ser craque na bola dos olhos”, declamou, ao defender que a verdadeira transformação passa pela forma como a população enxerga a si mesma e sua realidade. Para o artista, a cultura não é algo distante ou restrito às elites, mas o próprio espaço onde os sujeitos constroem suas identidades. “A cultura viva é nosso templo, porque nós somos cultura.”
O rapper também criticou a visão elitizada da produção cultural. Segundo ele, ficou para trás o tempo em que “cultura era o livro mais alto da estante” ou um privilégio “dos cultos”. Na avaliação de GOG, o hip-hop e os movimentos sociais democratizaram esse conceito ao transformar a cultura em uma prática cotidiana, pertencente ao povo. “A saída é para dentro”, repetiu em diferentes momentos, defendendo que a transformação social nasce do reconhecimento da própria história, identidade e potência coletiva.
GOG diferenciou a importância das políticas públicas daquilo que chamou de “política do público”. Embora reconheça o papel do Estado, afirmou que a verdadeira revolução acontece quando as pessoas deixam de se reconhecer apenas pela falta e passam a construir pertencimento. “Potência é muito importante, mas eu quero querência. Transformar carência em querência”, rimou, defendendo que o fortalecimento das comunidades depende da valorização de sua própria capacidade de transformação.
Cultura viva e memória indígena
Representando o Pontão Kaingang, o mestre Pedro Garcia trouxe ao debate a perspectiva dos povos originários. Em seu relato, afirmou que seu processo de formação aconteceu fora das instituições formais de ensino, por meio dos ensinamentos transmitidos pelos mais velhos e da convivência com a floresta.
“Minha formatura como mestre Cuiã é junto com os meus antepassados. Aqueles eram meus professores e a minha universidade era mata fechada.”
Garcia recordou as violências sofridas pelos povos indígenas durante o processo de colonização, quando falar a própria língua e praticar os costumes tradicionais passou a ser proibido. “Eles proibiam nós falar na língua, eles proibiam nós usar nossos costumes.”
Ao defender o fortalecimento da Política Cultura Viva, ressaltou a importância do intercâmbio entre diferentes povos e comunidades para reconstruir saberes historicamente silenciados.”A cultura viva ensina sobre isso, todos nós que tamos aqui.”
Ele também defendeu que a preservação das culturas tradicionais representa um compromisso coletivo com as futuras gerações. “Vamos deixar um caminho bom, um Brasil melhor para nossa população brasileira.” No encerramento, Garcia realizou uma reza.
