CINEMA

Porto Alegre é personagem de novo longa da produtora Vulcana 

No premiado 'Ato Noturno', que estreia em 15 de janeiro nos cinemas, a capital gaúcha não tem papel de mero cenário

Apamecor, no Morro São Caetano (Teresópolis), é uma das locações de thriller erótico rodado em Porto Alegre
Apamecor, no Morro São Caetano (Teresópolis), é uma das locações de thriller erótico rodado em Porto Alegre | Crédito: Divulgação/Vulcana Cinema

Thriller erótico escrito e dirigido por Filipe Matzembacher e Marcio Reolon, Ato noturno vem percorrendo todos os cantos do mundo e levando uma nova cara da cidade de Porto Alegre. Com estreia marcada para o dia 15 de janeiro nos cinemas brasileiros, dentro do projeto Sessão Vitrine Petrobras, a obra retrata uma capital que não apenas abriga a história, mas ultrapassa a função de cenário e se transforma em personagem central da narrativa. 

Na trama deste que é o terceiro longa da dupla de realizadores, um ator e um político vivem um caso em sigilo e, juntos, descobrem ter fetiche por sexo em lugares públicos. À medida que se aproximam do sonho da fama, mais intenso se torna o desejo de se colocarem em risco.

Coprodução entre as empresas gaúchas Vulcana Cinema e Avante Filmes e filmado e ambientado em Porto Alegre, Ato noturno constrói um contraste entre espaços pessoais e íntimos da Capital e lugares icônicos da cidade, como o Parque da Redenção, a avenida Mauá, o Theatro São Pedro e a Praça da Matriz. Essa composição cria uma paisagem que dialoga diretamente com a vida dupla dos personagens: homens que transitam entre a rotina pública e experiências íntimas vividas à margem da visibilidade social.

O cineasta Davi de Oliveira Pinheiro, que assistiu ao longa na estreia mundial no Festival de Berlim como Night Stage, há quase um ano, concorda que a Capital é personagem do enredo envolto em segredos: “Desde o primeiro plano, vemos lugares reconhecíveis aos gaúchos e, durante a projeção, tem explorações singulares dos espaços. O Ato Noturno ─ um título que joga luz sobre as diversas camadas de sua narrativa ─ é um filme que usa o ambiente geográfico, artístico e político de Porto Alegre para navegar o gênero thriller e construir uma visão própria dentro deste”.

“Ato Noturno” tem cenas cenas filmadas em locais emblemáticos da Capital, como a Redenção | Crédito: Divulgação/Vulcana Cinema

Crítica gaúcha, Natália Moraes, do portal Não Alimente os Zumbis, que viu o título na 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em outubro, compartilha da ideia: “Porto Alegre é tratada como um corpo vivo, tão personagem quanto os próprios protagonistas”.

Para ela, a cidade se materializa em Matias, um ator talentoso assumidamente homossexual, e Rafael, um jovem político que esconde sua sexualidade. “Essa contraposição funciona como uma metáfora direta da nossa Capital: plural, diversa e pulsante, mas atravessada por um conservadorismo ainda muito presente entre parte de seus moradores e governantes. Pode parecer estranho para quem observa de fora, mas quem conhece Porto Alegre reconhece imediatamente essa contradição.”

Uma das produtoras da Vulcana, Paola Wink lembra que Marcio e Filipe são diretores que gostam bastante de filmar a cidade, o que ela julga que eles fazem muito bem. “Esse longa não foi diferente, tínhamos muitas externas, noturnas. E filmamos em outubro de 2023, foi o mês com muitas chuvas, até chegou a subir a água no muro da Mauá. Então, foi um desafio, tivemos que adaptar o plano de filmagem.”

Uma dessas externas à noite foi na sede campestre da Associação de Pais e Mestres do Colégio Marista Nossa Senhora do Rosário (Apamecor), no Morro São Caetano, na zona Sul de Porto Alegre (bairro Teresópolis), região que fornece uma vista diferenciada da Capital, e é explorada no longa.

Sobre o lançamento nas salas, a produtora destaca que as expectativas são boas, “com uma campanha de lançamento da Sessão Vitrine Petrobras super bem pensada pro filme, ingressos com preço acessível e várias sessões com debates dos diretores e elenco em cinco cidades”. Wink avalia ainda: “Sabemos do desafio de levar o público ao cinema, mas acreditamos no potencial do filme e também no bom momento do cinema brasileiro. Além disso, os diretores já possuem um público que acompanha o trabalho deles”.

