Inteligência Coletiva do Sul

A Coluna Inteligência Coletiva do Sul sistematiza reflexões e experiências que movimentos populares, governos socialistas e intelectuais orgânicos do Sul Global desenvolvem em torno de novas qualidades das forças produtivas na dimensão digital, em perspectiva soberana e emancipatória. Coluna editada por Tica Moreno.

Bandung Digital: Por que a África deve assumir o controle do seu futuro digital

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"É uma lógica perversa: usar nossa vulnerabilidade, necessidade de pertencimento e de conexão para fins de lucro”, critica especialista em tecnologia e sociedade Paula Martini
“É uma lógica perversa: usar nossa vulnerabilidade, necessidade de pertencimento e de conexão para fins de lucro”, critica especialista em tecnologia e sociedade Paula Martini | Crédito: AFP

As gerações anteriores na África lutaram pela independência política. Esta geração enfrenta o desafio da independência digital.

Um novo padrão está remodelando a política digital global, e as nações africanas precisam estar atentas. Está em curso uma estratégia de acordos comerciais na qual os EUA criam regras que concedem às suas empresas de tecnologia amplo acesso aos dados de outras nações. O recente acordo entre EUA e Malásia estabelece que a Malásia deve “garantir a transferência transfronteiriça de dados por meios eletrônicos através de fronteiras confiáveis” e proíbe “impostos sobre serviços digitais… que discriminem empresas estadunidenses”. Essas cláusulas estabelecem uma estrutura legal que coloca as corporações dos EUA no centro da economia digital da Malásia e impõe limites significativos ao controle nacional.

Este arranjo reflete um modelo emergente do imperialismo para o Sul Global. Ele opera por meio de legislação, infraestrutura e fluxos digitais. A abordagem utiliza mecanismos legais e técnicos para determinar quem controla os dados e quem se beneficia deles. O comércio digital agora serve como o principal ponto de entrada para sistemas de inteligência artificial (IA) que dependem do acesso contínuo a dados, armazenamento e capacidade computacional. A concepção desses acordos influencia todos os aspectos de como a IA irá operar em nossas sociedades.

A inteligência artificial se expande por meio de dados, serviços em nuvem e poder computacional. Empresas estrangeiras gerenciam atualmente a maior parte desses sistemas, e essa concentração molda o futuro econômico e político do Sul Global.

Osagyefo Dr. Kwame Nkrumah, o primeiro líder da República de Gana, explicou em “Neocolonialismo: O Último Estágio do Imperialismo” que a independência formal oferece pouca proteção quando atores externos dirigem as principais estruturas econômicas de uma nação. Sua percepção se aplica à era digital. As nações africanas possuem constituições e marcos legais, mas empresas estrangeiras ainda determinam a arquitetura das redes, plataformas e algoritmos que organizam a vida cotidiana. O ambiente digital funciona como um território com fronteiras, nós e centros de controle, e os detentores dessa infraestrutura moldam sua governança.

É necessária uma resposta coordenada. Este esforço de elaboração é inspirado pelo Fórum Acadêmico do Sul Global (GSAF) 2025, recentemente concluído em Xangai, na China, e constitui a base do que denomino Bandung Digital do século 21. A Conferência de Bandung original, de 1955, reuniu líderes da África, Ásia e América Latina para confrontar a dominação e remodelar as relações de poder globais. Uma Bandung Digital amplia essa missão histórica para um mundo organizado por meio de centros de dados, serviços em nuvem e inteligência artificial. Ela cria um espaço para que os países do Sul Global estabeleçam padrões compartilhados, negociem coletivamente e desenvolvam capacidades digitais regionais.

A urgência dessa tarefa é visível na República Democrática do Congo. O Congo fornece uma grande parte do cobalto mundial, um mineral essencial para veículos elétricos, centros de dados e computação avançada. Comunidades no Congo sofrem com a destruição ambiental, privação econômica e insegurança prolongada. A economia digital global depende de recursos congoleses, e as famílias congolesas continuam a enfrentar a instabilidade associada a essa demanda.

A extração mineral molda uma parte da paisagem digital, e a extração de dados molda outra. Os povos africanos geram atividade digital por meio da linguagem, da cultura e da vida cotidiana. Essa atividade treina sistemas de IA que criam valor comercial em outros lugares. A estrutura se assemelha a arranjos extrativistas anteriores, nos quais os insumos se originam na África, enquanto os retornos financeiros se acumulam fora do continente.

