No último domingo (31), mais de 2,6 mil pessoas se reuniram para lançar nossa pré-candidatura a deputado federal. Era gente da quebrada, da escola pública, do posto de saúde e do movimento social. Gente que não foi assistir, foi fazer parte. Saí daquele encontro com duas convicções. A primeira é que existe fome por uma candidatura disposta a entrar nas grandes batalhas do Congresso, na melhor tradição que o Psol construiu ao longo dos anos. A segunda é que essa eleição vai ser difícil. Trato das duas aqui, sem maquiar nenhuma.
Coloco meu nome à disposição para disputar a Câmara porque o Congresso virou o contrário do que deveria ser. Nasceu para ser o coração da democracia e se transformou, em boa parte, em fortaleza de quem já tem tudo. Hoje há ali uma maioria que trata o direito do povo como gasto, enxerga a desigualdade como destino e não como escândalo, e usa contra o próprio povo o mandato que dele recebeu. É um Congresso que trava o que interessa à maioria e acelera o que interessa a poucos. Reconquistar essas cadeiras e devolvê-las a quem constrói o país todo dia é o sentido da nossa campanha. É o que resumimos em três palavras: pra cima deles.
Não é segredo como essa engrenagem funciona. Cada vez mais, o poder real fica com quem controla o orçamento por dentro, na base da emenda e da negociação de bastidor, enquanto saúde, educação e moradia esperam na fila. Quando uma pauta de direitos avança, surge logo a manobra para esvaziá-la. Quando se trata de proteger privilégio, há maioria sobrando e votação rápida. É um Parlamento que aprendeu a transformar a vida do povo em moeda de troca. Não me apresento para administrar isso, me apresento para enfrentar.
Faço essa escolha sabendo o que ela cobra. Estou deixando o mandato distrital em que fui mais votado para disputar um terreno mais hostil, porque é no Congresso que hoje se decidem algumas das questões que mais pesam na vida do DF e do país.
É lá que se define se haverá ou não corte de direitos, quanto vai sobrar para o SUS e para a escola pública, se a Terra Indígena será demarcada ou entregue. E é lá que a extrema direita se entrincheirou, disposta a usar o Parlamento para inviabilizar qualquer avanço popular. Quem quer mudar essas decisões precisa estar onde elas são tomadas.
É aqui que essa eleição mostra o que está em jogo. O país elegeu o governo Lula para defender direitos e cuidar de quem mais precisa, mas presidente nenhum governa sozinho: cada vez mais é no Congresso que essa agenda vira lei e orçamento, ou morre na gaveta. Um governo que quer reduzir a desigualdade esbarra todo dia numa maioria parlamentar que trabalha para sabotar exatamente isso. Sem deputados dispostos a fazer a luta política com garra, que defendam o que é do povo no voto, no microfone e na mobilização, essa agenda fica cada vez mais difícil de cumprir. Um mandato de luta é isto: pôr no Parlamento a força que falta para o Brasil escolhido nas urnas avançar de verdade, em vez de ocupar mais uma cadeira.
Não falo de fora dessa briga. Sou assistente social de formação, servidor do sistema socioeducativo e militante de direitos humanos. Fui eleito e reeleito o deputado distrital mais votado da história do Distrito Federal porque parte da cidade decidiu transformar indignação em mandato. Aprendi no caminho que nenhuma conquista popular caiu do céu: cada uma custou organização, escuta e enfrentamento de quem se protege atrás de gabinete e carimbo.
Esse método já deu resultado, e dá para mostrar onde. Na CPI do Feminicídio, ajudamos a transformar dor em política de proteção às mulheres. Na Comissão da Vacina, enfrentamos o negacionismo num momento em que isso salvava vidas. Na CPI do 8 de Janeiro, cobramos a responsabilização de golpistas. Na presidência da Comissão de Direitos Humanos, construímos resposta coletiva diante da violência. É essa experiência que quero levar para a Câmara e ampliar.
Levo com ela uma agenda concreta. Colocar crianças e adolescentes no centro das decisões. Proteger as mulheres de todas as formas de violência. Afirmar a dignidade da população negra e o respeito pleno às pessoas LGBTQIA+. Demarcar terras indígenas. Defender quem trabalha e sustenta o país, um SUS forte, uma educação que liberta e uma mobilidade que aproxime as regiões do DF. Garantir serviço público que funcione para todos e tecnologia que sirva à maioria, não a uns poucos. Enfrentar a crise climática sabendo que não há justiça ambiental sem justiça social. E aprovar leis que ampliem direitos, em vez de retirá-los. Na Câmara Federal quero fazer muito mais.
Agora, a parte difícil. O Psol ainda é um partido pequeno, e nossa nominata para deputado federal tem poucos nomes capazes de puxar, sozinhos, os milhares de votos que a disputa exige. Há quem se eleja deputado federal com 40, 50 mil votos, porque chega amparado por uma legenda grande, que soma a votação de muitos candidatos. Comigo é diferente. Para me eleger, vou precisar de algo perto de 200 mil votos. É muito? É. Não vou fingir que seja fácil.
Mas reparem no que esse número significa. São 200 mil votos que não se compram, não vêm de máquina e não caem no colo de ninguém. Cada um terá que ser conquistado no diálogo, na convicção e no trabalho de quem acredita. Um mandato construído assim chega no Congresso com a legitimidade de quem deve favor a uma só gente: o povo que o elegeu. Será tudo ou nada. É esse tipo de deputado que falta no Congresso, e é por isso que vale a pena encarar o caminho mais trabalhoso.
Foi o que vi no domingo. Quando 2,6 mil pessoas se mobilizaram por conta própria, fica claro que a esperança, quando se organiza, vira maioria. E quando a maioria se levanta, vira lei, vira orçamento, vira transformação na vida real. Ainda faltam votos? Faltam. Mas não falta gente disposta a fazer uma campanha histórica, militante, pela base. E o povo organizado foi o que sempre virou o jogo nos capítulos mais duros da nossa história.
Por isso este texto é também um convite. Que cada escola, cada quadra, cada conjunto, cada posto de saúde e cada quebrada do DF reconheça a própria força para ocupar a política. Vamos juntos, com o pé na porta, abrir o Congresso e devolvê-lo a quem nunca deixou de merecê-lo.
Pra cima deles, com respeito à democracia e com a certeza de que a nossa hora chegou.
*Fábio Felix é deputado distrital do DF, presidente da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos, Cidadania e Legislação Participativa da Câmara Legislativa do DF (CLDF), assistente social, professor e ativista LGBTQIA+.
**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato – DF.
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