Disputando a memória

Kast aposta no esquecimento e se torna primeiro presidente do Chile a ignorar data de golpe contra Allende

Presidente de extrema direita mantém distância das políticas de memória e se aproxima de heranças do ditador Pinochet

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O presidente do Chile, José Antonio Kast.
O presidente do Chile, José Antonio Kast. | Crédito: Juan Mabromata / AFP

No que depender do presidente do Chile, José Antonio Kast, o país sul-americano deve viver este 11 de setembro, data que marca os 53 anos do golpe militar que assassinou o ex-presidente Salvador Allende, sem qualquer referência ao marco histórico.

Nos últimos dias, a oposição vinha pressionando por algum gesto do governo chileno em relação à data, mas Kast manteve a decisão de não realizar uma cerimônia oficial. É a primeira vez na história da democracia chilena — resgatada em 1990 após 17 anos da sangrenta ditadura de Augusto Pinochet — que o chefe do Executivo não realiza cerimônia em recordação do golpe. O presidente chileno passa o dia na região de Los Ríos, em atividades governamentais. 

“Kast foi eleito apesar de todos conhecerem o seu passado e, de alguma forma, a infelicidade aconteceu justamente na sua eleição. Isso é mais uma consequência do fato de o Chile ter aceitado um líder dessa natureza”, avalia o jornalista chileno Andrés Almeida, historiador e editor-geral da revista Interferência, que conversou com o Brasil de Fato sobre a data. 

Ao longo dos últimos dias, parlamentares como Daniela Serrano, líder do Partido Comunista no Legislativo, alertaram para os riscos da omissão presidencial. “Acreditamos que isso envia uma mensagem terrível do Presidente da República. Essas comemorações representam uma oportunidade crucial para o Estado chileno reafirmar seu compromisso com a busca da verdade, da justiça e com garantias de não repetição”, acusou Serrano.

Enquanto isso, organizações de direitos humanos, sindicatos e grupos estudantis decidiram marchar nas ruas de cidades como Santiago e Antofagasta, o que já vinha sendo feito desde o último final de semana. No último domingo (6), por exemplo, uma caminhada em direção ao Cemitério Central de Santiago, onde está enterrado o corpo de Allende, enfrentou repressão das forças policiais chilenas, conhecidas como carabineros.

Mesmo tendo vivido um processo de transição democrática mais precário do que aqueles feitos por países como Argentina e Uruguai, o Chile não costuma ignorar o 11 de setembro. Ao longo de décadas, mais de 1.500 agentes da ditadura já foram processados por crimes cometidos nos tempos de Pinochet. O próprio ex-ditador chegou a ser preso na Inglaterra, por decisão da Justiça espanhola. Ao retornar ao Chile, Pinochet foi processado, mas acabou falecendo em 2006 sem ter sido condenado.

Ainda no início dos anos 1990, Patricio Aylwin promoveu o sepultamento oficial com honras de Estado a Allende, em um dos primeiros gestos de reconhecimento mais significativos da memória do líder socialista assassinado em pleno Palácio de La Moneda pelas forças golpistas. Michelle Bachelet, que presidiu o Chile em duas oportunidades (2006 a 2010 e 2014 a 2018) e foi vítima dos tempos de chumbo, ampliou a cerimônia, fazendo da data uma oportunidade anual para se cobrar reparação histórica.

Mesmo Sebastián Piñera (2010 a 2014 e 2018 a 2022), de centro-direita, chegou a promover cerimônias na data e exigiu, enquanto presidente, o fortalecimento da democracia chilena. Gabriel Boric, antecessor de Kast, chegou a assinar, em 2023, ao lado de outros ex-presidentes, um documento intitulado “Compromisso pela Democracia”, no Palácio de La Moneda, voltado a preservar e proteger “princípios civilizatórios das ameaças autoritárias, da intolerância e do desprezo pela opinião do outro”. 

