Pelo décimo ano consecutivo, o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, concedeu uma entrevista ao jornalista espanhol Ignacio Ramonet no encerramento de 2025. Gravada na tarde de domingo (31), em Caracas, a conversa teve um formato diferente: ocorreu dentro do carro conduzido pelo próprio presidente, com a presença da primeira-dama, Cilia Flores, e do vice-presidente setorial de Comunicação e Cultura, Freddy Ñáñez.
Ao longo de pouco mais de uma hora, Maduro fez um balanço político, econômico e social do último ano e apresentou as principais linhas de atuação do governo para 2026. A entrevista abordou desde o desempenho da economia venezuelana em meio ao bloqueio dos Estados Unidos até o fortalecimento das comunas, o uso das redes sociais na disputa política internacional, os planos ambientais do governo e a escalada de tensões com Washington.
Questionado sobre a declaração do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que afirmou ter ordenado um suposto ataque terrestre contra a Venezuela, Maduro minimizou o episódio e afirmou que “o povo está seguro e em paz”. Segundo ele, as acusações fazem parte de uma estratégia de intimidação que busca justificar ações ilegais contra o país e reforçar uma lógica intervencionista já rejeitada pela sociedade venezuelana.
Ao contrapor o que chamou de modelo imperial baseado na ameaça e na força ao projeto bolivariano, o presidente defendeu que a Venezuela não precisa agredir outros países para afirmar sua soberania. “Queremos paz. Queremos respeito ao direito internacional. E o povo dos Estados Unidos deve saber que aqui tem um povo amigo, amistoso, pacífico. E também um governo amigo”, declarou.
Maduro sobre el supuesto ataque de EEUU: ¿Venezuela activó su sistema defensivo?
— Madelein Garcia (@madeleintlSUR) January 2, 2026
Ramonet: “Decía presidente que una de las declaraciones últimas en Washington es que ha habido como un ataque terrestre en Venezuela contra, pretendidamente, una factoría de elaboración de droga.… pic.twitter.com/vToFrNC6P5
Tensão militar e disputa internacional
A entrevista de Maduro ocorreu após o presidente dos EUA, Donald Trump, afirmar que teria ordenado um ataque terrestre a um suposto porto utilizado pelo tráfico de drogas na costa venezuelana. A operação, não confirmada por fontes oficiais estadunidenses nem pelo governo venezuelano, gerou desconfiança entre autoridades de Caracas e analistas internacionais.
Na reta final de 2025, Washington anunciou o envio de cerca de 10 mil soldados, navios e aeronaves ao Mar do Caribe. A ofensiva militar, que inclui bloqueios navais e ataques a embarcações sob alegação de combate ao narcotráfico, já deixou mais de 100 mortos e foi classificada como “pirataria” pelo governo venezuelano. A apreensão de petroleiros e o fechamento do espaço aéreo do país aprofundaram o cerco.
Sem mencionar diretamente o nome de Trump, Maduro comentou as declarações feitas pelos EUA. “Há coisas que não posso dizer ainda. Mas o que posso afirmar é que nosso povo está seguro e em paz. Estamos atentos, mobilizados e preparados para garantir a soberania do país”, afirmou.
A resposta de Caracas tem sido articulada por meio de ações diplomáticas e mobilizações populares. O governo levou o tema ao Conselho de Segurança da ONU, onde recebeu apoio da Rússia e da China. Moscou afirmou que o bloqueio estadunidense constitui um “ato flagrante de agressão” e alertou que a Venezuela pode estar sendo o primeiro alvo de uma nova estratégia militar contra a América Latina.
Maduro afirmou ainda que, mesmo diante das ameaças, o país seguirá apostando no diálogo e no respeito mútuo. “A Venezuela não precisa agredir ninguém para ser grande. Nem os Estados Unidos, nem ninguém. Queremos paz, queremos respeito ao direito internacional”, disse.
Questionado sobre uma possível segunda conversa com o presidente dos EUA, o mandatário venezuelano negou que tenha voltado a falar com Trump. Disse que houve apenas um diálogo, ocorrido em 21 de novembro de 2025, e que a conversa foi “respeitosa, muito respeitosa, cordial”. Acrescentou, no entanto, que “o que veio depois não foi nada agradável”, em referência à escalada militar e às declarações públicas feitas por Washington nas semanas seguintes.
Presidente de Venezuela, Nicolás Maduro, desmiente a Donald Trump y confirma que solo han sostenido una sola conversación el 21 de noviembre de 10 minutos y agregó “agradable”.
— Madelein Garcia (@madeleintlSUR) January 2, 2026
Ramonet: Usted tuvo una conversación con el presidente Trump, ¿verdad? Y últimamente se ha dicho que… pic.twitter.com/foZZAr4ULm
Modelo comunal e poder popular como resposta à crise
Maduro utilizou parte significativa da entrevista para reafirmar o modelo comunal como pilar central da proposta política bolivariana. Afirmou que, diante do que chamou de “esgotamento terminal” da democracia liberal ocidental, a Venezuela tem investido na construção de uma democracia direta, baseada no poder popular.
