Democracia

Relembre os momentos mais marcantes da Caravana de Lula pelo Sul

Caravana chega ao fim hoje (28), com ato suprapartidário contra a violência e pela Democracia, que acontece em Curitiba

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Ex-presidente Lula em ato realizado em Florianópolis / Ricardo Stuckert

A Caravana Lula pelo Brasil na região Sul chega ao fim nesta quarta-feira (28), após dez dias percorrendo cidades do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, e reunindo milhares de apoiadores.

O trajeto pelo sul cobriu três mil quilômetros e 18 cidades, e representou a quarta etapa do projeto Lula pelo Brasil, que já percorreu a região Nordeste e Sudeste do país, além de uma jornada por Minas Gerais. O Brasil de Fato acompanhou a caravana durante todo esse percurso. Relembre os momentos mais marcantes nessa retrospectiva.

Rio Grande do Sul

A Caravana teve início na cidade de Bagé (RS), na fronteira com o Uruguai, com uma visita ao campus da Universidade Federal do Pampa (Unipampa). No mesmo dia, o ex-presidente seguiu para Santana do Livramento, onde participou de um debate público sobre o desenvolvimento da América Latina com Pepe Mujica, ex-presidente do Uruguai (2010-2015).

No dia seguinte, Lula visitou a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), na cidade de mesmo nome. Lá, o Brasil de Fato conversou com jovens negros e indígenas, que foram contemplados pelas ações afirmativas que a UFSM começou a implementar a partir de 2007, durante o governo do ex-presidente Lula. É o que contou o estudante Rodrigo Mariano, de 25 anos, um dos 62 jovens indígenas matriculados na universidade.

“A gente tem tornado esse acesso uma ferramenta de combate a todo tipo de opressão, ocupando esses espaços e colorindo a universidade, trazendo outra cor, outra cultura, outro sotaque. O Lula simplesmente foi quem deu o impulso para o acesso das minorias às universidades", afirmou Rodrigo.

Em seguida, o ex-presidente visitou outras instituições de ensino superior que foram beneficiadas ou criadas pelo seu governo, como o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Farroupilha (IFF) em São Vicente do Sul, fundado em 2008. Durante os governos Lula foram criados três três Institutos Federais no estado gaúcho.

Estudantes posam ao lado de Lula no Instituto Federal Farroupilha nesta quarta-feira (21). / Foto: Ricardo Stuckert

O ex-presidente Lula aproveitou a passagem por São Borja (RS), terra natal de dois ex-presidentes brasileiros: Getúlio Vargas e João Goulart, para prestar homenagens. A Caravana visitou o Mausoléu de Getúlio Vargas, onde Lula destacou a importância do legado do ex-presidente gaúcho para a história dos trabalhadores, e ressaltou o desmonte de direitos trabalhistas que vem sendo realizado pelo governo de Michel Temer (MDB).

"Eu vim aqui para dizer ao Getúlio que é uma vergonha, uma falta de caráter, as pessoas rasgarem tudo o que foi construído para garantir direitos elementares aos trabalhadores deste país", ponderou.

No dia seguinte, 23 de março, a Caravana passou por mais três cidades gaúchas. Primeiramente, houve uma parada no sítio arqueológico de São Miguel das Missões, onde um grupo de lideranças indígenas dos povos Guarani e Kaingang receberam o ex-presidente e os demais integrantes da Caravana, com homenagens e também demandas relativas aos cortes no orçamento do SUS (Sistema Único de Saúde).

Homenagem indígena no sítio arqueológico São Miguel das Missões/ Foto: Ricardo Stuckert

Em seguida, a Caravana seguiu para a cidade de Cruz Alta, onde centenas de pessoas organizaram um ato para receber Lula, a ex-presidenta Dilma Rousseff e o ex-governador do Rio Grande do Sul, Olívio Dutra. Na cidade de Cruz Alta, também ocorreu o primeiro episódio grave de violência praticada por um pequeno grupo de extrema direita contra apoiadores de Lula: quatro mulheres e uma criança de 10 anos foram agredidas a socos e pontapés.

