Um insulto de um magistrado era o que faltava para dar nome à maior mobilização estudantil já enfrentada pelo governo Narendra Modi, na Índia. Ainda em maio, durante uma audiência sobre diplomas falsos, o presidente da Suprema Corte do país, Surya Kant, definiu como “baratas” e “parasitas” os jovens indianos sem empregos.
Eles são muitos. Segundo dados do governo, o desemprego entre pessoas de 15 a 29 anos ficou em 9,9% em 2025. Se o recorte for feito apenas em áreas urbanas, o percentual sobe para 13,6%. Mesmo com diploma, a significativa maioria trabalha na informalidade.
Vista apenas do ponto de vista institucional, a Índia possui um ambiente universitário consolidado e em expansão. Em 2026, o país apresentou o maior crescimento no ranking global anual de avaliação e classificação por áreas de conhecimento, o QS World University Ranking by Subject. São 99 instituições universitárias indianas entre as 599 melhores do mundo.
As contradições já eram marcantes. Mas, em maio, o vazamento das provas de um vestibular para medicina (conhecido como NEET-UG) levou os estudantes às ruas. A prova, altamente concorrida, mobiliza a vida das famílias dos estudantes que pleiteiam uma vaga. Estima-se que mais de dois milhões de candidatos tenham tentado a aprovação.
Diante da frustração, alguns estudantes não tiveram outra escolha, senão o suicídio. Membros do Partido Popular das Baratas, movimento nomeado em uma irônica referência à fala do magistrado, apontam que ao menos vinte jovens tiraram a própria vida.
Esse não é o primeiro caso de alegado vazamento. Em 2024, estudantes também denunciaram o vazamento de provas do NEET-UG, apontando fraudes e irregularidades.
A natureza dos protestos
O Partido Popular Barata levou milhares de pessoas às ruas nesta semana. Os jovens pedem a renúncia do ministro da Educação, Dharmendra Pradhan, entre outras demandas. Em Nova Déli, a marcha dirigia-se ao Parlamento indiano, mas foi reprimida pela polícia.
Esse poderia ser mais um caso típico de protestos do que se intitula como “Geração Z”, a exemplo dos que tomaram países como Peru, Paraguai, Quênia, Marrocos e Nepal, em 2025. Mas o caso indiano é mais profundo e exige a superação de rótulos.
A nomenclatura Geração Z “é uma categoria de marketing disfarçada de sociologia”, aponta Vijay Prashad, historiador e jornalista indiano, e diretor do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. “Agrupa a filha de um trabalhador rural e o filho de um bilionário simplesmente por terem nascido no mesmo período.”
O historiador acredita que as reivindicações expõem uma crise social na Índia. “Para milhões de famílias da classe trabalhadora, a prova representa anos de economias, sacrifícios, estudos e esperança. Quando essa prova vaza ou o exame é cancelado, o frágil planejamento financeiro de toda uma família é destruído.”
O movimento cresceu nas redes sociais, lançando mão dos memes, da paródia e do humor autodepreciativo. Mas, até agora, ganhou fôlego nas ruas por meio de Abhjeet Dipke, um estudante da Universidade de Boston. Foi dele a ideia de convidar interessados que preenchessem os seguintes requisitos: desempregados, preguiçosos, “cronicamente online” e capazes de “reclamar profissionalmente”, segundo descrição na plataforma da sigla. Só no Instagram, o partido acumula mais de 24 milhões de seguidores.
Debate entre o presente e o futuro
O rebuliço do incômodo também tem a ver com questões políticas internas. Muitos dos jovens cresceram e rumam à difícil vida profissional de uma Índia governada por Narendra Modi, que está no poder desde 2014.
O país está a caminho de se tornar a terceira economia do mundo, com o Produto Interno Bruto (PIB) em expansão: o crescimento foi de 7,5% no ano passado, e a projeção para 2026 é de uma subida de 6,4%, de acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI).
No dia a dia de jovens indianos recém-formados, esses dados parecem distantes. “O capitalismo não consegue integrá-los a uma vida econômica digna. A educação expandiu as aspirações e capacidades dos jovens indianos, mas a economia não ampliou o número de empregos decentes disponíveis para eles”, explica Prashad.
Nas ruas, as forças policiais reagiram com gás lacrimogêneo e cassetetes. As autoridades também retiraram à força o ativista Sonam Wangchuk das ruas e internaram-no. Ele tinha aderido ao protesto e iniciado greve de fome. O movimento pede a libertação de Wangchuck.
As próximas semanas deverão dizer se a espontaneidade do movimento será transformada em poder político consolidado. O tom despojado, por si só, “não poderá superar o poder estabelecido”, alerta Prashad. Para ele, a força duradoura “dependerá da capacidade de vincular a reforma do sistema de exames à luta por emprego, educação pública, direitos trabalhistas e redistribuição econômica”.
