Visita aos EUA

Lula e Biden condenam extremismo, discutem guerra e governança contra emergência climática

Presidente brasileiro disse que os EUA devem entrar no Fundo Amazônia e que grupo de países discuta a paz na Ucrânia

Caracas (Venezuela) |

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Lula e Biden se reuniram nesta sexta-feira, na Casa Branca - Ricardo Stuckert/PR

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se reuniu nesta sexta-feira (10) com o mandatário estadunidense Joe Biden durante sua primeira visita aos EUA desde que assumiu a Presidência. Durante o encontro, os presidentes discutiram a cooperação entre EUA e Brasil na questão climática, os atos violentos da extrema direita brasileira e estadunidense e a guerra entre Rússia e Ucrânia.

Em declarações à imprensa após a reunião, Lula afirmou que os EUA podem fazer parte do Fundo Amazônia, iniciativa que conta com apoio de países como Noruega e Alemanha, mas que suspenderam repasses ao Brasil durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro. No entanto, o presidente deixou claro que não discutiu especificamente a entrada dos EUA na iniciativa, mas sim "a necessidade dos países ricos financiarem todos os países que têm florestas", não só na América do Sul, mas também no continente africano.
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"Eu acho que [os EUA] vão [entrar no Fundo Amazônia]. Não só eu acho que vão [entrar] como é necessário que entrem. O Brasil não vai abrir mão de um território sobre o qual é soberano", disse.

Lula ainda afirmou que discutiu com Biden "uma governança global com mais autoridade, que outros países possam participar do Conselho de Segurança para que algumas decisões de ordem climática possam ser tomadas a nível internacional". 

"Eu senti muita disposição do presidente americano de contribuir para isso, as nossas equipes vão continuar conversando em todas a áreas para que possamos ter uma evolução muito importante para o Brasil e para os EUA. Eu estou convencido que nós estamos numa outra época. O Brasil volta ao cenário mundial utilizando sua potência política, a respeitabilidade que o Brasil conquistou para que possamos cumprir a tarefa que nós temos que cumprir com a humanidade", disse.

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Para Giorgio Romano, professor de Relações Internacionais e membro do Observatório de Política Externa da UFABC, o apoio dos EUA ao fundo seria importante não somente pelas contribuições financeiras, mas também pelo reconhecimento da soberania do Brasil sobre as políticas ambientais de preservação da Amazônia.

"O apoio dos EUA ao Fundo Amazônia é um claro sinal de confiança na nova política ambiental do Brasil, mas também, a essência do Fundo Amazônia não é o financiamento porque ele foi pensado, em conjunto com a Alemanha e a Noruega, para ser um espaço de cooperação no qual fica muito claro que a política é decidida pelo Brasil. Então é uma expressão da soberania política do Brasil sobre a Amazônia brasileira", diz.

Ao Brasil de Fato, o professor também explica que agora, com o governo Lula, o Brasil deve impulsionar globalmente as discussões pelo combate às mudanças climáticas, que acabaram sofrendo atrasos por conta de disputas geopolíticas.

"Muito se fala que a questão ambiental é uma área positiva, onde é possível uma cooperação internacional envolvendo a China, a Europa, os EUA, os países do sul, mas as tensões entre EUA e China vêm aumentando e isso interrompeu, em determinado momento, as negociações sobre questões climáticas. O Brasil pode entrar nessa discussão com força, com credibilidade e confiança de todos os grandes players para ser um garantidor dessa cooperação", afirma Romano.

"É preciso parar de atirar"

À imprensa, Lula ainda disse que conversou com Biden sobre a guerra na Ucrânia e sua proposta de criação de um grupo de países para discutir o fim do conflito. "Eu falei o que eu já tinha falado ao [presidente da França, Emmanuel] Macron, e ao [chanceler da Alemanha, Olaf] Scholz, sobre a necessidade de se criar um grupo de países que não estão envolvidos diretamente ou indiretamente na guerra da Rússia contra a Ucrânia para que a gente encontre possibilidades de fazer a paz", disse.