Em resposta, o ex-presidente Lula destacou, em sua fala no ato, que estão tentando impedi-lo de voltar a governar o país. "Mas se eu voltar eu vou fazer esse povo voltar a sorrir, ser otimista, e vou voltar a fazer esse povo sonhar, porque um povo que não sonha, não tem alegria. Nós vamos olhar para todos, mas quem terá um olhar mais carinhosos, será o povo pobre e trabalhador”"

A última cidade percorrida no dia 22 foi a gaúcha Palmeira das Missões, onde foi organizado um grande ato com movimentos populares, no Largo Alfredo Westphalen.

No dia seguinte, a Caravana seguiu para a cidade de Ronda Alta (RS), famosa por sua resistência camponesa contra os grandes latifundiários da região. Lá, o ex-presidente Lula visitou o Minha Casa Minha Vida Rural, programa que mudou a vida de milhares de famílias da agricultura familiar na cidade, e foi instituído, principalmente, com os recursos do Pronaf, o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar, que entre 2003 e 2014 teve um crescimento de R$28 bilhões no seu orçamento.

Para a pedagoga e filha de agricultores Márcia Conrado, a passagem de Lula pela cidade é uma "honra".

"Para nós, é uma honra recebê-lo aqui em Ronda Alta, porque os grandes, como Michel Temer, com certeza nem sabem que esse município existe. Antes a gente não poderia construir uma casa com os valores do nosso salário mensal. Então, recorremos ao Minha Casa, Minha Vida e, graças a esse programa, há dois anos estamos morando na nossa casa própria", lembra.

No mesmo dia em que passou por Ronda Alta, a Caravana percorreria as duas últimas cidades gaúchas do trajeto: Passo Fundo e São Leopoldo. No entanto, uma interdição da estrada por parte de um grupo organizado da direita ameaçou a segurança da Caravana e a passagem pela primeira cidade foi cancelada. Em São Leopoldo, um ato reuniu milhares de pessoas para receber a Caravana no centro da cidade. Além de Lula e Dilma, o ato contou com a presença da deputada estadual (PCdoB-RS) e pré-candidata à Presidência Manuela D'Ávila.

Santa Catarina

A passagem da Caravana Lula pelo Brasil por Santa Catarina teve início no dia 24 de março, na capital Florianópolis, com uma reunião do ex-presidente com representantes e reitores de universidades e institutos federais. Em seguida, Lula participou de uma manifestação que reuniu centenas de pessoas no Largo da Catedral, no centro de Florianópolis.

No ato, Lula destacou, principalmente a atuação do governo do PT na área da educação, uma vez que a manifestação contou também com a presença do ex-prefeito de São Paulo, e ex-ministro da Educação, Fernando Haddad.

"Antes diziam que eu ia nivelar a educação por baixo, que eu estava colocando gente despreparada da periferia. O que aconteceu três anos depois? Em teste feito em 15 áreas do conhecimento, os melhores estudantes eram justamente os "despreparados do Prouni", destacou.

No mesmo dia, às 19h, aconteceu um dos atos mais marcantes da Caravana, tanto por conta da grave violência orquestrada por opositores, quanto devido ao significativo apoio popular. Na cidade, os integrantes da Caravana foram atingidos com pedras, que chegaram a dilacerar a orelha do ex-deputado federal Paulo Frateschi. Ao fim do evento, Lula foi escoltado por centenas de apoiadores, que formaram um corredor até seu hotel, para protegê-lo de mais ataques.

Ainda durante o ato, Lula conheceu uma das maiores personagens da Caravana: Dona Bia Linhares, mulher de 107 anos, que viajou de Caxambu do Sul até Chapecó para ter sua ficha de filiação ao PT assinada pelo ex-presidente. “Para mim, não teve melhor presidente que o Lula”, disse a centenária.

Lula assina ficha de filiação ao PT da centenária Dona Bia Linhares

No dia seguinte, a Caravana Lula pelo Brasil seguiu para suas últimas cidades catarinenses, com o objetivo, principalmente, de conhecer a importância da agricultura famliar na região. Em Nova Erechim, o ex-presidente conheceu o Sistema Cooperado da Agricultura Familiar, cooperativa beneficiada por políticas públicas como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), ambos implementados pelo governo Lula.

"Foi um incremento de valores que não tem presidente, não tem história que vai apagar", afirmou o agricultor catarinense Paulo Hubner, que acordou cedo para encontrar o ex-presidente, em entrevista ao Brasil de Fato.