Na estreia, haverá exibições especiais abertas ao público, em Porto Alegre, com a presença dos diretores. A primeira sessão acontece na quinta-feira (15), na Cinemateca Paulo Amorim, às 19h, e a segunda, na sexta-feira (16), na Cinemateca Capitólio, às 19h, quando terá uma retrospectiva da carreira deles. Vale ressaltar que a capital gaúcha não é só uma personagem no longa, como cidade natal da dupla de cineastas.

Premiações reconhecem título, gênero e mensagem da obra 

Aclamado pela crítica desde estreia em Berlim, filme de Matzembacher e Reolon chega aos cinemas no dia 15 de janeiro | Crédito: Divulgação/Vulcana Cinema

Matias (Gabriel Faryas) é um ator ambicioso que integra uma companhia teatral em Porto Alegre. Quando surge a notícia de que uma grande série de TV será filmada na cidade, a rivalidade com Fábio (Henrique Barreira), colega de cena e de apartamento, se intensifica: ambos desejam o papel que pode mudar suas trajetórias.

Fora do palco, Matias se envolve com Rafael (Cirillo Luna), que mais tarde revela ser um político em ascensão. Com ambição e desejo se cruzando, os dois passam a viver sob constante vigilância, divididos entre a construção de suas imagens públicas e seus desejos que agora precisam permanecer escondidos. Conjugando o teatro, a política e a noite, Ato Noturno acompanha personagens presos a diferentes formas de encenação, numa jornada de erotismo e perigo.

Foi esta intrincada trama que levou à seleção da produção para a premiére mundial no Festival de Berlim, passando, depois, por vários continentes em diversos festivais, principalmente em eventos reconhecidos como queer

A obra foi ainda um dos grandes destaques da edição 2025 do Festival do Rio, quando levou três Troféus Redentor: Melhor Ator para o estreante em longas Gabriel Faryas, Melhor Roteiro para Matzembacher e Reolon e Melhor Fotografia para Luciana Baseggio (exatamente os mesmos troféus recebidos no 20° Festival Aruanda, mais recentemente, em dezembro, em João Pessoa). Além disso, a produção ainda foi eleita, no Rio de Janeiro, o Melhor Filme do Prêmio Felix, dedicado a obras com temática LGBTQIAPN+. 

“Por mais que o filme se enquadre nesse gênero de neo noir e um thriller erótico, que são gêneros mais ligados ao cinema norte-americano, um consenso que a gente tem ouvido bastante é como conseguimos pegar esses gêneros e fazer deles algo contemporâneo, queer e muito brasileiro. Um neo noir subtropical”, reflete o cineasta Marcio Reolon.

“O Brasil é isso: a gente vive rodeado por essas potências de desejo, violências e essa política atravessando as nossas vidas o tempo todo”, complementa o codiretor Filipe Matzembacher.

Cinema e território

Embora tratem de experiências universais, todos os longas dos diretores até aqui foram ambientados em alguma região do estado do Rio Grande do Sul. Beira-Mar foi rodado majoritariamente no litoral, enquanto os demais foram filmados na capital gaúcha, inclusive este com lançamento no Brasil em 15 de janeiro, consolidando a ligação dos realizadores audiovisuais com suas origens.

As criações da dupla sempre envolvem muito interesse da cena local, principalmente depois do sucesso que foi a obra anterior, Tinta Bruta. A produtora Paola Wink confirma que o título desse novo projeto foi alterado, inicialmente era A solidão dos jovens atores (e a reportagem apurou que, em um momento anterior, ele chegou a se chamar somente Matias). 

“Expor aquilo que se tenta reprimir”

Para a crítica Natália Moraes, o longa foi um dos melhores que assistiu na 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em outubro de 2025: “Ato noturno é perfeito (como título). Vai entrar na listinha 2026 de Top 5, com certeza”.

Ela destaca que o filme usa o sexo para expor aquilo que se tenta reprimir: “‘atos noturnos’ mantidos em espaços privados, sufocados pelo medo e pela repressão, mas que são ultrapassados pelos protagonistas ao levarem esses desejos para o voyeurismo e para o sexo em ambientes públicos”.

“É por meio do desejo que os diretores, que definiram o longa, durante a exibição na 49ª Mostra de São Paulo, como uma mistura de suspense erótico e noir queer, mostram o quanto a comunidade LGBTQIA+ ainda é obrigada a esconder aquilo que é, justamente, lindo”, conta Moraes.

Editado por: Marcelo Ferreira

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