Vicente Rauber

Engenheiro especializado em Planejamento Energético e Ambiental.

Dia do meio ambiente

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Pôr do sol em Porto Alegre
Pôr do sol em Porto Alegre | Crédito: Vicente Rauber

Precisamos falar de novos modelos de produção e de vida

Há 54 anos, em 05 de junho de 1972 a ONU criava em Estocolmo/Suécia o Dia do Meio Ambiente, quando o Planeta Terra já clamava por socorro.

Hoje, a cada dia, temos eventos climáticos extremos em várias regiões do Mundo, colocando a nossa casa comum em risco.

Neste Dia do Meio Ambiente não há como não falar da situação climática e da necessidade da transição energética. Mais do que isto: falar de novos modelos de produção e de vida.

O que está ocorrendo?

Vamos tentar entender o problema como ensinam os ambientalistas: pensar globalmente e verificar porque não está se agindo localmente o suficiente.

Fonte: Magnific – foto pública 

Quem somos? Um planeta completamente dependente do Sol, a estrela central do Sistema Solar, distante 150 milhões de km.

Graças aos raios solares, que recebemos permanentemente, possuímos calor e luz. Se assim não fosse seríamos algo como um bloco escuro e gélido de fuligens planetárias.

Graças aos raios solares, durante muitos milhões de anos nosso Planeta foi constituindo a sua configuração e sua rica composição.

Há cerca de 250 milhões de anos o bloco chamado Pangéia foi separando-se para formar os atuais continentes, conhecidos da forma atual há dois milhões de anos.

Os animais surgiram há 600 milhões, nos oceanos, a partir de organismos unicelulares. Graças ao oxigênio foram agrupando-se e evoluindo para seres maiores e complexos.

Os vegetais também surgiram nos oceanos, há 500 milhões de anos, a partir de algas que foram evoluindo até conseguir viver sobre a terra, sem a presença de água e realizando a fotossíntese. 

Diz a história que os seres humanos derivam de animais, tendo como ancestral o chipanzé. Há registros de 2,5 milhões de anos atrás primatas fabricando as primeiras ferramentas de pedras. E outros registros mostram que o homo sapiens tal como conhecido hoje data de 300.000 anos atrás, no Marrocos – África, com capacidade cerebral, sendo o único “animal racional”. Será mesmo?

A natureza formou um Planeta com recursos inimagináveis, extremamente rico, ainda em evolução, porém finito e com limites.

O seu prosseguimento, com aumento da população, necessariamente deveria ocorrer de forma sustentável, ou seja, usando e renovando os recursos naturais, garantindo as necessidades presentes, sem comprometer o futuro do Planeta e a qualidade de vida.

Não foi assim que o “animal racional” seguiu com a humanidade. 

As transformações aumentaram com o decorrer do tempo, especialmente nos anos recentes. Grande parte dos recursos naturais foram destruídos ou usados sem a devida renovação, quando possível, ou usados inadequadamente. Em especial, o chamado progresso eliminou florestas, ao invés de conviver com elas. 

Já ultrapassamos os limites aceitáveis, mas ainda é, com prejuízos já irreversíveis, reverter nossa séria situação de crise, embora nada fácil. O Planeta precisa voltar a ter sustentabilidade em todas as suas dimensões: ambiental, social e econômica.

Resumidamente, destacamos os atuais principais desequilíbrios, que são interrelacionados e de soluções conhecidas.

Fonte: IHU Unisinos – sobreaquecimento do Planeta
  • No plano ambiental, temos vários aspectos fundamentais:

– A urgente transição energética – O petróleo, que a natureza levou mais de 120 milhões de anos para produzir, está sendo consumido, em grande parte e indevidamente como combustível fóssil. A nível internacional é, juntamente com o carvão vegetal, o principal gerador do excesso de gases de efeito estufa – GEES -, que retém raios solares em demasia, sobreaquecendo o Planeta, provocando os distúrbios climáticos – inundações, secas, temporais – que tendem a ser mais frequentes e de tamanhos pouco previsíveis. 

No Brasil, nos meios urbanos, especialmente nos maiores, os combustíveis fósseis representam até dois terços dos GEEs.

A substituição dos combustíveis fósseis ocorrerá na medida que forem ofertadas alternativas renováveis.

O uso de biocombustíveis, bem como o gás natural e o biometano, são soluções intermediárias e provisórias importantes. 

A efetiva solução está na substituição dos motores a combustão por motores elétricos. A energia elétrica é a melhor de todas as energias, porém depende de outras formas para a sua obtenção. No Brasil já é produzida por fontes alternativas em aproximadamente 90%. Os demais países também precisam buscar esta meta.

Enchente em porto alegre
Assim como em 1941, o Mercado Público, símbolo do centro de Porto Alegre, foi extremamente afetado na enchente de maio de 2024 | Crédito: Giulian Serafim/PMPA

– A recuperação do meio urbano – Nossas Cidades foram construídas ocupando o espaço natural, eliminando exageradamente a vegetação e florestas. Blocos de concreto e terras impermeáveis geram ondas de calor e alagamentos. Na busca de água, as beiras de rios e arroios foram indevidamente ocupadas em regiões inundáveis. Boa parte destas pessoas, incluindo os que tiveram que abandonar o interior, foram ocupar estas regiões ou ainda as encostas, constituindo áreas de risco.