Em seguida, a Caravana conheceu a Cooperativa de trabalhadores assentados da reforma agrária Cooperoeste, localizada no município de São Miguel do Oeste. A indústria se tornou um símbolo de resistência do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) frente ao agronegócio. Lá, Lula prometeu que, caso volte à ocupar o cargo de Presidente da República, irá impulsionar a criação de cooperativas e concluir a reforma agrária no Brasil.

Paraná

No dia 26 de março a Caravana Lula pelo Brasil na Região Sul amanheceu na cidade paranaense de Francisco Beltrão, onde foi realizado um ato com representantes da agricultura familiar do oeste do estado.

Em seguida, o ex-presidente seguiu para Foz do Iguaçu, onde foi realizado um Seminário Internacional da Tríplice Fronteira. O evento aconteceu na Universidade Federal da Integração Latino-americana (Unila), fundada durante o governo Lula em janeiro de 2010.

Lá, Lula encontrou com o ex-presidente paraguaio Fernando Lugo, vítima de um golpe parlamentar em 2012, e denunciou, em seu discurso, o corte de orçamentos que a universidade vem sofrendo.

“Tenho a Unila como uma das coisas mais importantes que fiz como presidente da república. Sempre achei que o Brasil como é o maior país da América Latina, mais rico e mais industrializado, tinha que promover o processo de integração. Temos que fazer um referendo revogatório ou convocar uma constituinte nova porque a constituinte cidadã de 1988 eles rasgaram. Temos que resgatar a integração com a América Latina", afirmou o ex-presidente, para uma plateia lotada de estudantes, professores, e apoiadores.

Também em Foz do Iguaçu a Caravana sofreu um grave episódio de violência. O padre Idalino Alflen, de 64 anos, foi atingido no rosto por uma pedra atirada por grupos da extrema direita, e depois atropelado por uma motocicleta, enquanto tentava chegar ao Sindicato dos Eletricitários, local também visitado por Lula.

O dia seguinte também foi marcado pelo maior episódio de violência da Caravana: a tentativa de atentado contra o ex-presidente Lula que atingiu, com três tiros, dois dos ônibus da Caravana, durante o caminho entre as cidades paranaenses de Quedas do Iguaçu e Laranjeiras do Sul. Nenhuma pessoa ficou ferida.

Marca de tiro no ônibus da Caravana de Lula

A Caravana deixava um ato pela reforma agrária, que aconteceu na praça São Pedro, centro de Quedas do Iguaçu, após uma passagem pelo assentamento Dom Tomás Balduino do MST, quando foi atingida, no começo da tarde. O Paraná foi o único estado da região sul onde não houve escolta policial durante a passagem da Caravana. De acordo com Gleisi Hoffmann, presidenta nacional do PT, houve negligência policial em relação  durante toda a Caravana.

"A nossa Caravana foi vítima de uma emboscada. A violência contra a Caravana vem crescendo, temos atentado as autoridades. Falamos com o comando da polícia, com o governo do Paraná. O fato é que não temos proteção. O nível de violência e ódio chegou a um ponto que precisamos da manifestação das autoridades do país", denunciou.

Após a perícia confirmar os tiros, a Polícia Civil abriu um inquérito considerando o atentado como uma tentativa de execução do ex-presidente. Nesta quarta-feira (28), o Brasil de Fato divulgou uma série de denúncias de ameaças de morte e violência ao longo da Caravana, que foram representadas pelo Coletivo de Advogadas e Advogados pela Democracia (CAAD) aceitas pelo Ministério Público do Paraná.

Apesar da violência, o ex-presidente Lula e os integrantes da Caravana ressaltam que as ações foram realizadas por grupos minoritários e que a Caravana teve grande apoio em todas as cidades por onde passou.

No final desta tarde, ocorrerá o último ato da Caravana de Lula pela Região Sul, em Curitiba. Centenas de manifestantes já formam a concentração do ato final, e é prevista a chegada em Curitiba de 20 ônibus, de todas as regiões do estado, com trabalhadores rurais sem-terra que também participarão do ato. No momento, acontecem apresentações culturais de artistas como o cantor popular e poeta João Bello.

O ato tem como palavras de ordem a denúncia da violência sofrida ontem pelos integrantes da Caravana, e a luta pela democracia. Além disso, ele será suprapartidário. Já estão confirmadas a presença de Manuela D'Avila e da liderança do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto Guilherme Boulos, também pré-candidato à Presidência da República pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL).

 

Edição: Juca Guimarães