Os mortos, desaparecidos e torturados pela ditadura de Pinochet são contados aos milhares. Segundo dados oficiais, cerca de 3,2 mil chilenos foram mortos por agentes do Estado, enquanto quase 40 mil foram torturados e presos por razões políticas. Já os dados de grupos de familiares apontam que o total de mortos, desaparecidos, torturados e presos supera os 100 mil. 

Saudosismo ao estilo Kast

O Chile ilustra bem como um tratamento adequado à questão da memória, verdade e justiça pode impedir o retorno de figuras autoritárias, enquanto, por outro lado, a relativização dos horrores da ditadura traz problemas à consolidação da democracia. Até 1998, oito anos depois do fim da ditadura, o 11 de setembro era tratado no país como um feriado de “celebração” do golpe militar, e não de lamento ou condenação. 

No país latino-americano, a nuance mais sensível está na esfera econômica. Isso acontece porque o Chile ainda mantém boa parte dos pilares econômicos do regime, àquela época uma espécie de ensaio do modelo neoliberal propagado por nomes como Margaret Thatcher (ex-primeira-ministra do Reino Unido) e Ronald Reagan (ex-presidente dos Estados Unidos). A insatisfação generalizada com as desigualdades produzidas pela estrutura econômica iniciada por Pinochet levou ao estallido social de 2019. 

Mesmo com o fim da ditadura, o Chile manteve no horizonte a necessidade de abertura comercial e uma estrutura de rigor fiscal que limitou e segue limitando o desenvolvimento de políticas sociais. Setores como seguridade social, saúde e educação seguem sendo majoritariamente dominados por agentes privados. No campo econômico, a memória não privilegia o período Pinochet. Ao longo de anos, estudos já apontaram para o fato de que o período ditatorial foi marcado pela deterioração de alguns indicadores sociais: o desemprego médio no país era de 14%, entre 1975 e 1981, enquanto a queda salarial foi de 75%, na comparação com o início dos anos 1970. 

O argumento econômico também cai por terra quando se compara os períodos anteriores e posteriores à passagem de Pinochet pelo Palácio De la Moneda. Segundo um levantamento do Maddison Project Database, os anos da ditadura registraram um crescimento médio do PIB per capita de 1,74% ao ano. Nos dezesseis anos anteriores ao ditador, entre 1957 e 1972, o crescimento médio, porém, foi de 2% ao ano. Nos dezesseis anos seguintes (ou seja, entre 1991 e 2006), o crescimento foi de 4,3% ao ano. 

Carlos Alberto Almeida, jornalista fundador da Telesur, destaca que o neoliberalismo inaugurado na ditadura chilena deixou marcas tão profundas na sociedade do país que, “mesmo quando a esquerda volta ao governo, ainda assim, acaba padecendo de certa intimidação”. “Não há saída para o Chile dentro do neoliberalismo. Só vai agravar a crise social cada vez mais”, explica, em conversa com o Brasil de Fato.

Para Kast, a história não se conta bem assim. Antes mesmo de assumir o poder, no início de 2025, foi ele o responsável por nomear dois personagens próximos ao ex-ditador: Fernando Rabat, que assumiu o Ministério da Justiça e Direitos Humanos, e Fernando Barros, que passou a responder pelo Ministério da Defesa. Rabat integrou a equipe jurídica que defendeu Pinochet das acusações de encobrir o desaparecimento de 119 opositores, na conhecida “Operação Colombo”; enquanto Barros foi porta-voz e advogado pessoal do ex-ditador enquanto Pinochet esteve preso em Londres, entre 1998 e 2000.

A teia de ligações entre Kast e Pinochet é longa. Durante o plebiscito que serviu para decidir pela continuidade ou não do regime, em 1988, Kast foi um dos nomes a fazer campanha pela continuidade de Pinochet. O irmão do atual presidente, Miguel Kast, chegou a ser ministro e presidente do Banco Central chileno durante os tempos de autoritarismo. Enquanto isso, o pai do mandatário, Michael Kast, alemão que deixou o país de origem para tentar a vida no Chile, foi filiado ao partido nazista no início dos anos 1940, auge do poder de Hitler na Alemanha. José Antonio Kast, porém, diz que o pai teria sido recrutado à força pelo Exército alemão durante a Segunda Guerra Mundial e nega que Michael fosse partidário do nazismo.

