Internacionalismo

Países da América Latina e Caribe apontam 'dilemas da humanidade' em conferência regional realizada no Chile

"Não devemos falar das revoluções como algo perfeito. É preciso discutir os processos", disse deputada cubana no evento

Brasil de Fato | Santiago (Chile) |
Parte da conferência aconteceu na prefeitura da comuna de Recoleta, na região metropolitana de Santiago - Gabriela Moncau

Cerca de 170 ativistas, intelectuais e membros de partidos políticos de 23 países da América Latina e do Caribe estiveram reunidos na comuna de Recoleta, na região metropolitana de Santiago, no Chile, na Conferência Regional Dilemas da Humanidade. Com o intuito de avaliar os desafios das lutas emancipatórias atuais, os participantes do evento exaltaram os processos de Cuba e Venezuela como o que consideram as principais experiências socialistas no continente.

O encontro realizado no Chile entre os dias 2 e 4 de setembro foi a etapa latino-americana e caribenha de um processo formativo que prepara as regiões do mundo para a 3ª Conferência Internacional Dilemas da Humanidade, a ser realizada em outubro em Joanesburgo, na África do Sul. Eventos regionais também estão ocorrendo na África, Ásia, Europa e América do Norte.

Organizado pela Alba Movimentos e a Assembleia Internacional dos Povos, a etapa latino-americana e caribenha durou três dias e terminou nesta segunda-feira (4), dia comemorado no Chile por ser aquele em que, 53 anos atrás, Salvador Allende ganhou a eleição presidencial com a Unidade Popular.  

“Dilemas da Humanidade é um processo global que estamos construindo desde 2004. Houve uma segunda edição em 2015 e nos encontramos agora nesse processo de refletir sobre os principais problemas pelos quais está atravessando a humanidade. Não só em termos de diagnóstico, mas também de propostas”, explicou Laura Capote, da secretaria da Alba Movimentos e da Marcha Patriótica da Colômbia.  

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Colômbia, Trinidade e Tobago, São Vicente e Granadinas, Jamaica, México, Peru, Bolívia, Brasil e Argentina são alguns dos 23 países representados no evento / Gabriela Moncau

Cuba e a revolução como processo 

“Um dos nossos dilemas é o processo de construção de democracia e poder popular. Ou, como nos ensina a experiência bolivariana da Venezuela e a revolução cubana, a proposta de uma democracia popular e protagônica”, opinou Capote. 

Citando o crescimento da ultradireita em diversas partes do mundo, Laura considera que, muitas vezes, “as eleições fazem com que acabemos defendendo a democracia liberal, que não é a dos povos. A democracia popular passa por outros lugares: processos comunitários, territoriais, de bairro”.  

A cubana Llaniska Lugo, deputada da  Assembleia Nacional do Poder Popular, participou da conferência no Chile. “A revolução cubana foi uma saída para transformar estruturalmente uma sociedade colonizada”, introduziu.  

“Com o tempo, ao longo dessa luta para defender o que temos criado, de olhar para nós mesmos a partir dos nossos olhos e caminhar com nossos pés, a revolução chegou também a um momento de disputas de sentidos e subjetividades, de muita complexidade”, caracterizou Lugo. 


Colômbia, Trinidad e Tobago, São Vicente e Granadinas, Jamaica, México, Peru, Bolívia, Argentina, El Salvador, Guatemala são alguns dos países com representantes no evento / Gabriela Moncau

“Em Cuba, estamos discutindo que modelo nós queremos aprofundar nessa aposta pelo socialismo. Que não pode ser um caminho de cansaço, esgotamento, sacrifício. Tem que ser, como é nossa aposta de lutas em toda a região, um caminho para a beleza, a liberdade, a emancipação”, avaliou Llaniska. 

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Também integrante do Centro Martin Luther King em Cuba, Lugo defende que “essa tem que ser uma discussão sincera com o povo cubano, em um momento de muita resistência e que estamos realmente muito assediados pelo bloqueio econômico e estratégias de punição e isolamento que o imperialismo aplica a qualquer um que tente implementar um modelo como o que tentamos”. 

“Não se pode falar das revoluções como uma memória do passado, como um museu de história ou como algo perfeito. É preciso discutir os processos e os caminhos para enfrentar o capitalismo. É preciso analisar a distância entre o modelo e o que é realmente o mundo”, avaliou Llaniska Lugo. “E fazer tudo isso com sensibilidade, sinceridade, valentia e com esse humanismo que nos permite seguir solidários”, complementou.

"Democracia protagônica" 

Cunhado pelo ex-presidente Hugo Chávez, o termo “democracia participativa e protagônica” é, na visão da deputada venezuelana Blanca Eekhout, como se define “o socialismo do século 21”.  

Na assembleia da Venezuela, Eekhout preside a Comissão de Desenvolvimento das Comunas de seu país. Impulsionadas nos últimos anos do governo de Chávez, as comunas são formas de organização territorial e produtiva compostas por conselhos comunitários. Durante um discurso que ficou conhecido como “Golpe de Timón” no qual fez autocríticas à revolução bolivariana, Hugo Chávez defendeu que, para avançar no socialismo, era “comuna ou nada”.  

Com dinâmicas diversas, atualmente existem cerca de três mil comunas registradas na Venezuela. “Todo o processo revolucionário venezuelano acontece no âmbito da democracia participativa e protagônica. E já teve muitas faces e momentos”, avaliou Blanca Eekhout.  

“Em meio um bloqueio brutal, de uma guerra multifatorial, com tentativas de invasão paramilitar, mantivemos o caminho de construir a revolução a partir da premissa de que só se pode mandar obedecendo ao povo”, disse a parlamentar venezuelana.  

Trabalho, cultura e meio ambiente

Por meio de atividades como debates e grupos de discussão, a Conferência também elencou como dilemas centrais a soberania para enfrentar o imperialismo, a batalha cultural e de ideias, a organização da classe trabalhadora e a defesa da natureza e dos bens comuns. 

“O que está em risco não é sequer um projeto de esquerda. O que está em risco é nossa própria espécie, nossa continuação neste planeta”, expôs Laura Capote. 

“Contra a depredação e a voracidade com o qual o capital tem avançado sobre nossos bens comuns, entendemos que aqui na América Latina temos uma grande riqueza de lutas em defesa da Mãe Terra”, afirmou a integrante da Alba Movimentos. 

“Vamos ver também com quem nos encontramos na África do Sul para trazer para cá as aprendizagens de outras regiões do mundo. Nosso continente é muito grande e lindo, mas o mundo muito mais. Então vamos estar atentas para aprender com os outros dilemas”, finalizou Laura, “e bom, para tentar resolvê-los, que é o mais importante”.  

Edição: Rodrigo Chagas