Desde que assumiu, Lula vem demonstrando suas intenções de negociar uma saída pacífica para o conflito, construindo o que ele tem chamado de "clube da paz", que contaria com a participação de países como China, Índia e Indonésia, além do Brasil. Os EUA, no entanto, têm sido um dos principais apoiadores da Ucrânia, fornecendo ajudas militares milionárias ao governo de Volodymyr Zelenski.

Segundo o presidente brasileiro, Biden tem "a mesma preocupação". "Ninguém quer que essa guerra continue e é preciso que existam parceiros capazes de construir um grupo de negociadores, que os dois lados acreditem e que possam compreender, que a primeira coisa é terminar a guerra. Depois é negociar o que vai acontecer no futuro, mas é preciso parar de atirar, senão não tem solução", afirmou.

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O professor Giorgio Romano diz ser cético em relação à ideia de Lula de criar um grupo de países para negociar o fim da guerra, já que "há um jogo político e militar muito pesado e até onde eu sei ninguém convidou ainda o Brasil para intermediar essa questão".

"O interesse dos EUA e da Europa agora não é trabalhar para uma solução pacífica, mas derrotar a Rússia. A Rússia também não tem a menor condição política de voltar atrás uma vez que invadiu o país. Eu acho pouco provável que haja realmente condições para criar esse grupo e se houver esse grupo teremos que ver de que forma os EUA vão tentar manipular esse grupo", afirma.

Bárbara Motta, professora de Relações Internacionais da UFS e pesquisadora do Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional da UNESP, pensa diferente. Para ela, ainda "é possível estabelecer alguma negociação para o diálogo e para a construção da paz".

"O encontro de hoje [entre Lula e Biden] pode estimular essas falas justamente por conta da entrada de um ator que tem menos interesses diretos no conflito, menos interesses geopolíticos, menos proximidade geográfica com a região do conflito e que tem canais de comunicação abertos com países importantes para qualquer concertação de paz", afirma.

Ao Brasil de Fato, Motta explica que a posição de Lula sobre o conflito, principalmente quando o presidente recusou o pedido do chanceler alemão Olaf Scholz para enviar munição à Ucrânia, preserva a capacidade do Brasil assumir uma posição de "negociador confiável" para avançar na ideia do "clube da paz".

"Para que o Brasil seja visto como um ator que tem algo a contribuir para as duas partes do conflito, principalmente que tenha algo a contribuir para a segurança internacional, ele precisa apresentar uma imagem de negociador confiável, de intermediário, e ao tomar um partido, qualquer um que seja, o Brasil perde essa possibilidade que me parece a única do Brasil se destacar diplomaticamente e produzir algum ganho para a comunidade internacional", diz.

"Nossas democracias prevaleceram"

As declarações de Lula à imprensa ocorreram após uma longa reunião entre os presidentes que também contou com a participação de ministros brasileiros e norte-americanos. Entre eles participaram os ministros Mauro Vieira (Relações Exteriores), Fernando Haddad (Fazenda), Marina Silva (Meio Ambiente) e Anielle Franco (Igualdade Racial). Já do lado norte-americano, estiveram presentes o secretário de Estado, Antony Blinken, a secretária do Tesouro, Janet Yellen, o enviado especial para o clima, John Kerry, e o conselheiro de Segurança Nacional, Jake Sullivan.

Mais cedo, Lula e Biden se reuniram a sós no Salão Oval da Casa Branca, ocasião em que conversaram sobre os episódios de invasão ao Capitólio, nos EUA, e aos Três Poderes, no Brasil. "Nossas democracias foram duramente testadas e prevaleceram", disse o presidente estadunidense.

Ambos ainda citaram seus respectivos antecessores quando Lula mencionou o isolamento internacional e as fake news utilizadas pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.

