União do Sul Global

China e Sudeste Asiático aprofundam integração econômica e comércio bate recorde de R$ 5,4 trilhões

Intercâmbio chegou a R$ 3,84 trilhões nos primeiros sete meses de 2026; novo acordo de livre comércio amplia cooperação

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Líderes da China e dos países da ASEAN participam da 28ª Cúpula ASEAN-China, em Kuala Lumpur, na Malásia, em outubro de 2025.
Líderes da China e dos países da ASEAN participam da 28ª Cúpula ASEAN-China, em Kuala Lumpur, na Malásia, em outubro de 2025. | Crédito: ASEAN Secretariat

O comércio entre a China e a Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean) ultrapassou pela primeira vez a marca de R$ 5,4 trilhões em 2025 e mantém forte ritmo de expansão em 2026. O crescimento acontece em paralelo ao aprofundamento de acordos comerciais, investimentos e cadeias produtivas que aproximam as economias da China e do Sudeste Asiático.

Os dados mais recentes foram apresentados nesta terça-feira (1º), em Pequim, pelo vice-ministro chinês do Comércio, Yan Dong, durante uma coletiva de imprensa sobre a cooperação econômica e comercial entre China e Asean e os preparativos para a 23ª Exposição China-Asean (Caexpo) e a 23ª Cúpula Empresarial e de Investimentos China-Asean (Cabis).

“Em 2025, o comércio bilateral entre a China e a Asean ultrapassou pela primeira vez a marca de R$ 5 trilhões, chegando a aproximadamente R$ 5,4 trilhões, um aumento de 7,4% em relação ao ano anterior”, afirmou Yan.

A expansão acelerou ainda mais neste ano. Segundo o vice-ministro, entre janeiro e julho de 2026, o comércio bilateral chegou a aproximadamente R$ 3,84 trilhões, alta de 24,7% em comparação com o mesmo período de 2025. A Asean respondeu por 21,8% do comércio exterior total da China no período.

Segundo os dados apresentados por Pequim, a China é o maior parceiro comercial da Asean há 17 anos consecutivos, enquanto o bloco ocupa a primeira posição entre os parceiros comerciais chineses há seis anos seguidos.

A Asean reúne atualmente 11 países: Brunei, Camboja, Indonésia, Laos, Malásia, Mianmar, Filipinas, Singapura, Tailândia, Timor-Leste e Vietnã. O bloco representa um dos principais centros econômicos e industriais da Ásia.

Para a China, os países do Sudeste Asiático representam um grande mercado consumidor e parceiros importantes para a produção industrial. Para a Asean, o mercado chinês oferece demanda para suas exportações, além de máquinas, equipamentos, componentes e investimentos.

Um dos aspectos mais importantes dessa relação é a integração das cadeias produtivas. No primeiro semestre de 2026, o comércio de bens intermediários — como peças, componentes e insumos de produção — entre China e Asean cresceu 24,5%, chegando a 2,86 trilhões de yuans e representando aproximadamente dois terços do comércio bilateral.

Segundo a Administração Geral das Alfândegas da China, o aumento reflete o aprofundamento da integração e da conectividade entre as cadeias industriais e de valor dos dois lados.

Na prática, isso significa que a relação comercial envolve cada vez mais peças, componentes e matérias-primas que atravessam fronteiras durante diferentes etapas da produção, conectando fábricas chinesas e do Sudeste Asiático.

O dado ajuda a mostrar que a expansão não se limita às exportações de produtos acabados. China e Asean estão cada vez mais conectadas por redes de produção que atravessam diferentes países.

Cadeias produtivas e ACFTA 3.0

Essa integração ganhou um novo instrumento em outubro de 2025, quando China e Asean assinaram o Protocolo de Atualização da Área de Livre Comércio China-Asean, conhecido como ACFTA 3.0.

O primeiro acordo de livre comércio entre as partes foi assinado em 2002 e entrou em vigor em 2010. A nova atualização amplia a parceria para áreas que vão além da redução de tarifas, incluindo economia digital, economia verde, padrões e cadeias de produção e fornecimento.

Segundo Yan Dong, o novo acordo “estende a cooperação bilateral de livre comércio e a integração econômica regional para áreas emergentes, como a economia digital, a economia verde, os padrões e as cadeias de produção e fornecimento”.

