Eleições 2026

PT em São Paulo: é possível superar o muro conservador do interior paulista?

Figuras históricas e lideranças locais do PT examinam dificuldades para avançar em SP e fragilidades do governo Tarcísio

Fernando Haddad concorre ao governo de São Paulo pela segunda vez
Fernando Haddad concorre ao governo de São Paulo pela segunda vez | Crédito: Foto: Diogo Zacarias/PT

Para as eleições de 2002, o PT teve um desafio: convencer o então deputado federal José Genoíno a se candidatar ao governo de São Paulo. Na época, o então parlamentar preferia focar esforços no Congresso Nacional e na construção da candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva ao Palácio do Planalto.

Os petistas nunca haviam chegado ao segundo turno na disputa pelo governo paulista. No pleito anterior, José Genoíno havia sido o deputado federal mais votado do estado, com 306 mil votos.

Na disputa pelo Palácio dos Bandeirantes, os petistas vinham de uma experiência frustrante em 1998, quando Marta Suplicy ficou fora do segundo turno por apenas 75 mil votos, incríveis 0,4%. O pleito foi decidido entre Paulo Maluf, que era do PFL, e Mário Covas, do PSDB, que acabou eleito.

Em 1994, José Dirceu, uma das mais importantes lideranças da história do PT, já havia caído no primeiro turno, com apenas 14% dos votos. Naquele ano, Mário Covas, no PSDB, foi eleito após vencer facilmente Francisco Rossi (PDT) no segundo turno.

Uma eleição antes, em 1990, Plínio Arruda Sampaio, que ganhou fama nacional no Psol nos anos 2000, ficou apenas em quarto lugar como candidato do PT ao governo paulista. Luiz Antônio Fleury, que concorria pelo PMDB, terminou o primeiro turno atrás de Paulo Maluf, do PDS, e surpreendeu ao virar no segundo turno e ser eleito governador.

Em 1986, o jovem Eduardo Suplicy sucumbiu nas urnas e perdeu a eleição para o Palácio dos Bandeirantes, terminando em quarto lugar, com apenas 11% dos votos.

Genoíno levava, portanto, em 2002, um peso para as urnas: a responsabilidade de fazer o PT disputar o segundo turno e, consequentemente, ser competitivo na corrida pelo Palácio dos Bandeirantes.

O PT antecipou a eleição dentro do partido, justamente para fazer do interior um espaço menos resistente ao partido. “Eu comecei a andar o interior em 2001, mais de um ano antes da eleição. Veja, andei 620 municípios (são 644 no estado). Naquela época, o PT tinha muita estrutura no interior, nas macrorregiões. Eu corri o estado todo, falando com todo mundo, dialogando e apresentando nossas ideias”, relembra Genoíno.

A estratégia deu certo. Genoíno teve uma votação histórica para o partido e chegou ao segundo turno, quando perdeu para Geraldo Alckmin, que corria pelo PSDB na época. “Nossa votação foi muito boa e deu um caminho para o partido.”

A projeção era ótima para 2006: o partido havia acumulado força para o próximo pleito. Porém, os anos seguintes foram difíceis para os petistas paulistas. “Depois daquela eleição, o PT passou por um processo de criminalização, e as figuras mais atingidas do partido, todas lideranças nacionais, eram do PT de São Paulo. Eu, José Dirceu, Lula, Luiz Gushiken, entre outros. Isso levou o partido para uma posição frágil no estado”, conta Genoíno.

Para ele, essa atmosfera reacionária tem uma gênese. “Em São Paulo, a movimentação de 1932 gerou uma onda conservadora no interior de São Paulo. Isso foi se consolidando com a ditadura, quando teve governadores como Adhemar de Barros e depois o Maluf. Uma coisa que o Maluf fez no interior foi consolidar esses grupos que se tornaram espaços de reunião de conservadores, como Rotary Club, Lions Clubs, além das igrejas. Mesmo as católicas no interior são de direita.”

