A humanidade tem plena consciência que estamos vivemos uma mudança de era. Os modelos que organizavam o pensamento das últimas gerações não dão conta de explicar as transformações que estão ocorrendo em todas as dimensões da vida. Cientistas caracterizam esse período como uma nova era geológica: o Antropoceno, era em que a humanidade passou a ser considerada a principal força da natureza a impactar os ecossistemas e o equilíbrio climático. A ideia não é consenso científico, mas faz todo sentido.
Certo, é que vivemos tempos de mudanças profundas que impactam as bases de funcionamento das sociedades como as conhecíamos. Segundo nosso camarada e amigo Márcio Pochmann, a revolução tecnológica mudou o conceito e o modo de funcionamento do capitalismo. As tecnologias digitais alteraram os principais processos produtivos, robotizaram as fábricas e a agricultura e os algoritmos passaram a mediar a produção, circulação e o consumo. A mais-valia continua, mas de forma completamente difusa e em todos os momentos deste ciclo econômico. O capital digital financeiro dá as cartas, sem qualquer lastro na real. O resultado é um novo capitalismo neocolonialista digital, onde o poder não está mais concentrado em países e seus governos, mas num número reduzidíssimo de big techs que monitoram e monetizam o que produzimos, consumismos e sentimos.
A contradição é que a mesma tecnologia que proporciona produção em massa, ganhos em escala, redução de custos e aumento de produtividade, exclui a maioria da população mundial. Os avanços tecnológicos não representaram redução de horas trabalhadas, aumento de salários ou atendimento das necessidades básicas da maioria das populações. O capitalismo é uma sociedade para poucos. Para se ter uma ideia, em 2024, a produção de alimentos em escala global foi suficiente para alimentar mais de 11 bilhões de pessoas. Segundo Índice Global da Fome (IGF) medido pela FAO/ONU, neste mesmo ano, mais de 500 milhões de pessoas na Ásia, 300 milhões na África e 100 milhões na América, viveram em situação de insegurança alimentar severa, submetidos a desnutrição e a morte. Nunca se produziu tanto em tão pouco tempo. Mas a produção acelerada pressiona cada vez mais os biomas já ameaçados, numa escalada insana para o colapso climático que afeta as camadas sociais mais pobres e periféricos. As mudanças não são lineares, afetam a forma de viver, de se relacionar, se comunicar, as crenças na ciência e o próprio sentido da fé e da espiritualidade. Vivemos um período de ampla transição que coloca em xeque padrões civilizatórios e a própria sobrevivência da democracia. As crises econômicas, sociais, políticas e ambientais são profundas, sistêmicas e interligadas. E mudam a percepção das pessoas sobre o mundo em que vivem. Como nos alerta Frei Betto, a era da razão desconectada da ética e de valores humanos, produziu uma sociedade do lucro, excludente e insustentável. O futuro é incerto e a angústia domina corações e mentes em todo planeta. É um terreno fértil para projetos fascistas, autoritários e excludentes.
As utopias é que movem o mundo. Como afirmamos desde 2001 na primeira edição do Fórum Social Mundial em Porto Alegre, um outro mundo é possível. A história é feita pela vontade coletiva das pessoas. Ela não é inexorável, destino ou imposição divina. O capitalismo foi inventado. E, portanto, pode ser desinventado. E, como sabemos, não há saídas para a humanidade no sistema capitalista. Isso não é um desejo de vontade, opinião ou posicionamento. É uma imposição da realidade. A maioria da humanidade sobrevive em condições de pobreza, fome, sub habitações, longas jornadas de trabalho, violência, enchentes, secas e inundações, tudo resultado da acumulação de capital e das desigualdades. Quem melhor traduz os limites do sistema capitalista é Edward Abbey, ambientalista norte-americano quando afirma que um sistema que necessita de crescimento infinito num planeta finito assemelha-se ao comportamento das células cancerígenas que destroem o corpo em que habitam. O capitalismo está nos levando a extinção. Por isso, é preciso denunciá-lo.
