Zâmbia

Partido Socialista da Zâmbia amplia votação em todo o país após anos de perseguição a Fred M’membe

Mesmo sob ameaças judiciais e prisão de seu líder, legenda de esquerda fincou bases em todas as províncias

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Eleições na Zâmbia aconteceram em contexto de violência política.
Eleições na Zâmbia aconteceram em contexto de violência política. | Crédito: Gianluigi Guercia / AFP

O Partido Socialista da Zâmbia recebeu votos em todas as regiões do país na eleição do último dia 13 de agosto. O resultado foi comemorado pela legenda como avanço após anos de tentativas de criminalização e de uma batalha judicial que quase barrou sua candidatura. Foram 12.094 votos para o presidente do partido, o jornalista Fred M’membe. 

O número, apesar de pequeno diante dos 2,9 milhões de votos que reelegeram o presidente Hakainde Hichilema, ganha outra dimensão quando interpretado frente ao quadro que a sigla enfrentou para poder chegar às urnas. Diferentemente de 2021, quando a votação ficou concentrada em poucos redutos, o Partido Socialista, agora, alcançou eleitores nas dez províncias, incluindo no norte da Zâmbia, conhecido pelo perfil eleitoral conservador.

M’membe chegou à disputa depois de uma sucessão de processos. Em março deste ano, a poucos meses do pleito, ele foi preso sob a Lei de Crimes Cibernéticos, sancionada em 2025, por causa de declarações em uma entrevista de rádio. Em 2023, o jornalista já havia sido detido sob acusação de espionagem, por conta de uma entrevista concedida a um documentário sobre as eleições no Zimbábue. Em 2022, M’membe denunciou um plano das forças de segurança para sequestrá-lo.

A candidatura só foi assegurada em 18 de junho, quando a Corte Constitucional rejeitou uma petição que buscava barrar M’membe e sua companheira de chapa, Dolika Banda, sob o argumento de que ela não teria o certificado de ensino médio exigido pela Constituição. O tribunal considerou que os autores da demanda não apresentaram provas suficientes. 

A plataforma socialista colocou no centro do debate a pobreza, o desemprego, a educação, a agricultura e a soberania econômica.

A leitura da legenda é de que uma candidatura de esquerda, mesmo com chances baixas de chegar ao poder, foi capaz de fortalecer a militância, aproximando os trabalhadores e tornando visíveis questões que a política institucional do país tenderia a deixar de fora.  

O desempenho também se deu em um quadro de alta abstenção eleitoral. O comparecimento foi de 57,23%, em uma queda de 13,38% em relação a 2021. Dos 8,7 milhões de eleitores registrados, cerca de 3,7 milhões não votaram. 

O resultado da eleição foi anunciado pela Comissão Eleitoral, confirmando a vitória de Hichilema, da UPND, por 60,49% dos votos válidos. O principal adversário, Brian Mundubile, do NRPUP, obteve 37,37%. 

A eleição no país africano ficou marcada por uma suspensão inédita da contagem em todo o território. No dia seguinte à votação, a Comissão Eleitoral interrompeu a apuração por seis horas, invocando ataques a funcionários eleitorais e roubo de cédulas já marcadas.

Também no dia 14 de agosto, forças de segurança invadiram uma propriedade ligada a Mundubile em Lusaka. Durante a operação, o ex-ministro Mototwe Kafwaya, de 49 anos, foi baleado e morto. O governo apresentou a ação como desmantelamento de uma suposta milícia, detendo onze pessoas. Mundubile negou as acusações, classificando-as como “fabricações totais”. 

Enquanto isso, as missões de observação internacional registraram que o pleito teria sido realizado em um “contexto de espaço democrático restrito”. Segundo o chefe da missão da União Europeia (UE), McNamara, a disputa teria sido travada de modo desigual, com a cobertura da mídia “fortemente enviesada” a favor do governo.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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