Para o cientista político Paulo Roberto Souza, o conservadorismo da região passa por “todo o sistema local de mídia tradicional e agora a emergente agromídia digital” e reúne “diversos fatores, mas me parece que a principal é o ‘cordão sanitário’ anti-progressismo articulado pelas lideranças políticas locais históricas desde o coronelismo com o agronegócio contemporâneo e a extrema-direita”, explica o professor da FESP-SP.

“As cidades do interior, mesmo as satélites, têm uma homogeneidade política, cultural e social muito mais simplificada do que a região metropolitana, onde as múltiplas desigualdades, diante da dinâmica violenta e densa, são mais perceptíveis e disputáveis, bem como toda a influência cosmopolita nos espaços urbanos, com infraestrutura cultural e universitária que geram necessariamente uma heterogeneidade mais ampla.”

Genoíno vê nas campanhas nacionais outro obstáculo para as campanhas ao Palácio dos Bandeirantes. “Pela relevância do estado, as candidaturas do PT sempre têm a obrigação de nacionalizar o debate e ser palanque para o candidato nacional. Veja o Haddad agora, tem que sustentar uma campanha em São Paulo para garantir palanque ao Lula. Precisamos criar condições para que o candidato consiga priorizar a disputa estadual.”

O desafio de Haddad

Em 2022, quando disputou a eleição para o governo de São Paulo, Fernando Haddad chegou ao segundo turno e conseguiu vencer na capital paulista e em outros 78 municípios. Tarcísio Freitas (Republicanos), no entanto, saiu vencedor em 566 cidades e garantiu que o governo paulista seguisse mais quatro anos nas mãos da direita.

A Real Time Big Data divulgou uma pesquisa, em junho deste ano, mostrando como vota o paulista de diversas regiões do estado. O levantamento reforçou a preocupação petista com o interior.

De acordo com a pesquisa, Haddad vence na capital, assim como em 2022, e empata na região metropolitana. Porém, na macrorregião de Campinas, o petista tinha apenas 25%, contra 52% de Tarcísio de Freitas. No Centro Paulista, outra vitória em primeiro turno do atual governador, 57% contra 25% do petista.

No Vale do Paraíba, a Real Time Big Data projetava Tarcísio com 51% e Haddad com 34%. No Oeste Paulista, o governador acumulava 57% das intenções de voto e o petista tinha apenas 23%. Por fim, na região de Sorocaba, outra vitória do atual mandatário, 52% contra 28%.

O cenário adverso no interior não foi recebido como novidade ou com espanto pelos petistas, que entenderam a região como estratégica para a eleição deste ano. Não à toa, o PT escolheu Campinas como palco para o lançamento da candidatura de Fernando Haddad ao governo paulista, em 25 de julho deste ano.

O município já foi governado pelo PT em duas oportunidades. Primeiro, entre 1989 e 1992, quando Jacó Bittar era o prefeito, e por Toninho do PT, que comandou os campinenses por apenas nove meses, entre 1 de janeiro e 10 de setembro de 2001, quando foi assassinado.

Vinte e três anos após Toninho do PT, Pedro Tourinho (PT), após cumprir dois mandatos como vereador em Campinas, decidiu disputar a prefeitura local. Mas o ambiente para o partido já era muito distante do começo do século.

“O preconceito contra o PT no interior paulista é fruto de anos de uma máquina de desinformação que tenta associar a luta pelos direitos dos trabalhadores a algo negativo. Em Campinas, esse discurso sempre serviu como cortina de fumaça para proteger privilégios e blindar esquemas locais de poder. Vimos isso claramente quando atuei na Câmara Municipal: enquanto liderávamos a fiscalização e a denúncia de desvios na gestão da saúde, os setores conservadores tentavam desviar o foco atacando o partido”, afirmou Tourinho.

