Política em campo

Palestina, Malvinas e homenagem a vítimas de bombardeios dos EUA: veja momentos políticos que marcaram a Copa do Mundo 2026

Atletas e torcedores usaram o Mundial como espaço de memória, protesto e manifestação política

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Jogadores da Argentina seguram uma faixa com a frase "As Malvinas (Ilhas Falkland) pertencem à Argentina" após vencerem a partida da semifinal da Copa do Mundo de 2026 entre Inglaterra e Argentina, no Atlanta Stadium, em Atlanta, em 15 de julho de 2026. (Foto de Paul ELLIS / AFP)
Jogadores da Argentina seguram uma faixa com a frase “As Malvinas (Ilhas Falkland) pertencem à Argentina” após vencerem a partida da semifinal da Copa do Mundo de 2026 entre Inglaterra e Argentina, no Atlanta Stadium, em Atlanta, em 15 de julho de 2026 | Crédito: Paul Ellis/AFP

A Espanha conquistou neste domingo (19) o título da Copa do Mundo de 2026, encerrando uma edição do torneio marcada por episódios que extrapolaram o futebol. Ao longo da competição, atletas e torcedores usaram o Mundial como espaço de memória, protesto e manifestação política.

Momentos como a homenagem da seleção do Irã às vítimas de bombardeios, o apoio do Egito à Palestina, o impedimento de um árbitro somali de entrar nos Estados Unidos e a reafirmação das Malvinas como território argentino estão entre os fatos políticos que marcaram a competição.

Relembre alguns dos principais casos

Logo no início do período de Copa do Mundo, a seleção iraniana transformou sua participação em um ato de denúncia contra a agressão militar dos Estados Unidos e de Israel contra o país persa.

Na chegada ao México, a delegação desembarcou com um pin dourado com o número “#168” preso ao peito, em memória às estudantes assassinadas durante um ataque à escola pública feminina em Minab, no Sul do Irã.

Durante a preparação, a equipe já havia protestado no amistoso contra a Nigéria. Na ocasião, os jogadores entraram em campo carregando mochilas escolares. Contra a Costa Rica, seguraram fotografias das vítimas assassinadas.

O ataque dos EUA e de Israel contra a escola também foi lembrado em cartas deixadas no vestiário pelos jogadores após as partidas contra a Bélgica e contra o Egito. Em uma delas, os atletas pedem paz e reafirmam a denúncia do massacre de Minab.

A participação da seleção iraniana no Mundial também foi marcada por restrições migratórias. Diferentemente das outras equipes, os iranianos tiveram de transferir a base de Tucson, no Arizona (EUA), para Tijuana, no México.

Por determinação do governo dos Estados Unidos, que manteve severas restrições migratórias, os atletas eram obrigados a entrar e sair do território estadunidense no mesmo dia das partidas.

Carta deixada pela seleção iraniana em vestiário do estádio em Los Angeles
Carta deixada pela seleção iraniana em vestiário do estádio em Los Angeles | Crédito: Divulgação

Árbitro barrado

A política migratória dos Estados Unidos também entrou no debate da Copa após o árbitro somali Omar Abdulkadir Artan ser impedido de entrar no país para atuar no torneio.

Considerado um dos melhores árbitros do continente africano e eleito Árbitro do Ano pela Confederação Africana de Futebol (CAF) em 2025, Artan tinha visto válido e autorização aprovada, mas foi barrado ao desembarcar no Aeroporto Internacional de Miami por autoridades de imigração, que alegaram “questões de verificação”.

Após o episódio, a Fifa retirou Artan da lista de árbitros disponíveis para a competição. O caso ocorreu em meio às restrições migratórias adotadas pelo governo de Donald Trump, que atingiram cidadãos de diversos países, incluindo a Somália.

Ao retornar a Mogadíscio, capital da Somália, Artan foi recebido como herói nacional por torcedores e autoridades locais.

Apoio à causa palestina

As manifestações contra o genocídio cometido por Israel na Faixa de Gaza também apareceram nas ações da delegação egípcia durante a Copa do Mundo. Após a classificação para as oitavas de final, o técnico Hossam Hassan entrou no gramado carregando uma bandeira da Palestina durante a comemoração.

Antes do confronto com a Argentina, em Seattle, o treinador voltou a abordar o tema em entrevista coletiva oficial da Fifa e criticou a falta de reação internacional diante da situação vivida pelos palestinos.

“Ter um teto, ar-condicionado. Isso não vale para o povo palestino. Para as crianças… Deveríamos nos envergonhar como humanidade. Todo mundo faz vista grossa. Se distraem com outras coisas”, afirmou Hassan.

A manifestação do treinador se soma a posicionamentos anteriores de jogadores egípcios, como o atacante Mohamed Salah. Em 2025, o jogador cobrou explicações da Uefa após a entidade publicar uma homenagem ao ex-jogador palestino Suleiman Al-Obeid, conhecido como “Pelé palestino”, sem mencionar que ele foi morto em um ataque israelense enquanto aguardava ajuda humanitária no sul da Faixa de Gaza.