Ao mesmo tempo, as infraestruturas são insuficientes ou mesmo não possuem a manutenção adequada, como ocorreu em Porto Alegre, em maio de 2024, sendo a Cidade atingida pela maior inundação de sua história. Na época, a gestão local foi alertada de aspectos mais urgentes a serem recuperados, comportas e casas de bombas e a limpeza das redes de drenagem, itens até hoje não concluídos, e o EL Niño já está a caminho.

Além do fortalecimento das defesas civis, é fundamental que as cidades alcancem a universalidade do saneamento básico – água tratada, esgotos, resíduos sólidos, drenagem urbana e proteção contra inundações. A responsabilidade é dos municípios, que sozinhos não possuem condições de enfrentar esta necessidade. É essencial que se constitua, em parceria com estados e União, estruturas capazes de superar esta dificuldade. Em 2024, a União destinou ao RS 6,5 bilhões, principalmente para obras de drenagem e proteção contra inundações. Até agora nenhuma obra está concluída.

As áreas de risco precisam ser reassentadas e transformadas áreas verdes. E todo meio urbano deve recuperar parte de suas florestas, para o que Medelín/Colômbia continua sendo um exemplo fundamental.

Área de floresta atingida por incêndios e convertida em pastagem em Rondônia, nas proximidades de Porto Velho. desmatamento
Área de floresta atingida por incêndios e convertida em pastagem em Rondônia, nas proximidades de Porto Velho. | Crédito: Rogério Assis/Greenpeace

– A recuperação dos biomas degradados, em especial a Amazônia – Se por um lado a Amazonia e os demais biomas são nosso principal recurso ambiental, mundialmente reconhecido, e com funções essenciais, como a geração dos “rios voadores”, por outro temos nas derrubadas, queimadas e outras degradações como a mineração ilegal nosso principal problema ambiental, gerador de mais de 40% dos GEEs brasileiros. Esta situação coloca em risco a própria Amazônia e outros biomas com suas intensas secas, atingindo vegetais, animais e pessoas. Os pescadores e os seringueiros restantes têm suas atividades profundamente afetadas. O El Niño deste ano poderá novamente produzir esta situação.

Carlos Nobre, nosso principal cientista das consequências climáticas, alerta que a seguir o atual ritmo de aquecimento global e a destruição da Amazônia, em 50 anos, poderemos ter a “savanização da Amazônia”, com destruição da sua rica biodiversidade. No Brasil hoje cerca de 1200 espécies de animais e 7500 espécies de plantas estão ameaçadas.

Só há uma solução possível: acabar com a destruição da Amazônia e demais biomas.

– Indústria e agricultura produzindo mais e melhor – As indústrias podem organizar-se para não gerar resíduos reutilizando e transformando todos os seus ingressos de material. 

A agricultura brasileira é o nosso segunda maior gerador de GEEs, em mais de 20%.

O Brasil já apresentou em 2015, na COP de Paris, o seu Plano ABC – Agricultura de Baixo Consumo -; falta chegá-lo mais efetivamente aos campos.

  • No plano social, o desequilíbrio planetário e local é brutal, nada menos relevante do que os desajustes ambientais.

A fome campeia em três continentes: Na África com 20%; na Ásia com 8,1% e na América e Caribe com 6,2%; no total em torno de 8% da população mundial sofre do problema.

O Brasil está fora do mapa da fome, mas ainda possui população com insegurança alimentar.

A má distribuição de renda praticamente atinge os mesmos continentes: os 10% mais ricos possuem 75% das riquezas, enquanto os 50% mais pobres alcançam apenas 2% das riquezas.

No Brasil, os 10% mais ricos possuem em torno de 52% das riquezas.

Há que se conquistar uma relação mais justa com os países do chamado Primeiro Mundo e modelos econômicos que possibilitem uma melhor distribuição de renda nos chamados países em desenvolvimento, como é o nosso caso, que precisa continuar evoluindo.

  • No Plano econômico – Aqui encontramos nossas principais contradições e dificuldades para a recuperação do Planeta.

Se prevenir é o melhor remédio, ou seja, se custa menos estruturar-se adequadamente para enfrentar os distúrbios climáticos do que arcar com os muitos prejuízos de toda a ordem, por que isto não é feito?

A COP 30, realizada em Belém do Pará, em novembro de 2025, iniciou questionando por que as tantas deliberações das COPs anteriores não se efetivavam. E os debates e resoluções passaram a ser mais moderadas, na prática fugindo da urgência das soluções. O cumprimento das deliberações das COPs é voluntário. Que bom seria se tivéssemos uma ONU capaz na promoção da paz e na recuperação do Planeta.

As formas pelas quais os meios de produção estruturaram-se continuam dominantes. É o caso do petróleo, que desde o final do século 20 influencia diretamente a história econômica e social do mundo. São possíveis e conhecidas, alternativamente, formas de produção sustentáveis, capazes de produzir mais e melhor. 

Há enormes diferenças entre os países ricos do Norte, maiores poluidores, e os países do Sul Global. Alegam os países ricos que não há suficiente financiamento para a transição energética e a superação da crise climática. Ora, se estes temas são prioritários, devem receber os principais recursos.

No Brasil, temos condições de superar em grande parte as divergências ambientais, e continuar evoluindo nas áreas social e econômica, sendo uma referência para o Mundo. Vontade e orientação política são essenciais.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

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