“Quando nós, da classe trabalhadora, iremos fazer uma revolução nesse país relacionada à escala 6×1? É uma escravidão moderna. Moderna não, ultrapassada.”
O desabafo de um balconista de farmácia viralizou em 2023 e deu origem a uma mobilização nacional que agora chega ao Congresso Nacional. Rick Azevedo, fundador do movimento Vida Além do Trabalho (VAT), transformou a sua indignação em uma pauta política.
Eleito vereador do Rio de Janeiro pelo Psol em 2024 com mais de 29 mil votos, ele acompanha o avanço da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que propõe o fim da escala 6×1 e a redução da jornada semanal de 44 para 36 horas. A proposta, apresentada pela deputada federal Erika Hilton (Psol-SP), voltou a ser discutida na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado nesta terça-feira (21).
“Foi uma audiência boa, positiva, mas deixo frisado: precisamos continuar com a mobilização nas redes e nas ruas para acabar com essa escala urgentemente. É um lobby gigantesco, um empresariado marcando território, mas eles têm medo do povo. É uma pauta muito popular”, afirmou o vereador, durante a sua participação no BdF Entrevista, da Rádio Brasil de Fato, nesta quinta (23).
Azevedo estima que a primeira votação da PEC deve ocorrer no primeiro semestre de 2026, resultado das articulações entre movimentos sociais, governo e parlamentares. “Nós estamos atrasados, atrasadíssimos. Não era mais para existir escala 6×1. Mas, pelo que estamos sondando entre Congresso Nacional, governo e sindicatos, temos esse cenário possível para o primeiro semestre de 2026”, disse.
Movimento popular e novas gerações
Criado em setembro de 2023, o movimento VAT reúne hoje milhões de apoiadores. “O VAT é você, sou eu, é um movimento de todos nós. Quando falamos de vida além do trabalho, estamos falando de saúde, equilíbrio mental, casa, lazer, família”, explicou o vereador.
Segundo ele, o uso das redes sociais foi essencial para transformar um vídeo viral em organização popular. “A internet é uma ferramenta fortíssima para pautas trabalhistas. A rua é a internet e a internet é a rua. É com o povo pressionando que conseguimos grandes feitos, como foi enterrar a PEC da Blindagem, e com certeza o próximo grande feito será o fim da escala 6×1”, indicou.
O fundador do movimento destaca o papel da juventude na mobilização. “A minha confiança está nas novas gerações. Quando eu vejo o comércio reclamando de falta de mão de obra, eu comemoro. É a geração Z dizendo que não vai aceitar um trabalho análogo à escravidão. Elas já estão acabando com a escala 6×1”, apontou.
‘A democracia brasileira é burguesa’
Para Azevedo, a resistência à pauta revela o distanciamento entre o Congresso e a classe trabalhadora. “É um Congresso de classe média alta, donos de fazendas, pessoas que vêm de famílias que escravizaram pessoas. Eu me sinto político quando estou nas ruas, não dentro da Câmara. A nossa democracia é uma democracia para a burguesia”, criticou.
O vereador lembra que passou 12 anos trabalhando em regime 6×1 e que as experiências de exaustão e adoecimento o levaram à política. “Eu tive burnout, depressão, vontade de tirar a própria vida. Então, além da vitória coletiva, existe uma questão pessoal e vingativa dentro de mim. Eu quero me vingar desse sistema que destrói a vida das pessoas. A minha missão é acabar com a escala 6×1 e garantir uma vida além do trabalho”, revelou.
Ele defende que o VAT inspire o surgimento de novos representantes populares. “Não dá para ser só Rick Azevedo. Precisamos de novos trabalhadores entrando na política porque quem já esteve lá sabe quais pautas são importantes”, afirmou.
CLT e pejotização
Azevedo também defendeu o fortalecimento e a atualização da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). “Eu não sou contra a CLT. Ela é linda, só precisa funcionar e ser atualizada. Precisamos revogar a última reforma trabalhista e enfrentar a pejotização, que está vindo para destruir os direitos da classe trabalhadora”, pontuou.
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 21h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo. No YouTube do Brasil de Fato o programa é veiculado às 19h.
