Com “Nosso Segredo” no topo da premiação e dois filmes da edição entre os habilitados a disputar uma vaga brasileira no Oscar 2027, o 54º Festival de Cinema de Gramado encerrou a programação reafirmando o papel de vitrine para o audiovisual nacional. A edição também foi marcada por histórias, homenagens e discursos que colocaram as mulheres em destaque.
O Kikito de melhor filme foi para “Nosso Segredo” (MG), de Grace Passô, que ganhou, ao todo, três prêmios, além de direção de arte e fotografia. Já “Feito Pipa” (CE), de Allan Deberton, recebeu cinco prêmios: júri popular, melhor direção, melhor atriz — por unanimidade, para Teca Pereira —, melhor ator coadjuvante, para Lázaro Ramos, e uma menção honrosa de longa-metragem brasileiro para o menino protagonista, Yuri Gomes.
O prêmio de melhor longa-metragem brasileiro pelo júri da crítica, formado por Flavia Guerra, Pâmela Eurídice, Simone Zuccolotto, Rafael Valles e Victor Souza, ficou com “Leite em Pó” (MG/SP/RN), com a seguinte justificativa: “Sem ficar preso a um enredo óbvio, sua narrativa apresenta um personagem à deriva, atravessado por errâncias e indefinições diante da vida.”
“Inventivo, autoral e ousado, o filme encontra o humor nas situações mais inusitadas, construindo uma abordagem que transita entre o estranhamento e o encantamento. De estrutura fragmentária e tom sóbrio, o longa evita excessos estilísticos ou dramáticos para se construir nas pequenas tensões do cotidiano. Em meio ao luto e a memória, o desfecho se mostra sinuoso e surpreendente”, completa o júri. O título também venceu em melhor roteiro, com Carlos Segundo e Rafael Copel, e melhor desenho de som, com Waldir Xavier, somando três prêmios no total.
O júri oficial foi composto pela atriz Cris Vianna, pelo diretor e roteirista Fábio Meira, pela atriz Helena Ranaldi, pela pesquisadora, crítica de cinema e curadora Kênia Freitas e pelo ator Marcelo Serrado.
Em 11 dias de programação na Serra gaúcha, o mais tradicional festival de cinema do Brasil exibiu 61 filmes em dez diferentes mostras e reuniu um público estimado em mais de 20 mil pessoas. Foram mostras competitivas, sessões especiais, homenagens, debates e atividades de mercado. Ao todo, foram entregues 59 prêmios, sendo 40 Kikitos e mais de R$ 500 mil em dinheiro.
O Kikito em Gramado e o Oscar em Hollywood

Saiu nesta segunda-feira (24) a lista dos possíveis representantes brasileiros no Oscar. A Academia Brasileira de Cinema anunciou os 15 longas-metragens habilitados a concorrer a uma indicação na categoria de melhor filme internacional no Oscar 2027.
Nela, estão “Nosso Segredo” e “Feito Pipa”. Segundo Rodrigo Teixeira, produtor de “Ainda Estou Aqui”, que esteve na serra neste Festival de Gramado para apresentar “La Perra” como atração de encerramento, além desses dois, outro título com chance é “Vicentina Pede Desculpas”, de Gabriel Martins. Mas vale lembrar que “Feito Pipa” tem uma certa brasilidade reconhecida fora do país e Lázaro Ramos no elenco. O ator também participou de “Saneamento Básico”, que tinha Fernanda Torres e Wagner Moura.
Entre os 15 títulos, também está um representante gaúcho: “Ato Noturno”, de Márcio Reolon e Filipe Matzembacher. Os diretores foram homenageados nesta 54ª edição com o Prêmio Iecine na categoria inovação, mas não vieram ao estado para receber a distinção e foram representados pelo sócio Germano de Oliveira, de “Bicho Monstro”.
Outros três títulos destacados foram exibidos e premiados em Gramado no ano passado: “A Natureza das Coisas Invisíveis”, de Rafaela Camelo; “Cinco Tipos de Medo”, de Bruno Bini; e “Papagaios”, de Douglas Soares.
Completam a lista “100 Dias”, de Carlos Saldanha; “A Conspiração Condor”, de André Sturm; “A Fabulosa Máquina do Tempo”, de Eliza Capai; “Dolores”, de Maria Clara Escobar e Marcelo Gomes; “Herança de Narcisa”, de Clarissa Appelt e Daniel Dias; “O Rei da Internet”, de Fabrício Bittar; “Quando Vira a Esquina”, de Chris Alcazar; e “Malês”, de Antonio Pitanga.
