Tenho enorme dificuldade de escrever sobre o mal e a maldade. Escrever é um ato político e, para mim, a política é como define Aristóteles[1], uma atividade essencial para a organização da sociedade humana, que existe para facilitar a realização de uma vida justa e plena para todas as pessoas. Neste mesmo sentido me alinho a “Teoria da Justiça”[2] de John Rawls que propõe que as organizações humanas devem ser pensadas e geridas de maneira a garantir que as liberdades e os direitos de todos sejam respeitados, promovendo distribuição equitativa de bens e oportunidades. Hannah Arendt[3] complementa esse pensamento, afirmando que a ação política é um espaço de construção coletiva, onde a pluralidade das vozes é essencial para o fortalecimento do espírito e da uma dinâmica democrática nas sociedades.
Mas nesses tempos em que vivemos, é difícil não reconhecer que o mal está à espreita através da necropolítica. Este conceito, definido pelo filósofo camaronês Achille Mbembe[4], refere-se ao uso do poder e do Estado para, através da violência estrutural e de práticas governamentais, marginalizar, subjugar, promover sofrimento, dor e a morte da própria sociedade. Neste modelo de governo, o Estado não só falha em proteger, mas usa a morte como instrumento de controle e de gestão das coisas públicas para a manutenção e privilégios e aferição de lucro. Segundo Mbembe, essa foi a lógica que orientou as políticas dos estados coloniais europeus para o extermínio e a escravização de milhões de seres humanos dos povos ameríndios e africanos. Uma concepção que aceita que há vidas humanas descartáveis, corpos “matáveis”, sujeitos à violência direcionada a grupos por sua etnia, classe social ou território.
No recém-lançado Anatomia do Caos[5], da diretoria Dandara Ferreira, é possível reconhecer no (des)governo Bolsonaro a prática da necropolítica na gestão do enfrentamento a pandemia de covid 19. Desde o início, Bolsonaro e seus seguidores se recusaram a adotar a ciência como guia para a elaboração de medidas sanitárias necessárias. As orientações da OMS foram sistematicamente ignoradas, não apenas pela negligência diante dos riscos para vida humana, mas como um arranjo consciente que levaria a um desfecho trágico para milhões de famílias brasileiras.
Como muito bem demonstrado pelo filme, o deboche e a desinformação foram usados como arma de governo que, com sarcasmo e declarações, desrespeitaram a dor, deslegitimaram as medidas de isolamento, as vacinas e encorajaram o uso de medicamentos sem eficácia comprovada. A tentativa de alcançar a “imunidade de rebanho” sem vacinação, se tornou uma estratégia do clã Bolsonaro, ignorando as graves consequências em número de vidas humanas que essa medida implicaria. A falsa ideia de que o vírus poderia simplesmente “passar” pela população foi uma escolha consciente e tinha como objetivo garantir que a maioria da população seguisse trabalhando, sem cuidados, mantendo a economia ativa e os lucros em alta. Com o lema, o Brasil não pode parar, o (des)governo Bolsonaro colocou a economia e os interesses do capital, acima da vida do povo brasileiro.
Essa postura não só retardou e minou a campanha de vacinação, reduzindo a imunização da população, mas também alimentou uma atmosfera de desconfiança que perdurou durante toda a crise sanitária. O resultado foi o aumento da propagação do vírus, evidenciado pelos elevados níveis de hospitalizações e mortes que chegaram ao pico de mais de 5 mil/diárias, culminando com mais de 700 mil vidas perdidas, muitas delas, que poderiam ter sido evitadas. E, como sempre, as populações mais vulneráveis enfrentaram um impacto desproporcional, com acesso desigual à saúde, a possibilidade de isolamento, resultando em um maior número de vidas perdidas. Para se ter uma ideia, a população brasileira corresponde a 2,6% do total de pessoas no planeta, no entanto, o Brasil contabilizou 12,6% do total de vítimas fatais pela covid-19, o segundo maior número absoluto de óbitos pela doença, ficando atrás apenas dos EUA. (Ver quadro abaixo)
Infelizmente, essa prática de negação da vida não é nova. É possível reconhecê-la no genocídio do povo palestino praticado pelo (des)governo de Israel, no bloqueio e isolamento do povo cubano praticado pelo (des)governo dos EUA, na “política de combate as drogas” com o encarceramento e assassinatos diário da população jovem negra periférica, na invisibilização e morte da população em situação de rua, no feminicídio diário das mulheres, na homofobia contra a comunidade LGBTQIAPN+ e em todas as práticas desumanas que visam o lucro em detrimento da vida.
