Christine Zonzon*
De todas as violências sexistas que vivi, presenciei ou cujos relatos me chegaram na capoeira, o caso do feminicídio cometido por um famoso mestre de capoeira baiano foi o mais marcante. Depois desse crime hediondo praticado por uma grande referência entre os capoeiristas, tornou-se insustentável para mim o convívio com a dita “comunidade”, composta de grupos hierarquizados, organizados em torno de um (ou vários) mestres que ditam os comportamentos de seus discípulos. O mestre é exemplo, é autoridade, é sabedoria. Dizem que devemos respeitá-los porque perpetuam uma prática ancestral de resistência à opressão.
No dia de Natal de 2011, esse “heroi” da capoeiragem baiana, deu falta de R$ 150 deixados em casa, “pegou um galão de gasolina de dentro de um carro e depois usou fósforos para incendiar a vítima” sua esposa que faleceu por consequência das queimaduras em 70% do seu corpo, dois dias depois.
A notícia saiu nos jornais: disseram que o assassino era foragido, disseram que foi preso em flagrante no outro dia, disseram que foi solto em seguida.
Algumas semanas depois, chegou o dia de Iemanjá, a grande festa da cidade de Salvador que conta entre suas celebrações com a realização de rodas de capoeira nas imediações da Casa dos pescadores de onde saem os barcos com oferendas para a rainha do mar. Aqui estou eu, participando de uma dessas rodas tradicionais e festivas. O evento anual, a roda de capoeira do 2 de fevereiro, no Rio Vermelho em Salvador, atrai centenas de capoeiristas e entre eles muitos mestres convidados. Durante horas, sucedem-se os jogos de capoeira, a vadiagem, debaixo de um sol escaldante, as cervejas e por fim, o samba.
É nesse cenário que surgiu o Mestre, que chamaremos aqui de K, já que a justiça gosta de perseguir quem “dá nome aos bois” em vez de punir os feminicidas, no dia 2 de fevereiro de 2012. Houve uns poucos segundos de suspensão do tempo, talvez? Ou essa sensação teria sido somente minha? O impacto da chegada desse homem imponente, feições duras, com seus braços marcados ainda pelas queimaduras do fogo que lhe atingiu enquanto matava a mulher, em meio a uma celebração do sagrado, me pareceu uma cena surreal. Mais inacreditável ainda, foi celebrado, recebendo abraços, apertos de mão daqueles que ratificam a identificação entre pares, de homem para homem, de Mestre para Mestre. Jogou com todos eles, os representantes da capoeira na Bahia, usando da sua autoridade para chamá-los um a um no pé do berimbau.
Saí da roda transtornada. Sozinha. A “comunidade da capoeira” seguindo sua festa. Pouco depois desse evento, questionei meu mestre sobre a cumplicidade ou a naturalização da violência em nosso convívio entre capoeiristas. A resposta que recebi foi violenta e explícita : K representa a história da capoeira, suas origens em meio à marginalidade e por isso é um legítimo detentor da tradição. Por fim, concluiu: se você não quer conviver com assassino, você não tem lugar na capoeira.
Essa cena de exclusão inesquecível e avassaladora está inscrita na minha memória junto com as imagens da roda evocada acima. Dela faz o relato no filme documentário Mulheres da pá virada: histórias e trajetórias na capoeira (2019).
Passaram-se quase 14 anos. O criminoso que matou a mulher num dia de Natal e fez o seu grande retorno ´público sob ovações no dia de Iemanjá, o grande Mestre da Bahia passou um único dia preso. O que vale a vida de uma mulher negra?
Passaram-se quase 14 anos, soube que houve movimentação no processo (Processo: AÇÃO PENAL DE COMPETÊNCIA DO JÚRI n. 0313944-61.2012.8.05.0001) e que o caso vai finalmente ser julgado por júri popular por homicídio qualificado – não há tipificação como feminicídio, visto que a lei que estabelece o crime de feminicídio, Lei nº 13.104/2015, entrou em vigor em 9 de março de 2015 .
Passaram-se 14 anos. Em 2015, o assassino recebeu o Prêmio Berimbau de Ouro, premiação que destaca capoeiristas pela sua relevância na valorização da capoeira e proclama os “valores civilizatórios” dessa arte. Para escrever esse texto, visitei recentemente as redes sociais do criminoso. Vídeos celebrando o seu aniversário com homenagens e votos de felicidade e sucesso; vídeos de rodas de capoeira em que aparece jogando com outros grandes mestres da Bahia ou alhures, comentários de homens que reafirmam sua fidelidade e admiração a um homem que queimou a mulher no dia de Natal.
Ao longo desses 14 anos, ficamos sabendo de muitos outros crimes vitimando mulheres e menores, cometidos por mestres e professores de capoeira. Estupros, agressões sexuais, violência física, violência doméstica, ameaças, assédios…Alguns poucos casos chegam a ser denunciados à polícia e a gerar processos na Justiça, notadamente quando as vítimas são menores e em número suficiente para que seus relatos tenham alguma chance de serem acreditados. Esses e outros casos, embora midiatizados, não resultaram em exclusão dos criminosos da comunidade, não suscitaram movimento amplo de apoio às vítimas, nem mesmo reflexão coletiva que almeje impedir a repetição dessas violências em nosso meio.
Na comunidade da capoeira, o assunto é tabu. Quem ousa questionar a cumplicidade explícita ou tácita dos líderes é deslegitimado, excluído ou até mesmo perseguido. O caso do feminicídio, aqui relatado, é simbólico – como já o é o próprio nome do seu autor, remetendo à uma virilidade animalesca – e deve nos levar a refletir sobre a cultura da violência machista que atravessa a capoeira.
A naturalização da violência é facilitada pela impunidade em suas diversas formas (por ausência de denúncia formal, por absolvição dos criminosos, por falta de aplicação da pena, ou pela demora em julgar como é o caso em pauta). Mas temos também que fazer a nossa parte, enquanto “comunidade” e reconstruir nossas práticas e modos de convivência em acordo com os valores que tornaram a capoeira uma luta de libertação de grupos oprimidos no contexto da dominação colonial.
As mulheres, as pessoas vulneráveis, as crianças, e entre elas sobretudo aquelas que já sofrem outras violências estruturais de raça e de classe, não podem mais ser sacrificadas no altar do patriarcado erigido na capoeira em nome de uma suposta tradição histórica que legitima masculinidades violentas.
Que a justiça seja feita com o processo de K. Que essa sentença ecoe e abale a cultura patriarcal e viril em que se ancora a dominação masculina com seu repertório de violências naturalizadas e sua dinâmica de omissão e cumplicidade. Chega de hipocrisia! Se a capoeira se afirma como instrumento de libertação, educação e luta contra a violência e a discriminação, que seja para todos, todas e todes!
Mais conteúdos sobre denúncias de violências de gênero na capoeira: https://mariasfelipas.wordpress.com
*Christine Zonzon é capoeirista, antropóloga e tradutora. Desenvolve pesquisas sobre as relações de gênero na capoeira, sendo autora de livros e artigos sobre o tema. É co-criadora do Grupo de estudos e intervenção feministas na capoeira Marias Felipas e co-diretora do filme documentário Mulheres da pá virada: histórias e trajetórias na capoeira.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

