Já chegam a 170 o número de mortos após fortes inundações atingirem áreas próximas à fronteira do Nepal com a China nesta quarta-feira (26). Mais de 500 pessoas estão desaparecidas até o momento. Uma avalanche de lama e escombros rompeu a margem de um rio, soterrando construções e arrastando veículos e casas. Imagens divulgadas pela polícia nepalesa mostram a força da água no distrito de Rasuwa, onde a correnteza levou parte das estruturas construídas às margens do rio.
As razões para a ocorrência do fenômeno ainda são desconhecidas, mas algumas hipóteses estão sendo aventadas. Uma delas seria a ocorrência de um terremoto na região; a outra, aponta para o possível desprendimento de uma geleira, somado a uma forte chuva que atingiu a região nos últimos dias.
O colunista Wagner Ribeiro, geógrafo e professor de Pós-graduação em Ciência Ambiental da Universidade de São Paulo (USP), destaca que o tipo de geografia da região torna o episódio ainda mais grave devido à imprevisibilidade de novos episódios acontecerem num curto espaço de tempo.
“O mais plausível me parece ser o descolamento de uma geleira. Quando ela vem, é enorme, é compacto e é um volume muito grande. Então é o mais provável”, explica. “Uma das evidências de que talvez seja mesmo uma geleira é a capacidade de transportar blocos enormes de rochas, blocos muito grandes. Imagine o peso e o volume de tudo isso morro abaixo. É de fato muita energia. Por isso, as imagens são muito impactantes”, pontua.
Ribeiro destaca que o cenário é “consequência do aquecimento global”. O geógrafo relata que, na história da humanidade, situações dessa ocorreram nas formações geológicas, contudo, “a grande dificuldade é que hoje há muita gente vivendo nessas regiões”.
“É uma questão muito séria e que a gente vai continuar vendo se o aquecimento global continuar. Porque a gente está tirando a sustentação dessas geleiras”, explica.
Data centers: os maiores consumidores de água
Wagner Ribeiro também comentou dados de um estudo divulgado pela Organização das Nações Unidas (ONU) que indicam que, em 2025, os Data Centers instalados pelo mundo consumirão mais eletricidade do que quase todos os países do planeta.
Segundo o levantamento, os consumos de água e energia associados à inteligência artificial devem duplicar em apenas quatro anos.
O geógrafo observa que se faz necessário começar a questionar o que é a memória e o que merece ser arquivado eletronicamente. “As pessoas querem documentar a vida em tempo real”, critica. “A gente tem um volume de informações crescentes. E esse volume de informações gera o que chamamos de economia de dados”, diz o professor, ao reforçar que há muita gente ganhando dinheiro com dados.
“Isso tudo vai formar um volume de informação bastante importante que vai ser usado depois para direcionar a publicidade focada em cada indivíduo”, avalia.
Ribeiro também destaca a necessidade de refrigerar os ambientes de data centers, informação que nem todo mundo considera. “Imagine que é um conjunto de computadores um ao lado do outro, o calor que é gerado é enorme e você precisa refrigerar. E isso não está sendo discutido democraticamente”, critica.
Para ouvir e assistir
O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.
