ALERTA E MEMÓRIA

Quando a água chega: seminário debate como informar em meio a desastres climáticos

Com participação do BdF RS, encontro aborda cobertura da enchente, escuta das comunidades e responsabilização política

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Participantes do seminário sobre comunicação de riscos e desastres climáticos, na Semana de Ação Climática de Porto Alegre 2026
Participantes do seminário sobre comunicação de riscos e desastres climáticos, na Semana de Ação Climática de Porto Alegre 2026 | Crédito: Ana Estrázulas

O seminário “Perspectivas comunicacionais sobre os desastres climáticos” reuniu jornalistas, pesquisadoras e uma liderança indígena para discutir os limites e os avanços da cobertura das enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em maio de 2024. Gratuito e aberto ao público, o evento foi realizado nesta sexta-feira (24), no Auditório 1 da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Fabico/UFRGS), e contou com interpretação em Libras e audiodescrição. O Brasil de Fato foi parceiro da atividade. Dividido em duas mesas, o encontro ocorreu em meio a um novo episódio de chuvas fortes na região, o que atravessou boa parte das falas.

A primeira mesa tratou da comunicação pública e reuniu o jornalista Luciano Velleda e o cacique kaingang Odirlei Fidelis, liderança da aldeia Van Ká, localizada no extremo sul de Porto Alegre. A segunda discutiu a cobertura jornalística das enchentes sob a ótica da pesquisa acadêmica e reuniu a jornalista Camila Santos; a professora Eloísa Beling Loose, pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFRGS; o jornalista Luís Eduardo Gomes, do Sul21; a editora-chefe Katia Marko e a repórter Clara Aguiar, ambas do Brasil de Fato RS.

O dever de informar e os limites da linguagem técnica

Luciano Velleda abriu a fala situando a comunicação pública como um princípio previsto na Constituição Federal, que estabelece a obrigação do poder público de tornar públicas as informações de interesse da população. Segundo o pesquisador, esse dever constitucional se conecta diretamente à comunicação de risco e de desastre, campo de estudos que começou a se desenvolver no Brasil nas décadas de 1980 e 1990, a partir da comunicação sobre a aids.

Velleda descreveu a comunicação de risco como um campo complexo, na medida em que lida com cenários igualmente marcados pela incerteza. “A comunicação de risco tem que lidar com essa complexidade, com a complexidade de um fenômeno que também é complexo”, afirmou. Para ele, uma comunicação de risco efetiva precisa reunir características como apresentar mensagens compreensíveis para diferentes públicos, chegar a tempo de permitir que as pessoas ajam e dar visibilidade ao risco. Esse último aspecto, segundo o pesquisador, depende também da percepção de cada indivíduo, moldada pela bagagem cultural, econômica e política.

O pesquisador citou o episódio ocorrido dias antes do seminário em Lajeado, no Vale do Taquari, como exemplo dos desafios enfrentados quando a informação chega sem antecedência suficiente. Ele também apontou que a Defesa Civil estadual segue utilizando termos técnicos, como “risco geo-hidrológico” e “movimento de massa”, cuja compreensão pelo público em geral considera incerta. “Do ponto de vista técnico, são as palavras corretas, mas para cumprir a função de comunicar e informar quem está na ponta, eu tenho dúvida”, disse.

Outro ponto destacado por Velleda foi a recorrência de orientações genéricas emitidas por autoridades durante a crise de 2024, como o pedido para que a população “se colocasse em segurança”, sem detalhar o que essa orientação significava na prática para quem morava em encostas ou às margens de rios. Para o pesquisador, a credibilidade dos alertas emitidos pelo poder público e a confiança da população são determinantes para que a comunicação cumpra a função. Alertas que não se confirmam ou se mostram insuficientes corroem essa confiança ao longo do tempo.

O relato do cacique Odirlei Fidelis

Odirlei Fidelis, cacique kaingang de uma aldeia situada no extremo sul de Porto Alegre, relatou a atuação da comunidade durante as enchentes de 2024, quando cerca de 70% do território indígena ficou submerso. Segundo o cacique, o alagamento resultou da combinação entre a cheia do Guaíba e a chuva concentrada em poucos dias na região. “A água não tinha para onde escoar. Nós, dentro do nosso território, começamos a receber água de fora”, relatou.

De acordo com Fidelis, a comunidade não contou com o apoio de nenhuma instância governamental durante o período mais crítico da enchente e se organizou com recursos próprios e a ajuda de pessoas da cidade que já conheciam a aldeia. “Se perguntassem para nós: vocês tiveram algum apoio de uma instituição governamental, tipo prefeitura, estado, governo federal? Não. A gente se segurou com os nossos recursos próprios e com pessoas da cidade que nos ajudaram”, afirmou.

