Às vésperas do início da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30) em Belém (PA), o professor de Direito Internacional João Amorim avaliou que, apesar do avanço do lobby dos combustíveis fósseis e da lentidão diplomática, ainda há margem para um impacto real se a mobilização popular aumentar.
“Acho que nós, como sociedade civil, temos demorado tempo demais. A esperança está na sociedade civil. […] O tempo está se esgotando, mas eu vejo esperança”, afirmou em entrevista ao podcast O Estrangeiro, do Brasil de Fato. Ele defende que “o papel da sociedade civil como consumidora, gestora, produtora de resíduos, de impacto climático, é como fiscal das políticas públicas” e que “a mudança do padrão de consumo tem que começar de baixo”.
O enviado especial do Brasil de Fato, Afonso Bezerra, que está a caminho da COP em Belém, destacou a força das iniciativas fora da “zona azul” da Organização das Nações Unidas (ONU), como a Cúpula dos Povos. “Vamos acompanhar bem de perto a cúpula dos chefes de Estado, mas também a articulação internacional de movimentos populares, que tem como essência defender a justiça climática, o bem-viver e os direitos dos povos e também dos territórios”, anunciou. Segundo ele, a programação prevê atos de rua e atividades formativas, como uma barqueata entre os próximos dias 12 e 16, com a expectativa de quase 15 mil participantes.
Bezerra ressaltou também o protagonismo indígena nas articulações em torno do evento. “A população indígena participará de comitivas do país inteiro, são quase 3 mil indígenas para tentar incidir nesse debate”, informou. Ele lembrou ainda a formação recente de lideranças para atuação direta nas negociações. “A própria ministra [dos Povos Indígenas] Sônia Guajajara articulou um programa de formação de negociadores para a população indígena”, disse.
Recorde de lobistas e contradições regionais
Amorim descreveu a COP como um evento “multidimensional”, com decisões simultâneas de diferentes instâncias do regime do clima, e cobrou um olhar crítico para além do discurso oficial do país-sede. “É preciso olhar para além do discurso governamental, mas para como que as políticas internas correlatas vêm sendo desempenhadas na prática”, sugeriu. Ele também chamou atenção para o peso dos interesses econômicos. “Eu acredito que na COP 30 esse recorde [de lobistas] será batido novamente”, indicou.
Ao analisar as contradições regionais, como a pressão por exploração de petróleo na Margem Equatorial e os impactos na Amazônia, Amorim afirmou que “se a escolha for pelo hidrocarboneto, pelo combustível fóssil, você está abrindo mão da floresta”. O professor relacionou a disputa global por recursos ao histórico colonial. “É a velha lógica imperialista: eu arranco com todos os seus recursos e, para você, eu deixo apenas a exclusão, a sujeira, a poluição, a degradação e a morte”, apontou.
Sobre ambição climática, o professor disse que “se todos cumprirem as suas NDCs [Contribuição Nacionalmente Determinada], ao final do século o clima do planeta estará chegando em torno de 3,2 a 3,5 graus”. E alertou para a imprevisibilidade dos cenários de aquecimento acima de 2 °C. “Nenhum modelo computacional está programado para prever esses cenários”, pontuou.
O podcast O Estrangeiro vai ao ar toda quarta-feira às 11h no Spotify e YouTube.
