Pelo segundo ano consecutivo, filmes brasileiros sobre a ditadura militar chegam ao Oscar e recolocam a memória do país no centro da maior premiação do cinema mundial. Em 2025, Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, venceu Melhor Filme Internacional ao narrar o desaparecimento de Rubens Paiva. Em 2026, O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, retoma o tema e confirma que a cultura segue sendo um dos espaços mais potentes de resistência democrática.
A cerimônia da premiação deste ano também marcou avanços históricos: Michael B. Jordan tornou-se o sexto homem negro a vencer Melhor Ator, e a Coreia do Sul conquistou pela primeira vez Melhor Animação e Melhor Canção Original com KPop Demon Hunters, consolidando sua presença global.
O Agente Secreto chegou ao Oscar com cinco indicações — Melhor Filme Internacional, Roteiro Original, Direção, Montagem e Trilha Sonora. Mesmo sem vencer, disputar cinco categorias com um filme sobre ditadura, censura e ataque à ciência já é uma vitória simbólica. É um gesto de resistência cultural e a demonstração de que o cinema abre caminhos para que a memória histórica de um país volte a emergir. O filme ampliou o debate ao mostrar como o Brasil ainda enfrenta tentativas de apagar sua história e ao expôr a censura sofrida por jornalistas, o ataque às universidades e a destruição de carreiras científicas, revelando como o autoritarismo empobrece o futuro.
Ainda Estou Aqui, por sua vez, devolveu humanidade às vítimas. Após a homenagem a Rubens Paiva na ONU, em Genebra, Beatriz Paiva relatou que a história da família passou a ser reconhecida em lugares inesperados: “Agora, mundialmente, a história do meu pai é conhecida. Uma francesa me perguntou: ‘Você é parente daquela família?’ É incrível isso. A gente pode falar.” Ela também descreveu o impacto emocional da estreia mundial em Veneza: “Quando vi o filme pela primeira vez, em Veneza, foi muito forte. Eu chorei o tempo todo. Era a nossa história ali, diante do mundo inteiro.”
Ana Lúcia trouxe a dimensão íntima desse processo. Desde o lançamento do filme, muitas pessoas passaram a procurá-la para compartilhar histórias que guardaram por décadas — relatos interrompidos pelo medo, pela vergonha ou pela sensação de que suas dores não tinham lugar. Ao se reconhecerem na trajetória da família Paiva, encontraram, pela primeira vez, um espaço seguro para falar. A história familiar, ao ser transformada em cinema, abriu portas internas que estavam fechadas há muito tempo.
A realização desses dois filmes, que resgatam um processo histórico central do Brasil, só foi possível porque a Comissão Nacional da Verdade (CNV) abriu caminhos para que histórias antes negadas pudessem ser contadas. A família Paiva vivia num vazio documental até que a CNV reuniu provas e registros que permitiram reconstruir a verdade — base que alimentou tanto o filme de Salles quanto o de Mendonça Filho.
Regimes autoritários atacam cultura, educação e ciência porque sabem que elas são alguns dos últimos territórios de liberdade. O cinema transforma documentos em narrativa, trauma em memória pública e silêncio em responsabilidade coletiva. Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto mostram que a cultura não apenas registra o passado — ela o disputa. E, ao disputá-lo, protege o futuro.
Em um mundo marcado por desinformação, guerras de narrativas e extremismos, a presença da ditadura brasileira no Oscar não é apenas um fenômeno artístico. É um lembrete de que a democracia precisa da cultura para sobreviver.
*Mônica Cabanas é jornalista.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.