O cacique também relatou um episódio em que indígenas retirados do território alagado durante a madrugada não teriam sido inicialmente aceitos em um abrigo. O grupo permaneceu por horas dentro de um veículo da Brigada Militar antes de ser acolhido. Fidelis atribuiu o episódio ao desconhecimento sobre os povos indígenas. “Talvez eles aprenderam nos livros que a gente somos inimigos. Não somos inimigos de ninguém”, afirmou.

Ao tratar da cobertura jornalística, o cacique afirmou perceber um crescente descrédito da população em relação às informações disponíveis, em parte pela dificuldade de diferenciar notícias verdadeiras de conteúdos falsos que circulam, sobretudo, nas redes sociais. “Ultimamente todo mundo tá se achando repórter jornalista”, disse, ao defender que a cobertura da questão ambiental seja feita “com responsabilidade” e de “uma maneira humana”.

Fidelis também relacionou o episódio das enchentes ao avanço de empreendimentos sobre territórios indígenas, citou o conflito da comunidade com a fabricante de celulose CMPC e defendeu a demarcação de terras como parte da proteção ambiental da região.

Uma cobertura ainda concentrada nos grandes veículos

Na segunda mesa, a professora Eloísa Beling Loose, do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFRGS, apresentou um panorama da pesquisa acadêmica sobre comunicação de riscos e desastres no Brasil. Segundo a pesquisadora, o campo é recente no país: a primeira dissertação brasileira sobre o tema, de autoria da professora Silene Vitor, é de 2001. Desde então, a produção acadêmica tem avançado em picos pontuais de interesse, deixando lacunas de pesquisa.

Beling Loose observou que a maior parte dos estudos sobre jornalismo e desastres no Brasil tende a analisar a cobertura feita por veículos de grande circulação, como Folha de S.Paulo, O Globo e Jornal Nacional. As pesquisas também costumam se concentrar no produto jornalístico já publicado, em detrimento de estudos sobre os processos de produção da notícia ou sobre a recepção do público. Segundo a pesquisadora, esses trabalhos são mais escassos porque exigem equipes maiores e mais recursos.

A pesquisadora também chamou a atenção para a tendência de a cobertura jornalística se concentrar no momento emergencial do desastre, com menos espaço para o acompanhamento da recuperação em longo prazo. “É muito difícil que o jornalismo, que trabalha focado no presente, para a cobertura factual, dê conta desses processos que são cronificados, que vão permanecer presentes na nossa sociedade”, afirmou.

Segundo Beling Loose, essa dinâmica também dificulta a pesquisa acadêmica sobre o tema, já que a análise da cobertura depende da existência de matérias que tratem da recuperação e da prevenção, não apenas da resposta emergencial.

A professora ainda destacou a existência de diferentes dimensões na comunicação de riscos e desastres — institucional, jornalística e comunitária — que precisam funcionar de forma articulada. Para Beling Loose, a comunicação é um dos fatores que constroem a percepção de risco da população. “A gente não consegue fazer uma comunicação eficiente de riscos se a gente for pensar que todo mundo vai ter mais ou menos o mesmo repertório”, disse, ao reforçar a necessidade de produzir conteúdo adaptado a diferentes públicos.

Fora da caixinha: a cobertura ambiental como pauta transversal

O jornalista Luís Eduardo Gomes, sócio do Sul21, defendeu que a cobertura de temas climáticos deixe de ser tratada como uma editoria isolada e passe a atravessar todas as áreas de um veículo, da política ao esporte. “A gente não pode colocar isso numa caixinha, como se fosse: essa é a pauta do pessoal do meio ambiente”, afirmou.

Como exemplo, Gomes citou o projeto de construção de torres no entorno do estádio Beira-Rio, tratado por parte da imprensa esportiva apenas como uma questão econômica, sem relação com os riscos ambientais da região.

Gomes descreveu três momentos da cobertura de um desastre — antes, durante e depois — e defendeu que a atenção à questão climática seja permanente, não circunscrita ao momento da emergência. Ele também expressou preocupação com o crescimento, durante as enchentes de 2024, de perfis nas redes sociais e de gabinetes de autoridades que passaram a produzir informações diretamente para a população, muitas vezes sem apuração jornalística.

“Eles acabam passando uma informação sem ter aquele cuidado de fazer uma apuração, de entender o que está acontecendo, de contextualizar com outras questões”, avaliou. O jornalista também alertou para o risco de a cobertura da crise reforçar um tom sensacionalista e defendeu que o acúmulo de conhecimento técnico e de fontes ao longo do tempo permite à imprensa produzir uma cobertura qualificada no momento do desastre.

