Dois meses após o duplo terremoto que atingiu a Venezuela no dia 24 de junho, os trabalhos de retirada dos escombros acontecem 24 horas por dia. Em meio às marcas deixadas pela força da natureza, a solidariedade faz caminho na Venezuela. Trinta jovens militantes de nove países da América Latina cruzaram fronteiras com uma missão: ver de perto a realidade e estender a mão ao povo venezuelano.
Vittória Paz, militante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), é uma das integrantes da Brigada Internacionalista Fidel Castro, organizada pela Alba Movimentos, que percorreu as áreas mais afetadas pelo sismo na região de La Guaira e às margens do mar do Caribe, e prestou homenagens às mais de 6.500 vítimas da tragédia.
“Viemos aqui até La Guaira para entender e andar pelo chão que foi mais afetado pelo terremoto. Para entender o nível de destruição de verdade, poder ver e sair da narrativa que os meios de comunicação hegemônicos trazem para a gente. Mas também entender o nível de organização popular, de organização por parte do governo que está apoiando, ajudando e contando ainda os seus mortos. Então a nossa vinda aqui tem um sentido político”, destaca a militante sem-terra.
“A nossa vinda aqui é para trazer solidariedade, para pensar a solidariedade, pensar o que a gente pode de fato escutar do pessoal aqui, o que a gente pode fazer e o que a gente pode, dos nossos países, trazer apoio e transformar nossa solidariedade de fato em ação”, completa.

Heróis de 3 de janeiro
O compromisso da juventude internacionalista também passa pela memória. Em Caracas, a brigada visitou o memorial aos caídos durante o bombardeio e invasão militar dos Estados Unidos, ocorrido no dia 3 de janeiro, uma agressão que culminou no sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cília Flores. Para Máximo Echaniz, internacionalista da Argentina, sentimentos de indignação e orgulho se misturam.
“Estamos aqui de visita em Caracas, no mausoléu dos heróis de 3 de janeiro, buscando prestar uma homenagem a essas pessoas que deram a sua vida por uma pátria libertada, por um país que busca constantemente a emancipação do seu povo e dos povos do mundo”, diz o jovem, emocionado.
“É um sentimento que mistura orgulho com uma profunda tristeza pelas pessoas que continuamos perdendo, pela quantidade de vidas que continuamos entregando, porque o sangue somos nós que sempre colocamos. Tristemente, tem sido assim em toda a história da luta de classes. Mas também sinto um profundo orgulho de pensar que ainda existe gente que dá a vida por uma causa, e que somos muitos. Isso me alegra muito e me comove”, relata Echaniz.
Longe das lentes distorcidas da grande mídia, a Venezuela do dia a dia resiste ao bloqueio econômico e segue insistindo no socialismo como único caminho possível para o futuro do país. O que surpreendeu o argentino Leonel Renner, militante do movimento Nuestra América.
“Foi uma experiência muito mobilizadora e muito enriquecedora. Acho que o primeiro ponto importante, com a campanha de comunicação que a Venezuela tem contra si, principalmente promovida pelos Estados Unidos, é que estar na terra de Bolívar, se encontrar com o povo venezuelano, permite compreender realmente como é o processo internamente, por que realmente ele se mantém, com o apoio popular que tem, o nível de organização e o nível de consciência política que gerou nesse povo, o que, para os demais países da América Latina, é algo verdadeiramente surpreendente”, conta o internacionalista.
A passagem da Brigada Fidel Castro pela Venezuela não se encerra no retorno dos jovens aos seus países. Ela se converte em trincheira de ideias, no combate à desinformação e na certeza de que a solidariedade é, acima de tudo, ação, como conta Karen Vargas, internacionalista do México.
“Foram dez dias de muito aprendizado, de ver a Venezuela como um farol de esperança para a América Latina. Nossa tarefa como organizações é seguir o legado e seguir exigindo a libertação de Maduro e Cilia Flores a partir de nossos países e de nossos territórios”, afirma.
“O povo venezuelano continua resistindo com muita resiliência e muita esperança e está se levantando porque soube fazer comunidade e é comunidade. E, como um povo que se une, continua resistindo, juntos e juntas, e está seguindo em frente”, agrega a jovem mexicana.