A atualização acompanha mudanças na própria economia regional, em que comércio eletrônico, tecnologias digitais, energia limpa e segurança das cadeias produtivas passaram a ter peso crescente.

O ACFTA 3.0 está inserido em uma estrutura comercial regional mais ampla. China e os países da Asean também fazem parte da Parceria Econômica Regional Abrangente (RCEP), que reúne 15 economias da Ásia-Pacífico, incluindo Japão, Coreia do Sul, Austrália e Nova Zelândia.

Em vigor desde 2022, o acordo estabeleceu regras comuns para facilitar o comércio e a integração das cadeias produtivas.

A combinação desses mecanismos ajuda a consolidar uma rede de integração econômica em que produtos, componentes e investimentos circulam entre diferentes economias asiáticas. O crescimento da relação também aparece nos investimentos e nos projetos empresariais.

Segundo Yan Dong, até julho de 2026, tanto o investimento bilateral acumulado entre China e Asean quanto o volume acumulado dos negócios de projetos contratados por empresas chinesas nos países do bloco ultrapassaram R$ 2,65 trilhões em valores convertidos pela cotação atual.

O dado reúne duas dimensões diferentes da cooperação econômica — investimentos de ambos os lados e projetos contratados por empresas chinesas — e mostra que a relação não se limita ao comércio de mercadorias.

A disputa entre China e Estados Unidos

O aprofundamento da relação China-Asean acontece em um momento de crescente disputa econômica entre Pequim e Washington.

As tarifas e medidas protecionistas adotadas pelos Estados Unidos contribuíram para acelerar a reorganização das cadeias globais de produção. Países do Sudeste Asiático passaram a receber novas fábricas e investimentos de empresas que procuram diversificar sua produção. Nesse contexto, a integração regional ganha importância.

Mas isso não significa que a Asean esteja escolhendo entre China e Estados Unidos. O bloco mantém relações econômicas com as duas maiores economias do mundo e procura preservar uma posição própria diante da competição entre as grandes potências.

Para os países do Sudeste Asiático, ampliar o comércio com a China pode representar novas oportunidades econômicas sem necessariamente significar uma ruptura com Washington. A expansão econômica também convive com divergências políticas.

China e alguns países da Asean mantêm disputas territoriais no Mar do Sul da China, especialmente com Filipinas e Vietnã. As questões de soberania e segurança continuam sendo fontes de tensão.

Apesar disso, os conflitos não impediram o crescimento do comércio e dos investimentos, mostrando que a interdependência econômica pode avançar mesmo em meio a divergências estratégicas.

Nanning prepara a próxima etapa: uma relação estratégica em expansão

O próximo grande encontro econômico entre as duas partes acontecerá em Nanning, capital da região autônoma de Guangxi, no sul da China. Entre 17 e 21 de setembro, a cidade receberá a 23ª Exposição China-Asean e a 23ª Cúpula Empresarial e de Investimentos China-Asean.

Segundo as informações divulgadas nesta terça-feira, a feira contará com mais de 2.200 empresas chinesas e quase mil empresas da Asean. Pela primeira vez, haverá uma área dedicada às necessidades tecnológicas e de aplicação dos países do bloco, com o objetivo de aproximar empresas chinesas de demandas específicas dos mercados do Sudeste Asiático.

A localização de Nanning é estratégica. Guangxi faz fronteira terrestre com o Vietnã e funciona como uma das principais portas de entrada da China para o Sudeste Asiático. O encontro ocorre cinco anos após o estabelecimento da Parceria Estratégica Abrangente China-Asean.

O marco de R$ 5,4 trilhões alcançado em 2025 é apenas a parte mais visível de uma relação econômica que vem ganhando novas dimensões.

Nos primeiros sete meses de 2026, o comércio cresceu quase 25%, enquanto os dois lados avançaram na atualização do acordo de livre comércio e ampliaram a cooperação em tecnologia, economia verde e cadeias produtivas. A expansão dos investimentos e dos projetos empresariais reforça essa tendência.

Ao mesmo tempo, o bloco procura preservar sua autonomia e manter relações diversificadas em meio à disputa entre as grandes potências.

Os números apresentados em Pequim indicam, assim, que a integração econômica entre China e Sudeste Asiático continua avançando — e pode desempenhar um papel importante na reorganização das cadeias de comércio e produção da Ásia nos próximos anos.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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