Com mais de 650 jovens em formação e presença em 79 municípios, as quatro Escolas Famílias Agrícolas (EFAs) do Rio Grande do Sul criaram uma entidade estadual. A União Gaúcha das Associações Escolas Famílias Agrícolas (Uniagefa) nasce para fortalecer a organização política, institucional e pedagógica das escolas. Também pretende ampliar a Pedagogia da Alternância e uma formação ligada à realidade de filhos e filhas da agricultura familiar e camponesa.
A fundação ocorreu durante encontro realizado na sexta-feira (21), em Santa Cruz do Sul. Cerca de 30 representantes das associações mantenedoras das quatro escolas participaram da reunião. A sede da nova entidade funcionará junto à Escola Família Agrícola de Santa Cruz do Sul (Efasc).
Também fazem parte da articulação a Escola Família Agrícola da Serra Gaúcha (Efaserra), sediada em Caxias do Sul; a Escola Família Agrícola de Vale do Sol (Efasol); e a Escola Família Agrícola da Região Sul (Efasul), sediada em Canguçu.
“A criação da Uniagefa se deu em um processo dialógico de quase dois anos de debate e discussão entre as Escolas Famílias Agrícolas, para termos uma entidade representativa das associações das EFAs, que são as quatro escolas que existem hoje no estado”, explica o secretário-executivo da Uniagefa, Adair Pozzebon.
Até agora, a representação conjunta vinha sendo feita pela Associação Gaúcha Pró-Escolas Famílias Agrícolas (Agefa), mantenedora da Efasc. Depois de 18 anos da fundação da associação, as escolas passaram a defender uma organização mais ampla, capaz de reunir as quatro experiências existentes no estado.
As EFAs somam cerca de 1.010 jovens já formados. Atualmente, atendem estudantes de 79 municípios e de aproximadamente 300 comunidades rurais. As quatro unidades também contam com cerca de 100 profissionais entre professores e funcionários.
Os jovens fazem o ensino médio junto com a formação técnica. A Efasc e a Efaserra oferecem o curso de agropecuária. A Efasol mantém o curso de agricultura. Já a Efasul oferece formação em agroecologia.
“A gente já chegou à marca de mais de mil jovens egressos, formados nas EFAs, e temos mais de 600 estudantes hoje. Então, temos um quantitativo que exige que essa unidade esteja fortalecida”, afirma Pozzebon.
Políticas públicas e reconhecimento
Um dos principais eixos da Uniagefa será a atuação política e institucional. A entidade pretende ampliar o acesso das escolas às políticas públicas voltadas à Pedagogia da Alternância. Também quer avançar na criação de um marco legal no estado que reconheça o trabalho das EFAs.
A Pedagogia da Alternância combina períodos de formação na escola com outros vividos junto à família e à comunidade. A proposta busca aproximar o conteúdo estudado da realidade, do trabalho e dos saberes dos territórios onde vivem os estudantes.
“É fazer com que, de fato, além do acesso pleno à política pública, se tenha o reconhecimento e também melhorias, para que possamos fortalecer esse processo e, com isso, fortalecer a educação do campo e a Pedagogia da Alternância”, explica.
Para Pozzebon, essa organização também está ligada à defesa de uma educação que dialogue com a vida no campo e com a realidade das famílias atendidas pelas escolas.
“Isso vai ao encontro da nossa luta, que é ter uma educação de qualidade, uma educação contextualizada para os filhos e filhas de agricultores familiares e camponeses das regiões onde as EFAs atuam”, afirma.
O segundo eixo será pedagógico. A proposta é aproximar os princípios que orientam a formação nas quatro escolas. Segundo Pozzebon, esse trabalho tem entre as referências o educador Paulo Freire.
“Precisamos sempre estar em permanente reflexão, análise e melhoria dos nossos processos pedagógicos. A ideia é trabalhar um processo de formação inicial e continuada de monitores e monitoras e promover encontros de formação no estado, para que as escolas possam dialogar”, detalha.
A intenção é criar mais espaços de troca entre professores e professoras das diferentes unidades. Nesses encontros, poderão compartilhar experiências e discutir os desafios enfrentados pelas escolas. Segundo Pozzebon, a Uniagefa também busca aproximar princípios, ideias e causas comuns entre as EFAs.
Expansão para novas regiões
A nova entidade também deverá ajudar na criação de Escolas Famílias Agrícolas em outras partes do Rio Grande do Sul. O processo mais avançado é o da Escola Família Agrícola da Região Centro (EFA Centro).
A associação da futura escola já foi criada e o credenciamento está em andamento no Conselho Estadual de Educação. A unidade deverá funcionar no antigo Seminário Franciscano de Agudo. Se o planejamento for cumprido, as atividades poderão começar em março de 2027.
Outros dois movimentos estão em andamento. Um reúne Mostardas, Tavares e São José do Norte, no litoral médio gaúcho. O outro ocorre na região da Campanha e envolve Candiota e Hulha Negra.
Nos dois territórios, grupos já estão organizados para discutir a viabilidade das futuras escolas. Representantes dessas regiões também visitaram a Efasc, em Santa Cruz do Sul, para conhecer a proposta.
Pozzebon explica que a implantação de uma EFA exige trabalho de base nas comunidades e costuma levar cerca de dois anos de articulação.
“Eles estão trabalhando como comissões, constituindo os grupos, fazendo uma mobilização de base, discutindo e planejando a viabilidade e a futura implantação de uma Escola Família Agrícola nesses territórios”, relata.
Organização coletiva
Durante o encontro de fundação, os representantes aprovaram por unanimidade a Carta de Princípios e o estatuto da Uniagefa. Também elegeram a primeira diretoria executiva, com mandato de dois anos.
Márcio Luis Manske, da Efasc, será presidente. Alessandro Trarbach, da Efasol, será vice-presidente. Lucieli Conrado Leitzke, da Efasul, será secretária. Arnaldo Poletto, da Efaserra, será tesoureiro.
No início, a Uniagefa será mantida por contribuições das quatro escolas. Pozzebon ficará responsável pela secretaria executiva e pela articulação da nova entidade.
