O Estreito de Ormuz está no centro das preocupações globais nos últimos meses por conta dos ataques de Israel e dos Estados Unidos contra o Irã. Desde a medida retaliatória anunciada por Teerã, que decidiu fechar a rota por onde passa boa parte do petróleo do globo, praticamente todo o ecossistema da segurança energética global tem sido instado a se remodelar. Agora, o Irã e Omã concordaram em traçar uma rota marítima temporária para que navios possam transitar por Ormuz.
A informação foi confirmada na última terça-feira (25) pelo vice-ministro das Relações Exteriores iraniano, Kazem Gharibabadi. Em pronunciamento na televisão estatal do Irã, Gharibabadi explicou que os dois países concordaram que a entrada na nova rota deve começar em águas territoriais iranianas e que parte da rota de saída também será pelo Irã. No total, o corredor de trânsito terá 11,3 quilômetros de extensão.
O acerto é parte de um complexo acordo entre os dois países. Segundo a Guarda Revolucionária Islâmica, as negociações começaram há cerca de um mês. “Chegamos a resultados que foram aceitos por ambas as partes. Acordos foram firmados sobre a participação de cada país nas águas do estreito e sobre a participação do Irã e de Omã nas receitas provenientes dele”, disse o grupo, sem dar mais detalhes.
Qual é o peso estratégico do acordo
A guerra entre EUA/Israel e Irã completa seis meses nesta semana. Muito antes do conflito começar, a possibilidade de que Teerã bloqueasse o Estreito de Ormuz em caso de eventual ataque sempre funcionou como uma carta de peso para o país persa, e analistas, ao longo do tempo, sempre especularam sobre os reais efeitos de uma hipotética ação dessa natureza. Com o fechamento vindo à tona no primeiro semestre, o mercado de energia, notadamente o de petróleo, entrou em uma espiral de volatilidade poucas vezes vista na história recente.
Com Ormuz praticamente paralisado, cerca de 6 mil marinheiros já foram bloqueados. O tráfego marítimo, cuja média diária era de 95 travessias por dia em fevereiro, segundo dados da agência Kpler, foi reduzido a não mais que 10 travessias diárias. Além disso, o Irã começou a lançar mão de minas instaladas no local, que criam, segundo a Guarda Revolucionária, uma “área de perigo” de cerca de 1,4 mil quilômetros quadrados.
Os Estados Unidos, que fracassaram na tentativa de obliterar a estrutura de poder do Irã pela via militar e tentam levar Teerã à rendição pelo estrangulamento econômico, fazem jogo duro sobre qualquer manejo sobre Ormuz. Por conta do quadro engessado, os negociadores iranianos passaram a convencer Omã, um país relativamente neutro e propositivo no campo diplomático, a criar uma rota alternativa. Esse é o pano de fundo do acerto costurado.
Em pronunciamento nesta semana, Gharibabadi fez questão de enfatizar que a rota de trânsito acordada com Omã é temporária, e que o movimento não indica que o estreito seja reaberto. Para o Irã, uma reabertura definitiva só é possível caso os EUA aceitem os termos do acordo de paz proposto em junho, mas que segue travado.
Segundo informações da agência Tasnim, o acordo Irã-Omã também prevê um projeto conjunto de desminagem. Em declaração conjunta dos ministros das Relações Exteriores do Irã e de Omã (Abbas Araqchi e Sayid Badr bin Hamad, respectivamente), as autoridades citaram que “as negociações técnicas entre as duas partes continuarão com o objetivo de chegar a um acordo sobre o corredor de navegação permanente e a futura administração do estreito, bem como um mecanismo de compartilhamento de informações, gestão do tráfego e prestação de serviços de navegação e segurança relevantes”.
O que falta saber
As diretrizes gerais do acordo vieram à tona, mas a letra miúda do acerto é que vai determinar como a via provisória será operada. Alguns detalhes de peso ainda são desconhecidos, a exemplo de quais serão as coordenadas exatas das rotas, quando os navios poderão começar a atravessar o trecho com segurança e como, efetivamente, as receitas serão distribuídas. Irã e Omã ainda devem explicar quais serão os protocolos operacionais específicos.
Além disso, é aguardada a reação de Washington sobre o acordo. Ao menos no discurso, Trump vem dizendo sucessivamente que as forças estadunidenses são as vencedoras do conflito, e que a possibilidade de que o Irã determine quem pode passar ou não por Ormuz não é admissível.
Outro ponto de relevo é o fato de que os EUA não fizeram parte da construção do acordo Irã-Omã. Esse é um ponto especialmente problemático para Washington, que sempre considerou Omã uma espécie de aliado.
Nesta semana, a própria Guarda Revolucionária Islâmica mencionou que os Estados Unidos estariam obstruindo as negociações entre Omã e Irã, o que teria levado ao atraso no acordo. Washington ainda não se pronunciou sobre o anúncio do acerto, mas Trump vem dando todos os sinais de que não aceitará a medida. Na semana passada, o republicano mencionou, em entrevista à emissora estadunidense Fox News, que, se Omã entrar “no caminho” dos Estados Unidos, as forças dos EUA iriam “bombardeá-los até não sobrar nada”.
