Articulação global

Em Belém, povos dos cinco continentes lançam movimento internacional de atingidos por barragens, crimes socioambientais e crise climática

Evento ocorreu no dia de abertura da Cúpula dos Povos, em paralelo à COP30, na capital paraense

Criação do movimento internacional foi definida durante 4º Encontro Internacional de Atingidos por Barragens | Crédito: Marcelo Aguilar/MAB

A fundação de um movimento internacional dos atingidos por barragens, crimes socioambientais e pela crise climática marcou a tarde desta quarta-feira (12), em Belém (PA), no dia de abertura oficial da Cúpula dos Povos. A plenária, realizada no auditório do Centro de Eventos Benedito Nunes, na Universidade Federal do Pará (UFPA), reuniu lideranças populares de todos os continentes, militantes de base e representantes do governo federal para consolidar a criação de uma articulação permanente entre povos impactados por grandes empreendimentos.

Representantes dos ministérios do Desenvolvimento Social, da Igualdade Racial e do Desenvolvimento Agrário, além de parlamentares e outros movimentos populares, participaram da atividade e manifestaram apoio à organização dos povos impactados.

O ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome do Brasil, Wellington Dias, levou o apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao movimento e reforçou o compromisso do governo com a construção de políticas a partir do diálogo com os territórios. “Contem com o Ministério do Desenvolvimento Social, contem com o governo do Brasil. Trazemos aqui um abraço do presidente Lula. Vamos acertar a partir de quem conhece a realidade do Brasil por dentro”, afirmou.

Em nome da coordenação nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Letícia Oliveira destacou que o nascimento do movimento internacional é resultado de uma história coletiva de dor e resistência. Moradora de Mariana (MG), ela relembrou os dez anos do rompimento da barragem da Samarco/Vale/BHP e os impactos persistentes nas comunidades. “Até hoje, as pessoas lutam para recuperar suas casas, o acesso à água, ao trabalho, à saúde. E não é só no Brasil. São crimes que se repetem em todos os continentes. Precisamos estar organizados local, regional, nacional e internacionalmente, porque o inimigo é o mesmo: o poder das grandes empresas e do capital”, afirmou.

A ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, também celebrou a criação do movimento como uma conquista popular diante de um cenário global marcado por desigualdades e racismo ambiental. “Quando nos unimos nacional e internacionalmente, ganhamos voz. Que esse movimento leve adiante um projeto político de país e de mundo com justiça reparatória, climática, ambiental e racial”, disse.

Já o ministro do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Paulo Teixeira, destacou avanços recentes promovidos pelo governo federal no campo da reparação e da defesa de comunidades tradicionais. Ele citou a revisão do acordo com a Vale sobre o crime de Mariana, a suspensão de reintegrações de posse contra comunidades quilombolas no Espírito Santo e Maranhão, e a destinação de terras para reforma agrária.

“O governo Lula tem lado: o lado dos atingidos, dos quilombolas, dos indígenas, das mulheres, da agricultura familiar. E essa COP também é dos povos com comida agroecológica, com os rostos de quem cuida das florestas e da vida”, encerrou.

O movimento internacional que nasce a partir do 4º Encontro Internacional de Atingidos por Barragens e Crise Climática, que ocorreu entre os dias 7 e 11 deste mês, também em Belém, amplia o alcance da articulação já existente entre países da América Latina.

Seu objetivo é fortalecer a resistência nos territórios, articular estratégias comuns entre povos atingidos dos cinco continentes e enfrentar, de forma coletiva, os efeitos do modelo de desenvolvimento baseado na exploração dos bens comuns. Durante a plenária de fundação, os delegados e delegadas aprovaram uma carta de intenções com dez diretrizes políticas para guiar os próximos passos da organização.

Entre os pontos aprovados estão a construção de uma coordenação internacional, a formulação de um programa de formação política com base na educação popular, a articulação de lutas locais com objetivos globais e o compromisso com a transformação social. O nome, a estrutura e o calendário do movimento ainda serão definidos pelas delegações nacionais.

Segundo Letícia Oliveira, do MAB, a decisão de fundar um movimento internacional nasce da constatação de que “as empresas que nos atingem são as mesmas, mas o poder econômico é o mesmo”. “Temos os mesmos problemas, por isso precisamos seguir unidos e construir um forte movimento internacional para enfrentar esse inimigo comum”, analisou.

O nascimento do movimento internacional de atingidos marca um passo histórico na luta popular por justiça ambiental e soberania dos povos. O que antes era um esforço articulado entre países latino-americanos transforma-se agora, três décadas após o primeiro encontro de atingidos de países diversos, em uma frente global.

Atingidos por grandes projetos do mundo todo estão reunidos em Belém (PA) na Cúpula dos Povos | Crédito: Marcelo Aguilar/MAB

Um inimigo em comum: o capital que devasta territórios

O lançamento do movimento internacional parte do reconhecimento de que a ofensiva contra as comunidades atingidas por barragens, mineração e grandes empreendimentos não é acidental, mas está no centro do atual modelo econômico global.

Segundo a compreensão dos movimentos, o capitalismo, em sua fase neoliberal, transforma rios, terras e pessoas em mercadorias, avança sobre territórios indígenas, quilombolas e camponeses, e impõe uma lógica de lucro que ignora vidas humanas e o equilíbrio ambiental.

“O nosso problema é o mesmo. São as mesmas empresas, é o mesmo poder econômico. Por isso, precisamos seguir unidos e construir um forte movimento internacional para enfrentar esse inimigo em comum”, explicou Leticia Oliveira, do MAB. A mineradora Vale, por exemplo, esteve envolvida nos dois maiores desastres ambientais da história recente do Brasil, em Mariana e Brumadinho, continua operando sem reparações plenas às populações atingidas e também impacta outras comunidades ao redor do mundo.

Casos semelhantes se repetem nos cinco continentes. Na Itália, resíduos químicos da Mitsubishi contaminam comunidades inteiras. No Equador, a Chevron deixou um rastro de destruição e doenças na Amazônia. Na Papua Nova Guiné, a mineração de cobre impacta populações há décadas. “Esses são crimes socioambientais, porque as empresas sabiam dos riscos e nada fizeram. Elas lucram com a destruição, com a doença, com o sofrimento dos povos”, denunciou Letícia.

Editado por: Luís Indriunas

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