O petista, que neste ano é candidato a deputado federal, insiste. “Esse antipetismo se manifesta na tentativa de rotular qualquer política de distribuição de renda, de defesa do SUS ou de fortalecimento da universidade pública como ‘ideológica’. Enfrentamos esse preconceito demonstrando compromisso prático com a vida das pessoas: defendendo o Mais Médicos, a atenção primária à saúde, a valorização do funcionalismo público e a transparência na administração.”

Mais para oeste, está Ribeirão Preto, onde, em 2020, Duda Hidalgo, do PT, se tornou a mais jovem vereadora eleita na história do município, aos 21 anos, com 3.481 votos. Em 2024, ela se reelegeu. Dessa vez, com a terceira maior votação da cidade, 8.651 eleitores a escolheram na urna.

“Furar esse bloqueio foi resultado de um trabalho coletivo que escolheu disputar a política pela raiz, dialogando diretamente com a vida real da população trabalhadora, das populações negras, da juventude e das periferias de Ribeirão Preto. O conservadorismo tenta vender todos os dias de que o interior é homogêneo, que é tudo igual, mas a nossa cidade tem uma juventude que quer futuro, mulheres chefes de família que sustentam suas casas e uma população LGBTQIA+ que exige direitos e respeito”, explica Hidalgo.

Para a petista, que disputa uma vaga na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp), disputar o interior é possível, pois “quando o projeto do PT se traduz em acolhimento, presença territorial e soluções concretas para os problemas do cotidiano, nenhuma barreira conservadora consegue silenciar a vontade de mudança”.

Paulo Roberto pondera que “o interior hoje já não é mais pautado pelo debate político universalista da capital, uma vez que não se sente representado, pois boa parte dessas demandas são percebidas de outra forma, enquanto as suas demandas são pouco abordadas pelo segmento progressista. Não é uma dificuldade exclusiva do Haddad, mas sim de todo o campo.”

Lacunas da direita em São Paulo

Apesar da aparente vitória encaminhada de Tarcísio de Freitas, de acordo com as pesquisas, Hidalgo e Tourinho acreditam que Haddad pode reverter o cenário eleitoral. O segredo está em pautas e lacunas do atual governo no interior.

Em março deste ano, Ribeirão Preto foi tomada por enchentes. Em dezembro do ano passado, 1,2 mil famílias que vivem na comunidade da Locomotiva, na zona sul da cidade, foram impactadas pelas cheias no município.

Ribeirão Preto não é exceção. Outros municípios sofreram com as chuvas, inclusive a capital paulista. A gestão de Tarcísio de Freitas insiste, desde 2024, em cortes nas verbas de enchentes e desastres climáticos.

Em 2023, o governo estadual investiu apenas R$ 841 milhões dos R$ 2 bilhões previstos em orçamento para infraestrutura hídrica e combate a enchentes. Isso significa que Tarcísio de Freitas desembolsou apenas 40% dos recursos que dispunha.

“Reduzir investimentos em obras estruturantes de macro e microdrenagem penaliza de forma imediata as periferias e as áreas de várzea, onde a infraestrutura já é precária. A prevenção climática não é gasto supérfluo, é política de segurança pública. Quando o governo estadual corta recursos da adaptação climática para priorizar a lógica fiscal de curto prazo e a privatização, ele abandona os municípios à própria sorte e aprofunda o abismo da desigualdade regional”, critica Hidalgo.

A ex-vereadora lembrou que o debate sobre segurança pública e a conduta da Polícia Militar fica restrito à capital paulista, mas que no interior a violência policial é reproduzida.

“Em cidades como Ribeirão Preto, a juventude negra convive diariamente com a hipervigilância, a criminalização da sua cultura e a falta de oportunidades. O desmonte de políticas de controle do uso da força e o enfraquecimento de mecanismos de transparência pelo governo estadual impactam diretamente os bairros populares do interior. Precisamos desarmar essa lógica que trata segurança como confronto armado contra os mais vulneráveis”, finaliza Hidalgo.