"O senhor sabe que o Brasil ficou quatro anos se automarginalizando. O presidente não gostava de manter relações com nenhum país. O mundo dele começava e terminava em fake news. Ele menosprezava as relações internacionais", disse Lula, ao que Biden respondeu: "Me parece familiar", em referência ao republicano Donald Trump.

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Lula agradeceu a solidariedade de Biden ao reconhecer sua vitória eleitoral e elogiou o mandatário por "sua postura em defesa da democracia". "Nós agora temos alguns problemas para trabalhar juntos. Primeiro, nunca mais permitir que haja um novo capítulo do Capitólio e que nunca mais haja o que aconteceu no Brasil com a invasão do Congresso Nacional, do Palácio do Planalto e do STF", disse.

Para Romano, a posição era esperada pois "as duas maiores repúblicas presidencialistas do mundo resistiram a tentativas de golpe, os dois ganharam eleições e foram questionados, então os dois estão com a tarefa de tentar reconstruir a imagem da democracia".

No entanto, o professor afirma que a posição pode ser utilizada pela Casa Branca em sua "cruzada pela defesa da democracia" que pretende, segundo Romano, dividir o mundo "entre democracias e autocracias".

"Essa visão de mundo não é a visão do Brasil, com certeza não é a visão de Lula, pois isso é uma linguagem da Guerra Fria, e Lula tem que resistir a isso. Com certeza os EUA vão querer envolver o Brasil nessa aliança pela democracia, aproveitando o momento que o Brasil está vivendo, mas o objetivo dos EUA é outro, é a manutenção da sua hegemonia e fazer a disputa com a China", afirma.

A professora Bárbara Motta ainda destaca que, apesar do posicionamento conjunto dos presidentes ser relevante, ele não tem capacidade para inibir as forças de extrema direita, seja no Brasil ou nos EUA.

"Inibir a extrema direita passa pelo julgamento e condenação de atos criminosos, pela regulação da internet, pela educação democrática e crítica. Significa que esses discursos [de Lula e Biden] não valem de nada? Claro que não. Valem para reforçar o posicionamento e o compromisso dos países com um conjunto amplo de ações. Serve também para sinalizar a possibilidade de troca de experiências, de cooperação, mas inibir eu não diria", destaca.

Encontro com Sanders

Antes de se reunir com Biden, Lula cumpriu outros compromissos durante sua visita a Washington. O presidente se reuniu com o senador Bernie Sanders, de quem recebeu apoio durante a campanha presidencial. 

Segundo o presidente, eles conversaram sobre "democracia, movimento sindical e melhores direitos e empregos para trabalhadores". Já Sanders disse que "foi um prazer receber Lula em Washington" e que ambos falaram sobre "a importância de defender a democracia, avançar nos direitos dos trabalhadores e aumentar a cooperação ambiental e climática pelo mundo".

Após o encontro, Sanders chegou a confrontar um grupo de bolsonaristas que protestava em frente à residência onde Lula está hospedado. Ao tentar conversar com a imprensa, o senador pediu que eles "se acalmassem", pois os gritos o impediam de falar. "Existe uma grande ameaça de extremistas da direita que são autoritários, seja Trump, seja Bolsonaro, que estão tentando minar a democracia", disse.

O presidente brasileiro também recebeu uma delegação do Partido Democrata que incluiu os congressistas Ro Khanna, Pramila Jayapal e Alexandria Ocasio-Cortez, uma das deputadas que pediu a extradição do ex-presidente Jair Bolsonaro dos EUA após a invasão aos Três Poderes em Brasília, no dia 8 de janeiro.

"Falamos de programas sociais que desenvolvemos no Brasil, a preocupação que compartilhamos sobre o meio ambiente e futuro do mundo e enfrentamento à extrema direita e fake news nas redes sociais", disse Lula sobre o encontro.

Edição: Thalita Pires