O delicado lugar da oposição

Estimulados pela chegada de Kast ao poder, parlamentares chilenos do Partido Nacional Libertário apresentaram um projeto de lei que pode criar um “Museu da Verdade” no país, contrariando o Museu da Memória e dos Direitos Humanos, em Santiago. A sigla, capitaneada pelo deputado Johannes Kaiser, de extrema direita, argumenta que a iniciativa pretende resgatar a memória de opositores ao governo da Unidade Popular, a coalizão que governava o Chile antes do golpe de 1973. Para os entusiastas do projeto, o período Allende teria sido marcado por forte instabilidade política e econômica, e a memória oficial sobre os eventos políticos do início da década de 1970 estaria incompleta. 

A ascensão de Kast ao poder e a omissão a respeito deste 11 de setembro poderiam criar o caldo para que a oposição conseguisse acirrar seu discurso de rechaço ao atual quadro do poder no Chile. Mas o campo progressista do Chile ainda cambaleia pelo resultado eleitoral do ano passado. Segundo Andrés Almeida, “não é possível explicar Kast e tudo o que está acontecendo sem considerar a debilidade da oposição chilena, da esquerda e do governo Gabriel Boric, que, de alguma forma, permitiram a eleição de Kast”.

“Hoje, a esquerda chilena está profundamente dividida em torno de dois eixos. Um deles busca a superação do neoliberalismo; o outro está muito confortável com ele”, resume. “A postura de Kast em relação ao 11 de setembro permite à esquerda cerrar fileiras, mas é uma posição muito mais de retaguarda”, pondera. 

Impulsionado por setores saudosos do autoritarismo, Kast crê que agora é o momento para lançar mão de ideias pouco democráticas para lidar com o crime organizado. Recentemente, o mandatário enviou ao Congresso uma megarreforma no campo da segurança, que pretende criar um estado de exceção duradouro, dispensando a autorização do Congresso. A iniciativa enfrenta resistência até por parte de alas do próprio governo. 

“A cada certo período, surge no Chile uma demanda popular por autoritarismo. No caso de Kast, isso é provocado pela comoção causada pelo avanço do crime organizado, que é uma questão real. O país reage, de alguma maneira, com uma espécie de impulso ou reflexo autoritário diante do que considera uma ameaça, que é o crime organizado. O crime organizado está fornecendo ao Chile o elemento de contexto que ativa esse gene autoritário. A direita conseguiu transformar a questão da segurança em uma prioridade nacional e, além disso, transformar a segurança em uma agenda autoritária. Só que as duas coisas não são a mesma coisa”, reflete Andrés Almeida.

Para o jornalista chileno, Kast estaria “apresentando basicamente uma ditadura legal”. O que garantiria ao governo a chance de, “em vez de perseguir narcotraficantes, acabar perseguindo adversários políticos”. O especialista, porém, faz uma ressalva. “O país também possui certa racionalidade. Assim como tem um gene autoritário, possui também aspectos que o limitam e que estiveram presentes desde os primeiros momentos da história do Chile. Há uma direita liberal que também teme o autoritarismo por uma razão muito simples: se hoje o presidente Kast pode adotar medidas ditatoriais dentro da lógica de uma ditadura legal, nada garante que amanhã não exista um governo extremamente radical de esquerda que faça a mesma coisa e que esses impulsos acabem prejudicando os setores de direita”, analisa.

Sobre o tema, Carlos Alberto Almeida define a plataforma de segurança do governo chileno como “política de terror”. “É uma política de intimidar a sociedade e os manifestantes, de repressão contra os estudantes, contra a juventude, e ainda há uma aliança a explorar com o Donald Trump”, contextualiza. Olhando para frente, o horizonte parece tortuoso, mas a correlação de forças é sempre dinâmica. “Há decepção, mas a História vai se recuperando e se nutrindo. Porque, mesmo diante das decepções, a História não pode parar.”

Editado por: Gia Matheus Almeida

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