Educação

Uma das pautas do bolsonarismo abraçadas por Tarcísio de Freitas em São Paulo, a militarização das escolas avançou no estado. “A tentativa de impor o modelo cívico-militar nas escolas paulistas é uma farsa ideológica e um desrespeito flagrante aos profissionais da educação. Em vez de valorizar o piso dos professores, reformar as escolas sucateadas, garantir merenda de qualidade e investir em ciência e tecnologia, o governo estadual tenta aplicar uma lógica de tutela e repressão no ambiente escolar”, explica Tourinho.

Quando assumiu, Tarcísio de Freitas nomeou Renato Feder para chefiar a Secretaira de Educação, que era reconhecido por ter implementado o modelo de escolas civício-militares no Paraná, durante o governo de Ratinho Jr (PSD).

Em São Paulo, Tarcísio de Freitas militarizou 100% das vagas de Ensino Médio em dois municípios: Nhandeara e General Salgado, ambas no interior paulista. Isso significa que famílias que discordam do modelo não encontraram alternativas nas cidades.

Em decisão recente, o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou a suspensão do programa de expansão das escolas cívico-militares no país. A medida foi celebrada por Tourinho. “A derrota jurídica e institucional dessa proposta em São Paulo, com a Justiça e a sociedade civil apontando seu caráter inconstitucional, discriminatório e inadequado pedagogicamente, mostra que a escola pública precisa de educadores valorizados, não de monitoramento de comportamento. A função primordial da escola é formar cidadãos críticos, livres e qualificados para o mercado de trabalho e para a vida.”

Pedágios

Anunciados como inovação tecnológica para facilitar a vida dos paulistas, os pedágios eletrônicos de cobrança automática se espalharam pelas rodovias de São Paulo. Chamados pela gestão Tarcísio de Freitas de “Free Flow”, o serviço foi criticado em diversas audiências públicas na Alesp e se tornou alvo do governo federal.

Em abril, o Ministério dos Transportes anunciou a suspensão de 3,4 milhões de multas aplicadas pelo não pagamento dos pedágios. O governo paulista conseguiu reverter a medida na Justiça.

Porém, explica Tourinho, “para o pequeno comerciante, o prestador de serviços, o motorista de aplicativo e o produtor rural familiar, essa política encareceu o frete, inflacionou o custo de vida regional e impôs um sistema burocrático e punitivo, com prazos exíguos que geram multas automáticas pesadas na CNH”.

O petista insiste. “Ao multiplicar os pontos de cobrança eletrônica em rodovias que conectam cidades vizinhas, como nas regiões de Campinas, Circuito das Águas, Sorocaba e no eixo Anhanguera-Bandeirantes, o governo passou a cobrar de quem faz deslocamentos curtos diários para trabalhar, estudar ou buscar atendimento médico.”

Em agenda no município de Ourinhos, no interior paulista, na última quinta-feira (27), Haddad se reuniu com moradores e comerciantes da região e comentou a instalação dos “Free Flow” nas rodovias que cortam a cidade.

“O planejamento da instalação de pedágios está mal feito. Tanto que o governador adiou uma parte da instalação com prejuízo para os cofres públicos, porque ele vai ter que indenizar a empresa que ele contratou”, afirmou Haddad.

Paulo Roberto Souza avalia que esses temas são deficiências da gestão de Tarcísio de Freitas e que a campanha de Haddad tem explorado. “Mas o desafio, sem dúvida, é furar a bolha do interior, tentando mostrar como esses e outros problemas do Tarcísio pioram a qualidade de vida dessas pessoas, principalmente das mais pobres e vulneráveis”, encerrou.

O governo de São Paulo foi procurado para comentar as críticas. Até o fechamento desta matéria, não houve resposta. Caso haja uma manifestação do Palácio dos Bandeirantes, o texto será atualizado.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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