Censura ao Haiti

A Fifa censurou oficialmente o uniforme da seleção do Haiti a poucos dias de sua estreia no Mundial. Uma ilustração sutil no canto inferior direito da camisa azul retratava a Batalha de Vertières (1803), o marco histórico em que os revolucionários haitianos derrotaram as tropas de Napoleão Bonaparte e pavimentaram o caminho para a primeira república negra e livre das Américas em 1804.

A entidade máxima do futebol alegou que a imagem de cunho anticolonial violava as regras de vestuário por conter “slogans de natureza política”. A fornecedora de material esportivo Saeta lamentou a decisão, mas foi forçada a remover a homenagem para que o país pudesse competir.

A perseguição ao patrimônio histórico do Haiti é reincidente. Em março de 2026, nos Jogos Olímpicos de Inverno em Milão, o Comitê Olímpico Internacional (COI) já havia censurado o traje de gala da delegação haitiana.

O COI exigiu a remoção de uma pintura manual do general Toussaint Louverture, líder da revolução antiescravista, sob a mesma alegação de “tema político e polêmico”.

“Las Malvinas son Argentinas”

O duelo de semifinal entre Argentina e Inglaterra, em Atlanta, já estava cercado por uma operação massiva de segurança pública com mais de 1,6 mil agentes para conter as tensões acumuladas desde a Guerra de 1982.

Em campo, a Argentina conseguiu uma virada heroica nos minutos finais: após sofrer um gol de Anthony Gordon aos 10 minutos do segundo tempo, empatou com Enzo Fernández aos 40 minutos e buscou a vitória por 2 a 1 com Lautaro Martínez nos acréscimos, carimbando a vaga na final.

Após o apito final, os jogadores argentinos comemoraram segurando uma bandeira escrita “Las Malvinas son Argentinas”.

Jogadores da Argentina seguram uma faixa com a frase "As Malvinas (Ilhas Falkland) pertencem à Argentina" após vencerem a partida da semifinal da Copa do Mundo de 2026 entre Inglaterra e Argentina, no Atlanta Stadium, em Atlanta, em 15 de julho de 2026. (Foto de Paul ELLIS / AFP)
Jogadores da Argentina seguram uma faixa com a frase “As Malvinas (Ilhas Falkland) pertencem à Argentina” após vencerem a partida da semifinal da Copa do Mundo de 2026 entre Inglaterra e Argentina, no Atlanta Stadium, em Atlanta, em 15 de julho de 2026 | Crédito: Paul Ellis/AFP

O caso reacendeu o debate sobre as punições políticas da Fifa, que em 2014 já havia multado a Federação Argentina (AFA) pelo uso da mesma faixa em um amistoso. O episódio ganhou contornos diplomáticos após o governo britânico pedir formalmente uma investigação, classificando a manifestação como “totalmente inadequada” e uma violação das normas da entidade.

A ‘canetada’ de Trump

A Copa do Mundo também ficou marcada por um episódio de interferência política após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, se manifestar sobre uma decisão disciplinar da Fifa.

No jogo entre Estados Unidos e Bósnia-Herzegovina, o árbitro brasileiro Raphael Claus expulsou o atacante estadunidense Folarin Balogun após uma falta sobre Muharemovic, em lance revisado pelo VAR. A suspensão automática de um jogo pelo cartão vermelho colocaria o jogador fora da partida seguinte, contra a Bélgica.

Segundo Trump, ele entrou em contato com o presidente da Fifa, Gianni Infantino, para pedir a revisão da punição, que considerava injusta. Horas depois, a entidade anunciou a suspensão da sanção com base no Artigo 27 do regulamento disciplinar, liberando Balogun para atuar na rodada seguinte.

Nas redes, Trump agradeceu à Fifa por “reverter uma grande injustiça” e atacou publicamente o árbitro brasileiro: “Esse árbitro é um pouco suspeito. Se você verificar o passado dele… fez uma marcação que ninguém conseguiu acreditar”, escreveu.

A mudança na punição gerou reação da Federação Belga, que havia questionado a decisão, e também críticas de entidades ligadas ao futebol europeu. Liberado para enfrentar a Bélgica, Balogun entrou em campo na derrota dos Estados Unidos por 4 a 1.

Homenagem a Lumumba

A memória das lutas anticoloniais ganhou destaque durante a partida entre República Democrática do Congo e Colômbia, no México. O torcedor congolês Michel Nkuka Mboladinga, conhecido artisticamente como Lumumba Vea, chamou atenção ao acompanhar todo o jogo imóvel, em uma encenação que simulava uma estátua.

O gesto foi uma homenagem a Patrice Lumumba, líder nacionalista congolês, primeiro-ministro eleito do país e um dos principais nomes da luta pela independência do Congo. Lumumba foi assassinado em 1961, em uma operação que envolveu autoridades belgas e contou com participação da Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA), segundo documentos históricos divulgados posteriormente.

Editado por: Geisa Marques e Gia Matheus Almeida

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