Todas essas ações, quando não provocam imediata indignação e reação da sociedade, representam o que Hannah Arendt descreve como a banalização do mal. A simples ideia de que uma pessoa possa participar de um processo eleitoral democrático defendendo a morte de outras pessoas é prova desta banalidade. A substituição da vida como valor supremo por qualquer outro interesse, demonstra que a sociedade está anestesiada, inerte e desconstruída de compromisso ético com a proteção da vida, minimizando a dor e a morte como resultados aceitáveis. Neste contexto, a defesa da vida é substituída por interesses políticos e ideológicos que revelam o descaso pelo bem comum. É a barbárie como modelo de uma sociedade desorganizada, desestruturada e desumana, símbolos da necropolítica.
Mas onde impera o mal, sempre há resistência. Durante a pandemia da covid 19, a sociedade civil organizada se mobilizou em resposta à necropolítica do (des)governo Bolsonaro. Defesa do isolamento, iniciativas de saúde comunitária, redes de solidariedade, comitês populares de apoio e assistência e uma campanha nacional pelo direito a vacinação surgiram como respostas imediatas. Fenômenos semelhantes se espalharam pelo mundo. As ações de resistência demonstram que, mesmo em meio ao caos, a humanidade se reorganiza na busca por proteção e justiça.
No Brasil, em 2022, a maioria da sociedade brasileira rechaçou aquele desgoverno optando por Lula como alternativa de mudança. Bolsonaro e vários de seus ministros foram processados, condenados e presos por tentativa de golpe de estado. Mas a sombra do mal segue rondando o nosso futuro. As decisões tomadas durante a pandemia pela administração Bolsonaro, a tentativa de golpe de estado em 08 de janeiro e a força de candidaturas de extrema-direita revelam falhas éticas profundas na gestão dos temas de interesse coletivo. É vital que o país aprenda com os erros e reflita sobre a importância de eleger governos que priorizem a vida e a dignidade humana. É preciso derrotar e eliminar a necropolítica porque ela não representa uma ideologia, filosofia ou princípio político. Ela é a negação da política, representando a anatomia do mal em sua versão original. E, com quem defende a morte, não há mediação possível. A vacina é a reconstrução da utopia de uma sociedade do bem comum, da igualdade, da liberdade e da justiça. Uma sociedade onde a economia esteja à serviço da vida e onde a política retome seu papel de meio para a construção do bem viver de toda a humanidade. Quem em 2026 estejamos à altura deste desafio.
| PAÍS | POPULAÇÃO | ÓBITOS POR COVID-19 |
| Estados Unidos | 349.000.000 | 1.160.000 |
| Brasil | 210.000.000 | 700.000 |
| Índia | 1.470.000.000 | 530.000 |
| Rússia | 146.000.000 | 390.000 |
| México | 133.000.000 | 330.000 |
| Reino Unido | 69.900.000 | 220.000 |
| Peru | 34.900.000 | 220.000 |
| Itália | 58.900.000 | 180.000 |
| Alemanha | 83.500.000 | 170.000 |
| França | 69.100.000 | 160.000 |
| China | 1.400.000.000 | 60.000 |
FONTE: Organização Mundial da Saúde (OMS)
[1] ARISTÓTELES, A Política, Ed. Folha de São Paulo, 2010, São Paulo
[2] RAWLS, John, Uma Teoria da Justiça, Ed. Martins Fontes, 2016, São Paulo
[3] ARENT, Hannah, Sobre a Revolução, Companhia das Letras, 2011, Rio de Janeiro
[4] MBEMBE, Achille, Necropolítica, Ed. N-1, 2018, São Paulo
[5] https://oglobo.globo.com/cultura/ruth-de-aquino/coluna/2026/07/anatomia-do-caos-o-terror-bolsonarista.ghtml
*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