“O que estamos construindo é uma democracia permanente, com o povo, onde o poder é exercido diretamente. O poder de decidir as políticas públicas, o poder sobre os orçamentos nacionais, o poder sobre a educação, sobre a cultura. Isso é o que estamos edificando nas comunas e conselhos comunais”, afirmou.
Segundo ele, só em 2025 foram realizadas quatro consultas nacionais e aprovados mais de 33 mil projetos comunitários. “Não é o presidente, nem prefeito, nem ministro quem decide. É o povo com seu voto. São assembleias que decidem, com voto direto, o que será feito no seu território. Foram mais de 330 milhões de dólares investidos, e tudo saiu das receitas geradas internamente, pelos 14 motores da economia”.
O presidente lembrou que o modelo é herança direta de Hugo Chávez. “Chávez me disse: ‘Nicolás, te encarrego das comunas como te encarregaria da minha vida’. Eu senti ali o peso de séculos sobre os ombros, mas hoje esse peso se tornou leve, porque é o povo quem está levando adiante esse projeto”.
“Milagre econômico” e autossuficiência
Maduro celebrou os indicadores de crescimento divulgados pela Cepal, que colocam a Venezuela como a economia que mais cresceu na América Latina em 2025, com 6,5%. Para ele, o desempenho é resultado da reorganização da economia real, com base em 14 setores produtivos estratégicos.
“Estamos falando de um crescimento real, com produção de bens e serviços. O segredo está nos nossos motores econômicos, que são de raiz nacional. Não são importados de manuais estrangeiros. É o povo se reinventando, o campo se recuperando, o comércio popular em ebulição”, disse.
De acordo com Maduro, 90% dos produtos consumidos hoje no país são produzidos internamente. “Queremos chegar a uma economia de substituição radical das importações. Tudo deve ser feito na Venezuela: alimentos, roupas, calçados, veículos. E o próximo passo é crescer nas exportações não petroleiras”.
Sobre a inflação e o poder de compra, defendeu o modelo de indexação e o fortalecimento do mercado interno. “Hoje há uma capacidade real de consumo nas famílias venezuelanas. O comércio cresceu 34% no final de 2025. Isso é sinal de vitalidade”, afirmou.
Redes sociais, guerra cognitiva e soberania digital
Ao tratar da disputa pela narrativa, Maduro classificou o conflito como uma “guerra cognitiva” e afirmou que a Venezuela desenvolveu uma estrutura comunicacional baseada em uma lógica própria: “das ruas às redes, das redes aos meios, dos meios às paredes”.
“A guerra é pelo cérebro, pelas emoções, pelos valores. Nossa maior arma não é um míssil, é a verdade. E a verdade da Venezuela é demolidora, irrebatível. Por isso montamos um sistema que começa nas comunidades, passa pelas redes sociais, ocupa os meios de comunicação e chega até as paredes, com cartazes e murais”, disse.
O presidente também revelou que o país utiliza inteligência artificial e big data para análise do ambiente informacional interno e externo. “Temos tecnologia nacional, e sabemos o que acontece aqui e lá fora. Medimos tudo. É parte da nossa defesa”.
Meio ambiente como eixo de soberania
Maduro anunciou que o governo vai lançar, em 2026, o Plano Nacional de Semeadura, com a meta de plantar 10 milhões de árvores. A ideia é instalar viveiros em todas as comunas do país, com espécies medicinais, frutíferas, ornamentais e florestais.
“A Mãe Terra está pedindo socorro, e nós estamos ouvindo. É uma tarefa espiritual, ecológica e de soberania. Cada comuna vai ter seu viveiro, cuidando do ambiente e também garantindo alimentos. É um esforço coletivo, porque o planeta precisa”, afirmou.
Contra a guerra e por um novo projeto de mundo
Ao encerrar a entrevista, Maduro retomou a crítica ao modelo estadunidense de dominação global e convocou o povo dos EUA à reflexão. “Eles querem outra guerra do Vietnã? Outra guerra no Afeganistão? Querem trazer isso ao Caribe? Já basta.”
Para 2026, o presidente afirmou que a Venezuela seguirá fortalecendo um projeto de país soberano, pacífico e voltado para o desenvolvimento com justiça social. “Nossa decisão absoluta é ser leal ao juramento de levar nossa pátria à grandeza. Mas, para que a Venezuela seja grande, não precisamos fazer mal a ninguém. Assim como os Estados Unidos querem ser grandes outra vez, que o façam com esforço, com trabalho, com vocação pacifista, e não com ameaças ou guerras. Já basta”, declarou.
“Não sou eu. Eu represento um projeto histórico de 500 anos de luta. Sou Guaicaipuro, sou Zamora, sou Chávez. Sou o povo”, concluiu.
