O diretor Marcelo Fonseca denuncia que o filme “Usina Cambahyba: Das Cinzas da Tortura à Terra Prometida” tem sido alvo de tentativa de censura e intimidação. A produtora recebeu uma notificação extrajudicial na véspera da estreia, pedindo a retirada de conteúdos do ar com possibilidade de responsabilização civil e criminal.
O curta-metragem investiga a história da antiga usina de cana-de-açúcar em Campos dos Goytacazes (RJ), envolvida em denúncias sobre ocultação de corpos na ditadura empresarial-militar. Com a repercussão do filme, a organização do lançamento decidiu solicitar escolta policial para segurança da primeira exibição, realizada no dia 19 de agosto, em Macaé.
“Quando uma obra baseada em investigações oficiais enfrenta tentativas de censura antes mesmo de circular, a questão deixa de ser apenas sobre um filme. É preciso discutir o efeito que isso pode produzir sobre quem pesquisa, documenta e torna públicos episódios sensíveis da nossa história”, afirma Marcelo Fonseca.
O Brasil de Fato enviou pedido de posicionamento para os dois advogados que representam a Companhia Usina Cambahyba na ação e aguarda um retorno. O espaço segue aberto e o texto será atualizado com o outro lado.
Na interpelação judicial à produtora Outrar Produção, os advogados da usina alegam que os fatos retratados no documentário são “fantasiosos e delirantes”. Em 2023, no entanto, o ex-delegado Cláudio Guerra foi condenado pela Justiça Federal de Campos dos Goytacazes após confessar a incineração de cadáveres nos fornos da Cambahyba.
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Marcelo Fonseca reforça que os crimes citados no documentário são amplamente conhecidos e não partem de denúncia isolada. A abordagem é baseada em documentos da Comissão Nacional da Verdade, pesquisas acadêmicas e investigações conduzidas pelo Ministério Público Federal (MPF) que resultaram na condenação de Cláudio Guerra em primeira instância.
“É um processo [contra Claudio Guerra] transitado em julgado, um tema amplamente debatido na academia, em artigos, em livros como Matar e Queimar da Denise Assis, Memórias de uma Guerra Suja de Rogério Medeiros e Marcelo Netto. Então o documentário atualiza essa história para 2026. O tema não surge em 2026, sim do acúmulo de relatos históricos”, diz o documentarista.

Apoio institucional
A partir das preocupações com a medida judicial, foi iniciado um encaminhamento de Marcelo para o Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos, Comunicadores e Ambientalistas. Uma exibição do documentário está prevista no auditório do MPF no Rio de Janeiro no dia 15 de setembro, às 10h.
A obra audiovisual tem parceria institucional com a Universidade Federal Fluminense, por meio do Laboratório de Estudos da Imanência e da Transcendência (LEIT/UFF) e do Laboratório de Estudos das Direitas e dos Autoritarismos (LEDA/UFF).
Conta ainda com o apoio do grupo Filhos e Netos da Ditadura, do Coletivo RJ Memória, Verdade, Justiça e Reparação e do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).
A realização do documentário ocorreu com recursos do Ministério da Cultura e do Governo do Estado do Rio de Janeiro, por meio da Política Nacional Aldir Blanc (Pnab).
