Após dois meses do duplo terremoto que atingiu a Venezuela em 24 de junho, a presidenta em exercício do país, Delcy Rodríguez, realizou um pronunciamento em rede nacional de rádio e televisão, na noite desta segunda-feira (24). A mandatária apresentou um balanço detalhado das ações de recuperação social, habitacional e econômica.
“Em 24 de junho, os terremotos trouxeram uma emergência de uma magnitude que não tínhamos vivido em nossa história. Milhares de famílias viram suas vidas mudarem em segundos. Houve quem perdesse entes queridos, quem perdesse sua moradia, quem ainda hoje espera poder recuperar plenamente sua vida cotidiana”, disse Rodríguez.
“Sei que, para uma família que ainda não pôde voltar para casa, nenhum número é suficiente. E sei também que, para quem ainda tem dificuldades com a água, a eletricidade e os serviços, saber que avançamos não significa de forma alguma que o problema esteja resolvido. Por isso, continuamos trabalhando sem descanso, sem esmorecer no esforço”, seguiu.
O duplo sismo de magnitude 7,2 e 7,5 deixou um saldo oficial de 6.509 mortos, afetando principalmente o estado costeiro de La Guaira e Caracas. Desde as primeiras horas da tragédia, a mobilização popular e a cooperação internacional foram fundamentais para o resgate e o atendimento médico. Segundo Rodríguez, o sistema de saúde atendeu quase 20 mil pacientes e mais de 25 mil pessoas foram acolhidas temporariamente em acampamentos integrais.
No balanço das iniciativas de infraestrutura e habitação, a presidenta destacou que o plano Despeje Digno e Seguro já recolheu 28% dos escombros nas áreas atingidas, o que equivale a cerca de 580 mil toneladas de materiais. Rodríguez ressaltou que esse trabalho é feito com extremo respeito, pois os escombros representam a história de cada lar desfeito.
“É um trabalho que requer coordenação e segurança, mas também muito cuidado. Esses escombros não são simplesmente materiais que devem ser retirados. Ali estavam lares, memórias e, em alguns casos, a história inteira de uma família. Por isso, estamos fazendo este trabalho com respeito e dignidade, enquanto avançamos na recuperação de cada comunidade”, afirmou.
Na área de habitação, a presidenta em exercício informou que o governo realizou a entrega de 335 novas moradias, beneficiando diretamente 1.172 pessoas, além de reabilitar 1.001 imóveis, o que assegurou abrigo para 3.503 cidadãos. A meta estabelecida pela presidenta é entregar mais de 4 mil novas moradias até o final do ano.
“No entanto, quero fazer uma observação importante: o trabalho para melhorar os serviços públicos não começou com o terremoto nem termina com a reconstrução. Temos um plano nacional para melhorar de maneira progressiva a eletricidade, a água, a saúde, as escolas, a habitação, as vias públicas e os serviços que fazem parte da vida diária dos venezuelanos”, pontuou a presidenta, prometendo ainda a digitalização dos serviços públicos e a eliminação de burocracias.
Retomada energética e novos acordos comerciais
Apesar das imensas dificuldades impostas pela emergência, o setor econômico e produtivo venezuelano apresentou resultados sólidos no período. Rodríguez anunciou que a produção de petróleo não foi interrompida e superou a marca de 1 milhão 230 mil barris diários, atingindo o nível operacional mais alto registrado desde fevereiro de 2019.
A presidenta em exercício informou ainda que a Venezuela assinou 50 acordos estratégicos em petróleo e gás com investimentos privados e internacionais “para viabilizar o desenvolvimento de 76 áreas produtoras de hidrocarbonetos no território nacional”.
Na macroeconomia, a presidenta destacou que a brecha cambial entre o dólar oficial e o paralelo caiu de quase 30% para 12,3% nos últimos dois meses, facilitando o planejamento financeiro das famílias e das empresas. O crescimento econômico venezuelano é projetado em 6,5% para este ano pela Comissão Econômica para América Latina e o Caribe, a Cepal, marcando 21 trimestres consecutivos de crescimento.
“São números importantes, mas não são, de forma alguma, o objetivo final, porque ainda falta muito para recuperar uma economia gravemente impactada por sanções. O objetivo é que uma economia em crescimento possa se traduzir em empregos, melhores rendimentos para os trabalhadores, serviços e oportunidades para as famílias”, declarou Delcy Rodríguez.
Impacto das chuvas e o planejamento elétrico
Recentemente, o país enfrentou o impacto de graves chuvas provocadas pela onda tropical número 40, que causaram estragos severos em Caracas, Miranda e outros estados. Os temporais deixaram ao menos cinco desaparecidos e afetaram mais de 150 habitações, além de provocarem o desabamento de encostas e o transbordamento de rios na capital.
Durante a emergência, o governo mobilizou equipes de Proteção Civil e brigadas para desobstruir vias e prestar assistência imediata. Rodríguez relacionou as chuvas com o planejamento energético do país, apontando que as altas temperaturas causam tempestades elétricas frequentes que geram forte impacto sobre as redes de energia.
Para enfrentar a alta demanda climática e acompanhar o crescimento da economia, a presidenta em exercício informou a assinatura de acordos para adicionar novos megawatts ao sistema elétrico nacional, destacando o contrato com a empresa argentina Impsa, além da execução de um plano nacional para ampliar expressivamente a capacidade termoelétrica venezuelana.
“O terremoto agravou e tornou mais urgente uma tarefa com a qual já estávamos comprometidos: a eletricidade”, disse Rodríguez. “Firmamos acordos que permitirão incorporar novos megawatts ao sistema elétrico nacional, entre eles o acordo com a empresa argentino-americana Impsa, e estamos executando um plano para ampliar significativamente nossa capacidade termoelétrica com o objetivo de elevar a capacidade disponível, que permita atender à alta demanda gerada pela emergência climática e pelo crescimento econômico. Mas, por trás de cada megawatt, há uma família, está o estudante que precisa de luz para suas tarefas, o hospital que precisa funcionar, o comércio que precisa abrir e a empresa que precisa produzir e gerar empregos”, afirmou.
Avanços políticos e sociais
No campo institucional, a governante anunciou que as blitzes policiais urbanas serão eliminadas nos próximos dias para dar lugar a um sistema de patrulhamento preventivo mais eficiente e respeitoso. Também mencionou que, em cooperação com o Comitê Internacional da Cruz Vermelha, estão sendo revisadas as condições das prisões.
Na política interna, Rodríguez celebrou o primeiro acordo de trabalho firmado com um setor da oposição representado na Assembleia Nacional de 2015, focado na renovação do Poder Judicial e na recuperação de ativos do país. Como fruto da convivência democrática, 1.046 cidadãos foram libertados e 12 mil receberam benefícios processuais.
“O futuro está diante de nós e nos pertence. No final, esse é o critério mais simples para medir o nosso trabalho: que as coisas funcionem melhor na vida de cada venezuelano, que uma família possa ter um lar seguro, que haja acesso aos serviços, que um jovem possa estudar e encontrar oportunidades, que quem quiser empreender possa fazê-lo sem obstáculos desnecessários, que os venezuelanos que partiram possam voltar para construir seu futuro e que possamos pensar de maneira diferente sem deixar de nos reconhecer”, declarou.
Segundo a mandatária, o país também avança na regularização de suas relações diplomáticas e com organismos internacionais, como o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), para atrair mais tecnologia e financiamento.
“Nossa relação com o mundo deve ser guiada por uma ideia simples: os interesses da Venezuela e o bem-estar dos venezuelanos”, ressaltou a presidenta em exercício.
