O Irã atacou alvos militares dos Estados Unidos na Jordânia e nos Emirados Árabes Unidos nesta segunda-feira (31) em retaliação ao bombardeio estadunidense contra a ilha iraniana de Larak, no Estreito de Ormuz, na noite de domingo (30). A troca de ataques é a primeira entre Teerã e Washington em cerca de um mês, como parte do conflito iniciado há seis meses.
Segundo a Guarda Revolucionária Islâmica, mísseis balísticos foram lançados contra duas bases aéreas usadas pelas forças estadunidenses na Jordânia: a Base Aérea Rei Hussein e a Base Aérea Al Azraq. O órgão afirmou que os ataques atingiram estruturas técnicas e de manutenção, e áreas onde estavam estacionados caças.
“Cada disparo será respondido com reações ainda mais devastadoras”, afirmou a Guarda Revolucionária.
O Exército da Jordânia, por sua vez, informou ter interceptado oito mísseis, mas não indicou sua procedência.
Nos Emirados Árabes Unidos, o Exército iraniano afirmou ter lançado “dezenas de drones explosivos” contra a Base Aérea de Al Minhad, ao sul de Dubai, usada por forças estrangeiras como centro de logística e transporte aéreo. Segundo Teerã, os alvos eram áreas onde estavam militares e helicópteros estadunidenses.
“Desde o início da manhã, o Exército da República Islâmica do Irã tem atacado locais que abrigam helicópteros e pessoal militar dos EUA na base de Al Minhad, nos Emirados Árabes Unidos, com dezenas de drones explosivos”, afirmou a corporação.
O governo dos Emirados Árabes Unidos informou ter “respondido” a um drone procedente do Irã detectado em suas águas territoriais.
Ataque dos EUA à ilha iraniana
A ofensiva iraniana ocorreu após forças dos Estados Unidos bombardearem, no domingo, a ilha de Larak. Segundo a agência Tasnim, duas pessoas morreram e outras duas ficaram feridas.
O Comando Central dos Estados Unidos (Centcom) afirmou que realizou uma ação “limitada e precisa” contra integrantes da Guarda Revolucionária que, segundo Washington, representavam uma ameaça no estreito.
Os Estados Unidos alegaram que a operação buscava impedir que o Irã instalasse novas minas marítimas na região. Uma fonte militar iraniana ouvida pela Tasnim rejeitou a justificativa e classificou a versão estadunidense como “fantasia e invenção”.
Em nota, o Ministério das Relações Exteriores do Irã acusou Washington de violar a soberania e a integridade territorial do país e sustentou que os ataques contra instalações estadunidenses foram realizados em legítima defesa.
“Em resposta a essa agressão militar e de acordo com seu direito inerente à legítima defesa, as poderosas Forças Armadas da República Islâmica do Irã realizaram ataques defensivos e devastadores contra bases militares americanas localizadas na Jordânia, que serviram como ponto de partida e apoio para a agressão militar dos EUA contra o Irã”, afirmou o ministério.
Teerã classificou o ataque a Larak como violação do artigo 2º, parágrafo 4º, da Carta das Nações Unidas, que proíbe o uso da força contra a integridade territorial ou a independência política dos Estados. O governo iraniano pediu que o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) responsabilize os Estados Unidos.
O Ministério das Relações Exteriores afirmou ainda que as Forças Armadas iranianas continuarão a exercer o que considera seu direito à legítima defesa diante de novas ofensivas.
“A responsabilidade total pelas consequências dos novos atos de agressão dos EUA, bem como pelo bloqueio naval contínuo e pela guerra econômica contra o Irã, recai sobre o regime dos EUA e todas as partes que, de alguma forma, conspiram ou participam da preparação e execução das medidas ilegais e ilícitas dos EUA”, diz a nota.
Pezeshkian diz que Irã não busca guerra
Antes de viajar para Bishkek, no Quirguistão, onde participa da cúpula da Organização de Cooperação de Xangai (OCX), o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, afirmou que seu país não pretende ampliar o conflito, mas responderá a novos ataques.
“Não estamos buscando a guerra, e essa é uma mensagem clara que temos comunicado repetidamente ao mundo”, declarou nesta segunda.
Pezeshkian, no entanto, disse que o país não permanecerá em silêncio diante de ofensivas contra seu território e prometeu uma resposta “decisiva” a eventuais novos ataques.
“A instabilidade e os distúrbios na região não são do interesse de nenhum país e criarão desafios para todos. Portanto, devemos unir esforços e lutar para garantir a segurança, a economia e o desenvolvimento na região”, afirmou.
Primeiros ataques em um mês
A nova escalada ocorre após semanas de redução da intensidade dos confrontos. A guerra começou em 28 de fevereiro, com a agressão conjunta dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã. Teerã respondeu com ofensivas contra interesses estadunidenses e países do Golfo aliados de Washington.
Um cessar-fogo em abril interrompeu quase 40 dias de bombardeios intensos. Em junho, as partes chegaram a um protocolo de acordo que pretendia encerrar o conflito, mas as hostilidades foram retomadas em julho e as negociações permanecem paralisadas.
Um dos principais focos da disputa é o Estreito de Ormuz, passagem estratégica entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã, por onde, antes da guerra, transitava cerca de 20% do petróleo e do gás exportados no mundo. O Irã mantém a via bloqueada, enquanto os Estados Unidos sustentam um bloqueio naval contra portos iranianos.
A nova escalada teve reflexos no mercado internacional. Nesta segunda, o barril do petróleo Brent subia 2,6%, para US$ 90,39 (cerca de R$ 470), enquanto o West Texas Intermediate (WTI) avançava 2,3%, para US$ 85,33 (aproximadamente R$ 444).