As mulheres que vieram antes de nós

As Gabrielas gaúchas ditaram o tom, trazendo histórias e homenagens às mulheres de suas famílias. Gabriela Kopp, de Santa Cruz do Sul (RS), na primeira tarde, com “Claudete”, e Gaby Buffon, de Caxias do Sul (RS), na segunda, com “Elisete Tem que Casar!”, deixaram o tema bem evidente. As duas jovens realizadoras participaram e saíram premiadas da Mostra de Curtas Gaúchos no 54º Festival de Cinema de Gramado.
Embora, sim, diversos títulos do evento neste ano tenham discutido diferentes masculinidades, o papel feminino de cuidado e força nos núcleos familiares foi um elemento presente em praticamente todos os filmes desde o início. Isso está posto declaradamente dentro da casa-personagem do eleito melhor longa, “Nosso Segredo”.
Já em “Antártida”, atração de abertura fora de competição, a comandante interpretada por Andréa Beltrão na base brasileira no continente é uma mãe que perdeu a filha em um episódio violento e tenta segurar todas as adversidades da equipe, como um coletivo em sobrevivência naquele território inóspito.
Na narrativa de “Feito Pipa”, a avó Dilma (Teca Pereira) é a grande âncora para Gugu, personagem do talentoso garoto baiano Yuri Gomes. As duas protagonistas de “Pele de Rinoceronte” igualmente emanam essa fortaleza. Evocar Angela Diniz, mais uma vez, vai ao encontro de uma espécie de homenagem e de uma tentativa de saldar uma dívida histórica com a memória dela. É também o caso da mãe de “Chorão”, interpretada por Georgette Fadel — ou mesmo desse “porto seguro” que ela representa e que o filho projeta na companheira, Graziela.

Em “Leite em Pó”, tudo rui de vez com a falta da avó, Helena (Zezita Matos). E o mesmo ocorre na trajetória de “Justino”, quando ele perde a mãe e, depois, a esposa e os filhos. A vida só voltará a ter luz e cor com a entrada de Danuza (Onna Silva) pela porta do quarto do hospital. Esta última é uma personagem trans, o que faz o link com o vencedor da Mostra Gaúcha de Longas, “Filhas da Lua”, de Tatiana Sager, e demonstra também a possibilidade de uma mirada para diferentes feminilidades.
O curta “Fúrias”, com o título flexionado em gênero e número, transpira “A Revolução é Feminista”. O único representante gaúcho em uma das mostras nacionais do festival foi reconhecido com o prêmio de melhor desenho de som e traz Áurea Baptista e Denizeli Cardoso nesse lugar da mulher no afeto, mas também na rebeldia.
Outros dois curtas traziam histórias de mulheres mais maduras. Chris Couto recebeu Kikito de atriz pela interpretação da protagonista 60+ de “Um Passeio”. E “Mulher Papaya”, com Magali Biff, foi premiado com melhor roteiro e destaque da crítica, por apresentar “inventividades imagéticas para abordar as questões do desejo e do corpo, evidenciando como essas dimensões reverberam nas relações familiares e no universo do trabalho. O curta aborda, de maneira original, a história de uma mulher na terceira idade, trazendo com ousadia seus desejos, ações e escolhas, sem ser condescendente diante das decisões que ela toma ao redescobrir sua sexualidade”.
Seguindo na seara da representatividade, é impossível não registrar o mesmo tom nos discursos de Silvia Duarte, ao receber o Troféu Leonardo Machado, na sexta-feira (21), e de Naruna Costa, ao receber o Kikito de atriz coadjuvante. Curiosamente, as duas vestiram vermelho, em noites diferentes, e ambas exaltaram a afrodescendência, as “guerreiras brasileiras” e reverenciaram as artistas negras que vieram antes delas, como Ruth de Souza, Léa Garcia, Neusa Borges, Teca Pereira e Chica Xavier.
A cineasta Susanna Lira, no discurso de agradecimento pelo Kikito de melhor documentário por “Gonzaguinha”, homenageou a mãe por todos os sacrifícios que fez ao criar os filhos sozinha e proporcionar formação a eles.
Do mesmo modo, a homenagem do Prêmio Iecine na categoria legado à produtora Gisele Hiltl, referência na resistência gaúcha nesta área, também é uma espécie de tributo às “mulheres que vieram antes de nós”.