‘O desastre é provocado’: a experiência do Brasil de Fato

Katia Marko, editora-chefe do Brasil de Fato RS, relatou que o veículo, que se define como um meio de comunicação popular, teve dois jornalistas atingidos pelas enchentes de 2024: o editor Marcelo Ferreira, que teve a casa alagada, e a repórter Clara Aguiar. Segundo Marko, a cobertura da redação se apoiou fortemente em fontes ligadas a movimentos sociais que atuaram na organização de cozinhas solidárias durante a crise, entre eles o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) e o Movimento de Trabalhadores por Direitos (MTD).

Para Marko, esses movimentos são frequentemente criminalizados pela grande imprensa, e a cobertura do Brasil de Fato buscou dar visibilidade a essas atuações. “A grande imprensa tem lado, e é o lado do capital”, afirmou.

A jornalista também defendeu que o desastre de 2024 teve causas que vão além do fenômeno climático em si. “Um evento climático é natural, a chuva é natural, o desastre não é natural. O desastre é provocado”, disse, ao atribuir parte da responsabilidade aos governos e ao modelo do agronegócio praticado no estado.

Marko mencionou uma entrevista publicada pela redação em 3 de maio de 2024, nos primeiros dias da enchente, com o professor Valério Pillar, sobre a relação entre a destruição do bioma Pampa e a absorção de água pelo solo. Ela também defendeu a necessidade de dar voz a povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos como especialistas no tema.

O TCC que virou reportagem: a trajetória de Clara Aguiar

A repórter Clara Aguiar, formada em Jornalismo pela Fabico/UFRGS, relatou que já acompanhava o tema das enchentes como pesquisadora antes de se tornar, como ela mesma se descreve, uma “atingida” pelo desastre de maio de 2024. Na época, Aguiar morava em Canoas e precisou deixar a casa por 23 dias.

A partir da experiência, Aguiar decidiu dedicar o trabalho de conclusão de curso à análise da cobertura do Brasil de Fato durante o primeiro mês das enchentes, período em que foram publicadas 178 notícias.

Um dos resultados da pesquisa mostrou que as fontes acionadas pela redação para contextualizar o desastre vieram, em número expressivo, de movimentos sociais como o MAB e o MST, superando as fontes institucionais. Segundo Aguiar, isso reflete o compromisso do veículo em dar espaço a vozes historicamente pouco ouvidas pelo jornalismo hegemônico.

“O Brasil de Fato é um veículo que ouve os movimentos sociais e ouve principalmente as populações que são marginalizadas pelos veículos hegemônicos”, afirmou a repórter. Como exemplo, ela citou a cobertura sobre a retirada, por fiscais da prefeitura, de marmitas distribuídas pelo MST durante a enchente.

O segundo resultado destacado por Aguiar foi que a cobertura não tratou o desastre como um fenômeno meramente natural, apontando também responsabilidades políticas. Segundo a pesquisa, o governador Eduardo Leite foi apontado pela flexibilização da legislação ambiental e o então prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo, por uma suposta omissão diante dos alertas emitidos à época.

Nos dois anos seguintes ao desastre, Aguiar produziu uma série de reportagens sobre os centros humanitários, a moradia temporária e o processo de reconstrução das famílias atingidas. O trabalho resultou no documentário “Onde está a reparação?”, realizado pelo Brasil de Fato em parceria com o MAB.

A produção revisitou territórios como Eldorado do Sul, Canoas e Estrela, no Vale do Taquari, onde, segundo a repórter, famílias seguem morando em contêineres sem previsão de acesso a moradias definitivas.

Aguiar também relatou o impacto da cobertura sobre a própria saúde mental, descrevendo a sobrecarga emocional de revisitar, como jornalista, um trauma pessoal. “Foram três dias de gravação e, todos os dias, eu chegava em casa e chorava”, relatou, ao se referir à produção do documentário no bairro onde morava antes da enchente.

A repórter encerrou a fala mencionando a proximidade de um novo período de risco de cheias na região, dois anos após o desastre de 2024.

Intervenções da plateia

Após as falas das mesas, o seminário foi aberto a perguntas e comentários da plateia. As intervenções destacaram a importância da educomunicação como ferramenta de preparação da população para eventos climáticos extremos. O tema dialogou com os apontamentos feitos ao longo do encontro sobre a necessidade de construir uma cultura de comunicação de risco, ainda pouco consolidada no Brasil.

O debate integrou a programação da Semana de Ação Climática de Porto Alegre 2026.

Editado por: Marcelo Ferreira

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