O racha da família Bolsonaro, após troca de farpas entre Michelle Bolsonaro, que se retirou do PL Mulher, e o senador e pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ), vem se agravando com o passar dos dias. Nesta quinta-feira (2), o presidente do PL, Valdemar da Costa Neto, afirmou que a ex-primeira-dama não participará da campanha do enteado. O episódio acontece depois que Michelle sinalizou que não quer seguir com a candidatura ao Senado.
Neste contexto de crise, a pesquisa Atlas/Bloomberg aponta que a grande maioria dos bolsonaristas (81,6%) prefere Flávio como candidato da direita.
O cientista político Paulo Niccoli Ramirez, professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), avalia que a crise que se instala e se torna pública neste momento expressa uma desorganização na campanha de Flávio. E pode até ser uma tentativa de testar Michelle como uma alternativa, caso a candidatura dele fique insustentável.
“O ideal para o campo da direita é que todas essas forças estivessem unificadas em torno da candidatura. Essa crítica que a Michelle fez com relação a Flávio reforça a imagem dela como uma possível candidata e revela até que ponto essa crise não seria orquestrada como um plano B, diante dessa queda livre de Flávio nas pesquisas”, afirma em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato.
Segundo Ramirez, o próprio presidente do partido já percebeu o nível de toxicidade de Flávio, seja por conta de novas acusações do escândalo do Banco Master ou pelas suas declarações misóginas, e, por essa razão, pode estar por trás dessa estratégia. “Mas vai pesar contra ela o fato de que, seja uma candidatura ao Senado ou à Presidência, tem uma grande parcela do eleitorado bolsonarista que não aceitaria jamais uma mulher presidindo o Brasil”, reforça.
O cientista político destaca o “amadorismo” da candidatura de Flávio Bolsonaro, não apenas com relação ao episódio com Michelle, mas às suas recentes ações nos Estados Unidos, já que o senador, dias após Lula e Trump terem realizado um encontro diplomático, foi até o país e retornou com um novo tarifaço contra o Brasil e um documento atacando o sistema Pix e, por consequência, a soberania.
“Primeiro ele apoia essa atitude e depois volta atrás, dizendo que isso tudo favoreceria a candidatura de Lula. Ele diz também que, caso seja eleito, haverá uma equipe de transição indicada por Trump, o que demonstra entreguismo. Parte do eleitorado votará em Flávio independentemente do que ele disser, o que indica um certo fundamentalismo político, quando o eleitor não tem qualquer capacidade crítica e torna-se totalmente obediente. E, consequentemente, entrega as forças políticas e econômicas aos EUA”, avalia.
Contudo, Ramirez aposta que “a tendência é que Flávio vá caindo nas próximas pesquisas”. Além disso, avalia que, fora dos nomes que orbitam diretamente no clã Bolsonaro, não há candidaturas que sejam suficientemente competitivas. “A direita se desorganiza cada vez mais e tenta, de forma oportunista, com candidaturas oportunistas como a de Caiado, de Zema e do próprio Renan Santos, tirar alguns votos, mesmo que seja de Flávio, e chegar ao segundo turno. Mas isso tende a ser desastroso. E, ainda que seja difícil, há ainda a possibilidade de Lula ganhar no primeiro turno”, afirma.
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