Atração de abertura do 54º Festival de Cinema de Gramado, “Antártida” foi um fracasso. “Feito Pipa”, trazendo a paisagem cultural da antiga Barragem de Jaguaribara (na região de Quixadá, no Ceará), na segunda noite, foi bastante aplaudido e emocionou muita gente. Sobre violência de gênero e introduzindo o conceito de misoginia, “Pele de Rinoceronte”, dirigido por um homem e sem justificar o título, foi criticado pela forma narrativa em que recupera a história do assassinato de Ângela Diniz – já redundante na produção audiovisual brasileira contemporânea.
Por sua vez, “Chorão: Só os loucos sabem” foi uma tremenda decepção ao entregar um recorte de passagens encenadas de forma televisiva adolescente, recortado por videoclipes. Mesmo trazendo um José Loreto esguio e musculoso, com caracterizações físicas risíveis, como protagonista, houve quem enxergasse o grande ícone da música brasileira em suas expressões.
As atuações de Nanda Marques, como a companheira Graziela Gonçalves, autora do livro “Se não eu, quem vai fazer você feliz? – Minha história de amor com Chorão”, em que a retrospectiva ficcional (e, aqui, o adjetivo é utilizado com bastante intenção) é “livremente inspirada”, e de Georgette Fadel, como a mãe do biografado, demonstram interpretações dramáticas convincentes. Mesmo assim, uma narrativa débil não é salva por boas interpretações.
Mas houve um longa-metragem que foi sensação, praticamente unanimidade em elogios – pelo menos, entre os que assistiram, já que as sessões de documentários estão esvaziadas novamente neste ano, em função do horário avançado da noite. Trata-se do título pernambucano “Empeleitada”, exibido em competição.

Sobre um grande território na Serra do Ororubá, em Pesqueira (PE), o título codirigido por Micaele Xukuru, Chico Ludermir e Sérgio Borges recebeu muitos elogios na Serra gaúcha. A obra documental traz a história, a ancestralidade e a resistência do povo Xukuru do Ororubá, destacando a organização política comunitária e a memória do cacique Xikão – assassinado em 1998, fato que Kleber Xukuru recordou e quer recontar em um longa-metragem.
Borges afirmou que a ideia era mostrar uma comunidade que se relaciona efetivamente com a sociedade contemporânea. “Existem muitos ‘Cinemas Indígenas’, assim como são ‘Cinemas Negros’”, destaca Ludermir, que esteve pela primeira vez no território em 2011, como jornalista, para produzir uma matéria de capa para a revista Continente. Ele completou: “Filmar tem a ver com o modo como a gente vive, como a gente vê o mundo, o mundo que a gente deseja. Falando de cosmovisões indígenas, estamos falando de um modo de ver o tempo que se relaciona com a terra. Me sinto muito feliz do quanto que a gente aprende nesse processo, e do quanto que eu acho que esse modo, esse ritmo, essa forma de ver é também essa forma de organizar uma equipe (pequena, que trabalha muito, com pouco recurso).”
“Empeleitada”, o longa, é resultado de um projeto de oito anos. Mas o povo já trabalha com audiovisual há dezoito anos e nunca havia estado em Gramado. Roger Lerina comentou sobre a recepção da obra: “Quando a gente vê, em pouco tempo, nós estamos conectados com o que está sendo mostrado na tela de uma maneira visceral que dificilmente a gente consegue estar em outras circunstâncias, em outros tipos de filmes e linguagens cinematográficas que não sejam desse aspecto mais ligado aos indígenas”.
No emocionante debate do filme nesta quarta-feira (19), a crítica e pesquisadora Ivonete Pinto, professora da UFPel, que pesquisa atualmente a produção indígena brasileira no audiovisual em seu pós-doutorado, recuperou a citação de Ailton Krenak sobre a necessidade de ocupação das telas, além das terras.
No 54º Festival de Cinema de Gramado, o cinema indígena também esteve representado com um curta de Mato Grosso, de Clea Torres, Gilson Costa e Divino Tserewahú. O documentário “Divino: Sua Alma, Sua Lente” acompanha a trajetória do cineasta xavante que coassina a direção e dá nome ao filme. Entre memórias, arquivos e vivências na Terra Indígena Sangradouro, revela como o cinema se tornou, para ele e a comunidade, um instrumento de luta, preservação cultural e inspiração para novas gerações.
Na entrevista a seguir, o cacique Marcos Xukuru, filho de Xikão, falou sobre a oportunidade de mostrar o longa neste festival, e o produtor Kleber Xukuru conta um pouco mais sobre o novo projeto.
Tradição indígena permanece com missões e empreitadas

“Empeleitada” é um termo utilizado pelo povo Xukuru dentro do território, conforme o cacique Marcos: “que é fazer o projeto coletivo, a coletividade. A gente junta a empeleitada na luta pela retomada do território, a garantia do avanço da autodemarcação dos nossos territórios”.
A liderança exaltou a importância de apresentar um documentário de longa-metragem que retrata a história e a vivência do povo Xukuru através de uma casa de taipa: “A vivência com a nossa ancestralidade. Vendo o que é ancestral, garantindo a projeção do presente, mas muito mais do futuro, trazendo a juventude para dentro de um processo como esse. Com a Ororubá Filmes e os parceiros aliados, garantindo o projeto de nação do povo Xukuru, para além das fronteiras do nosso território, através das telas”.
Para ele, estar em Gramado é romper uma bolha: “Mostrando através das telas a realidade dos povos indígenas saindo desse campo da invisibilização que hoje o Estado brasileiro tem. Ocupar um espaço como esse é também ir por outras vias, mostrando da nossa capacidade de intervenção, garantindo com que os nossos territórios também estejam protegidos através de ferramentas como essa, do audiovisual, do cinema, e a gente avançando pela manutenção dos nossos direitos e a garantia dos nossos territórios”.
O produtor Kleber Xukuru, parte do coletivo de audiovisual Ororubá Filmes, reforça que o audiovisual tem sido utilizado como ferramenta de luta e de denúncias. “Nós somos o maior povo indígena do estado de Pernambuco, com mais de 12 mil indígenas situados lá na aldeia com 27.555 hectares, dividido em 24 aldeias. A gente tem passado por um processo de criminalização, um processo de assassinatos, que foi lá no passado com os nossos parentes, principalmente com o nosso Cacique Xikão”, detalha.
“Eu era uma criança com 10 anos e não esqueço. Ali, aquele 20 de maio de 1998, às 10h30min da manhã, um horário que a gente tinha saído para o recreio, em um bairro que leva o nome da nossa etnia. Eu vivenciei aquilo, eu só não vi o cara atirando no meu Cacique, mas eu estava do lado. Se passaram 28 anos do assassinato dele e, pra mim, foi ontem”, relembra Kleber, repetindo o que contou no debate do filme no 54º Festival de Cinema de Gramado.
Kleber diz que, hoje, formado como cineasta indígena (produtor, roteirista, diretor), “é uma missão de vida retratar essa memória que vai ser muito difícil para a gente, vai ser um momento muito forte. Utilizar enquanto uma ferramenta de denúncia por tudo que o nosso povo passou, por todo o sofrimento, por todas as injustiças, quando tombaram o nosso grande herói que foi e é o Cacique Xikão. Levar isso para as telas vai ser uma missão nossa enquanto jovens indígenas da Ororubá Filmes”.