Mais que isso, é preciso defender nossa visão de mundo. Não se segue lideranças que não acreditamno que defendem. Neste sentido, o campo progressista tem tido uma postura omissa na defesa dos valores e princípios nos quais realmente acredita. E não há motivos para isso. A classe trabalhadora já demonstrou sua capacidade de luta, resistência e de construção do novo. Se estamos aqui é porque nossos ancestrais venceram as adversidades e sobreviveram. Os povos originários, com sua cosmovisão integrada com a natureza, habitam esse território há mais de 4 mil anos. O povo africano, berço da civilização humana, desenvolveu saberes e tecnologias e, frente a mais de 380 anos de escravização, construíram estratégias de resistência e de afirmação que perduram por séculos. Diariamente, são as mãos das trabalhadoras e trabalhadores do campo e da cidade é que sustentam a vida.
É preciso ter fé no mundo novo. A sociedade pós capitalista já está sendo gerada. Basta compreender as mudanças para além dos seus efeitos. A mesma revolução tecnologia que nos oprime, tem a capacidade de criar um mundo para todos e todas, atendendo as necessidades da humanidade com menos trabalho humano e com preservação ambiental. Nunca em outra fase da história humana o sentimento de pequena casa comum foi tão presente. Há uma interconexão e uma interdependência direta entre os seres humanos. Intermediado, novamente, pela tecnologia da comunicação, é possível permanecer conectado instantaneamente em escala global. Essa possibilidade cria uma sensação de pertencimento nova, alimentando a ideia de cidadania universal. Não há determinismo histórico; não há saídas individuais; as soluções são coletivas. Uma verdade segue sendo inevitável: os seres humanos seguem possuindo a capacidade de reinterpretar e de transformar a realidade. As mudanças estão estampadas em nossa cara.
Dialeticamente, a própria polarização ideológica e o embate cultural que nega, também afirma valores. Em todo embate, os polos se fortaleceram. Isso significa que, se por um lado a extrema-direita ampliou e consolidou sua posição, o campo progressista também ganhou corações e mentes. Neste momento histórico não há espaço para neutralidade. Mas podemos e devemos melhorar a disputa simbólica de projeto de sociedade. Enquanto a extrema direita apresenta seus valores e princípios de forma clara e efetiva, o campo progressista tem se apresentado de forma difusa, defensiva e pouco convicta. E a política é o lugar do simbólico. Na hora da decisão, quem manda na mente é o coração.
É preciso reconhecer que o outro mundo possível já existe. As alternativas estão sendo praticadas em nossos territórios. Esse outro mundo é representado pelo Sistema Único de Saúde (SUS), o maior programa de saúde universal e gratuito do mundo, pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o principal produtor de arroz orgânico da América Latina, pelo movimento dos pequenos agricultores rurais e urbanos, pelas práticas verdadeiras de economia popular e solidária, pelas hortas, quintais e lavanderias comunitárias, pelas redes de cooperativas de reciclagem de resíduos, pelas alternativas de produção em larga escala de energia renovável, pelas práticas de preservação da cultura e da segurança alimentar, religiosa e de cuidado dos quilombos, pela preservação da cosmovisão dos povos indígenas e sua relação integrada com a mãe natureza, pelas práticas de educação popular, pela educação inclusiva, pela linguagem não violenta, pelas iniciativas antirracistas e antipatriarcais sendo defendidas, desenvolvidas e praticadas em milhares de experiências, pelo desenvolvimento de energias alternativas sustentáveis de baixa escala, pela comunicação democrática, colaborativa, comunitária e inclusiva, pela economia da cultura popular, circular, de base comunitária, pela atuação de milhares de organizações da sociedade civil em cada território, comunidade ou luta de defesa de seus direitos, pela criação e fortalecimento de movimentos sociais de massa, com real e efetivo enraizamento e organização nas suas bases, com elevado espírito público e cidadão. São tantos exemplos e situações que precisamos de um outro artigo para aprofundar o debate. Mas, sem dúvida, para cada problema criado pelo capitalismo, a classe trabalhadora tem mais de uma solução. A saída é, a partir das nossas práxis, termos a capacidade de colocarmos nossas utopias em movimento, confiantes de que seremos capazes de promover uma transição pós-capitalista, urgente e necessária. Boa luta.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