Mas o Sul Global possui muitos pontos fortes. A África detém minerais críticos, uma população jovem e uma crescente comunidade de pesquisadores. A comunidade de Processamento de Linguagem Natural (PLN) de Gana produz tecnologias de linguagem de alta qualidade, adequadas às necessidades locais. A iniciativa Beyond AI, em Gana, inclui o povo em debates nacionais sobre tecnologia, governança e legislação. Esses exemplos demonstram como a inovação impulsionada pela comunidade pode moldar o futuro da IA.

Com o crescente interesse global em talentos africanos, novos programas exigem uma análise cuidadosa. O lançamento da primeira academia de IA africana da OpenAI, na Universidade de Lagos, na Nigéria, gerou entusiasmo público, mas também levanta questões e riscos consideráveis. Em Gana, o Ministro das Comunicações e Digitalização promoveu recentemente o aplicativo Gemini do Google em sua conta oficial nas redes sociais. O anúncio não descreveu a política de dados, as proteções oferecidas aos participantes ou os procedimentos que regem o armazenamento, o acesso ou a transferência de dados dos usuários.

Em ambos os casos, o público carece de informações sobre como os dados desses aplicativos contribuem para o desenvolvimento de sistemas de IA estrangeiros ou como o valor retorna às comunidades nigerianas e ganesas. Pesquisas independentes mostram que muitas empresas de IA retêm grandes quantidades de dados e metadados de usuários sem documentação pública clara. Estruturas de governança de dados frágeis aumentam o risco de exposição e permitem a extração em larga escala de atividades digitais.

Os projetos de código aberto oferecem um caminho alternativo. Modelos como DeepSeek e Qwen, juntamente com os modelos abertos recentemente lançados pela OpenAI, criam oportunidades para adaptação e experimentação. Os pesquisadores podem construir ferramentas que reflitam as línguas africanas e o conhecimento cultural. Esse trabalho ganha significado quando apoiado por instituições fortes, envolvimento da comunidade e investimento público.

Uma abordagem regional potencializa esses esforços. Os países individualmente enfrentam limitações ao negociar com empresas transnacionais de tecnologia. A ação coletiva por meio de instituições africanas ou alianças do Sul Global fortalece o poder de negociação e apoia a criação de normas digitais compartilhadas.

As falhas recentes na infraestrutura africana revelam a escala da vulnerabilidade a que estamos submetidos. Em março de 2024, a interrupção de um cabo submarino deixou milhões de pessoas na África Ocidental sem internet. Isso deixou evidente como a África não tem autoridade sobre os sistemas que sustentam sua vida digital. Posteriormente, em outubro de 2025, uma grande interrupção nos serviços da Amazon Web Services afetou importantes plataformas, sistemas de pagamento e serviços hospedados na nuvem em diversas regiões. Usuários africanos sofreram atrasos, falhas e interrupções de serviço porque aplicativos críticos dependem de infraestrutura controlada pela Amazon, fora do continente. Esses incidentes mostram como um único ponto de falha em sistemas de propriedade estrangeira pode desestabilizar economias inteiras.

Um plano de longo prazo para a soberania digital exige diversos compromissos. A África precisa de centros regionais de dados, infraestrutura de nuvem distribuída e conectividade resiliente sob controle africano. A legislação nacional deve emergir da experiência africana e da consulta às comunidades. Os dados devem ser reconhecidos como um recurso nacional que exige supervisão pública. Os fluxos de recursos devem ser transparentes e a riqueza mineral deve contribuir para o bem-estar das comunidades congolesas. A colaboração com os parceiros do Brics e as redes Sul-Sul pode fortalecer as bases científicas dos sistemas de IA desenvolvidos na África.

A soberania digital molda as oportunidades econômicas, a administração pública e a memória coletiva. Ela determina como as decisões são tomadas e como as comunidades participam da mudança tecnológica.

As gerações anteriores na África lutaram pela independência política. Esta geração enfrenta o desafio da independência digital. Cabos submarinos seguem rotas já estabelecidas. Os dados trafegam por sistemas construídos e gerenciados em outros lugares. Os minerais do Congo continuam a sustentar a infraestrutura de nações poderosas.

O Sul Global pode moldar um futuro diferente por meio da coordenação, de padrões compartilhados e de investimentos estratégicos. Uma Bandung Digital oferece um caminho para alcançar esse objetivo.

Chegou a hora de reivindicarmos nossos minerais, nossos dados, nossas infraestruturas e nosso destino coletivo.

*Kambale Musavuli é analista do Centro de Pesquisa sobre o Congo-Kinshasa, estrategista panafricano de tecnologia e políticas públicas e fundador da Aether Strategies. 

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Luís Indriunas

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