Longas-metragens brasileiros premiados

Melhor filme
“Nosso Segredo”, de Grace Passô
Melhor longa-metragem documentário
“Gonzaguinha, da Maior Liberdade”, de Susanna Lira
Menção honrosa documentário
“Empeleitada”
Melhor filme pelo júri popular
“Feito Pipa”, de Allan Deberton
Melhor filme pelo júri da crítica
“Leite em Pó”, de Carlos Segundo
Melhor direção
Allan Deberton, por “Feito Pipa”
Melhor atriz
Teca Pereira, por “Feito Pipa”
Melhor ator
José Loreto, por “Chorão: Só os Loucos Sabem”, e Christian Malheiros, por “Justino: Nos Bastidores do Reino”
Menção honrosa
Yuri Gomes, por “Feito Pipa”
Menção honrosa
Onna Silva, por “Justino: Nos Bastidores do Reino”
Melhor roteiro
Carlos Segundo e Rafael Copel, por “Leite em Pó”
Melhor fotografia
Wilssa Esser, por “Nosso Segredo”
Melhor ator coadjuvante
Lázaro Ramos, por “Feito Pipa”
Melhor atriz coadjuvante
Naruna Costa, por “Pele de Rinoceronte”
Melhor desenho de som
Waldir Xavier, por “Leite em Pó”
Melhor trilha musical
Otávio de Moraes, por “Chorão: Só os Loucos Sabem”
Melhor direção de arte
Lucas Osório, por “Nosso Segredo”
Melhor montagem
André Finotti e José Eduardo Belmonte, por “Justino: Nos Bastidores do Reino”
Mostra Competitiva Sedac/Iecine de Longas-Metragens Gaúchos
Melhor longa-metragem gaúcho
“Filhas da Lua”, de Tatiana Sager
Melhor montagem
Gabriel Sager Rodrigues, por “Filhas da Lua”
Melhor direção
Hique Montanari, por “A História Mais Triste do Mundo”
Melhor roteiro
Hique Montanari, por “A História Mais Triste do Mundo”
Melhor ator
Arthur Seidel, por “A História Mais Triste do Mundo”
Melhor trilha musical
João Vitor Costa Dias, por “A História Mais Triste do Mundo”
Melhor desenho de som
Gabriela Bervian, por “A História Mais Triste do Mundo”
Melhor fotografia
Juarez Pavelak, por “A História Mais Triste do Mundo”
Melhor atriz
Áurea Baptista, por “Remanente – Voltagem”
Melhor direção de arte
Tiago Retamal, por “Remanente – Voltagem”
Júri popular
“Filhas da Lua”, de Tatiana Sager
Mostra Competitiva de Curtas-Metragens Brasileiros
Melhor filme
“씨발 (Shibal)”
Melhor direção
Wesley Gabriel Silva Santos, por “Pão Doce”
Melhor ator
Francisco Gaspar, por “Pão Doce”
Melhor atriz
Chris Couto, por “Um Passeio”
Melhor roteiro
Camila Tarifa, por “Mulher Papaya”
Melhor fotografia
Felipe Ovelha, por “Pique-Pega”
Melhor montagem
Gilson Costa e Thamires Coelho, por “Divino: sua alma, sua lente”
Melhor trilha musical
Ângelo de Souza, por “Graxa e o Zepelin”
Melhor direção de arte
Jackson Abacatu, por “A menina que queria ser pedra”
Melhor desenho de som
Marcos Lopes, por “Fúrias”
Melhor filme pelo júri da crítica
“Mulher Papaya”, de Camila Tarifa
Prêmio especial do júri
“Revelação”, de Gabriela I. Gaia
Prêmio Canal Brasil de Curtas
“Revelação”, de Gabriela I. Gaia
Júri popular
“Divino: sua alma, sua lente”, de Clea Torres e Gilson Costa, com codireção de Divino Tserewahú
Prêmio Assembleia Legislativa de Cinema – Mostra de Curtas Gaúchos
Melhor filme
“Grão”
Melhor ator
Leandro Gomes, por “Grão”
Melhor atriz
Gaby Buffon, por “Elisete tem que casar!”
Melhor direção
Gabriel Motta, por “O Véu”
Melhor roteiro
Thais Fernandes, por “Estátuas também morrem?”
Melhor fotografia
Lívia Pasqual, por “Drunken Car”
Melhor montagem
Gabriela Kopp, por “Claudete”
Melhor direção de arte
Marco Arruda, por “Raidinalha”
Melhor trilha sonora / melhor música
Otávio Vassão, por “Grão”
Melhor edição/desenho de som
Fernando Efron, por “Raidinalha”
Melhor produção executiva
Allan Riggs e Guilherme Suman, por “Terra Bruta”
Melhor figurino
Beatriz Pieratti, por “Drunken Car”
Menção honrosa
“O Acumulador de Memórias”
Júri da crítica
“Grão”, por “tratar da masculinidade sob uma ótica crítica, com humor e densidade; por tornar um território em crise um personagem central do filme; por deixar transbordar solidão, melancolia e desejo com domínio de recursos visuais e sonoros.”
