MEMÓRIA CULTURAL

Clube de Cultura lança plataforma com acervo digital na próxima terça-feira (3)

O acesso público será acessível e gratuito a sete décadas de história artística e cultural

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Centenas de documentos digitalizados serão disponibilizados na plataforma
Centenas de documentos digitalizados serão disponibilizados na plataforma | Crédito: Divulgação

Na próxima terça-feira (3) acontecerá o lançamento da Plataforma de Memória do Clube de Cultura. Correspondências, fotografias, cartazes, registros de eventos e documentos diversos ficarão disponíveis em uma plataforma online, livre, acessível e gratuita, garantindo o acesso público a décadas de história e memória cultural.

O evento será as 19 horas, na sede do Clube de Cultura, rua Ramiro Barcelos, 1953. A informação é da presidenta da entidade, Carolina Baumann, que, em entrevista ao Brasil de Fato RS, contou um pouco da história daquele clube que serviu de abrigo para estudos e discussões, peças de teatro e outras criações artísticas nos últimos 76 anos na capital dos gaúchos.

Carolina, a primeira presidenta mulher do Clube de Cultura, como gosta de salientar, disse que este projeto existe graças ao Edital nº 31/2024 da Política Nacional Aldir Blanc, da Secretaria de Cultura (PNAB/Sedac) e foi executado durante o ano de 2025. “Estamos finalizando as ações de um projeto que fomos contemplados no finalzinho de 2024. Ele foi desenvolvido durante um ano e acaba agora. É um projeto que trabalha com o acervo físico do clube que foi digitalizado, organizado, catalogado”, conta.

Conforme ela, um dos principais produtos desse edital é uma plataforma que vai ficar para consulta de toda a documentação do Clube de Cultura. Estará à disposição para qualquer um consultar. Desde o curioso até a pessoa que pesquisa e estuda arte e cultura. “A partir de agora haverá uma equipe permanente no Clube para receber pessoas que tiveram atividades ou qualquer relação com a entidade e quiserem doar ou, até mesmo, emprestar documentos e materiais diversos para serem digitalizados e disponibilizados.”

Para este ano de 2026 ela anunciou um projeto via Lei Rouanet para a reestruturação não só do auditório Henrique Scliar, mas para revitalizar toda a sede. “O auditório vai ganhar um perfil de uma sala multiuso onde vai poder ter teatro, show, ensaio e cinema também”, anuncia Baumann, lembrando que a autoria do projeto é de César Dorfmann, um dos sócios do Clube que esteve presente na reunião de fundação ainda quando criança.

O Clube de Cultura

César Dorfmann conta em um artigo publicado no site do Clube de Cultura a história da fundação. “No dia 5 de maio de 1950 um grupo de pessoas se reúne na sala de uma casa na avenida Protásio Alves, em Porto Alegre. Objetivo: oficializar algo que já vinha sendo planejado há um bom tempo, a criação do Clube de Cultura. Curioso constatar hoje, como prova das mudanças sociais, que mesmo sendo aquele grupo formado por intelectuais progressistas, quase todos casados, só haviam homens naquela reunião. Eu tinha 9 anos e, sempre com as antenas levantadas, atento, ouvia meus pais, tios, amigos deles, em encontros em nossa casa, falando, trocando ideias, discutindo.”

O Clube de Cultura serviu de abrigo para estudos e discussões, peças de teatro e outras criações artísticas nos últimos 76 anos na capital dos gaúchos | Foto: Divulgação

Segundo Dorfmann, aquele grupo estava pensando em criar um local onde a arte e a cultura, além do que eles chamavam de “progressismo”, pudessem ser acolhidos e desenvolvidos. Conheciam experiências de instituições similares a esta que agora estavam criando, narradas pelos mais velhos, emigrantes, constituídas na Europa Central por descendentes de judeus, intelectuais, e que não encontravam nas sinagogas, o local de sociabilidade dos Guetos, o ambiente favorável. Agora no Brasil, Porto Alegre, a história se repetia.

“Haviam criado, em sala cedida por uma sinagoga, uma pequena biblioteca, nela agrupando intelectuais para estudos, troca de ideias. Acabaram, aos poucos, sendo hostilizados e finalmente excluídos. A saída: a criação de espaço próprio. Já, por esta época, existiam no Brasil e em alguns países da América do Sul experiências deste tipo que eram também do conhecimento do grupo. Na sequência, algum tempo depois desta primeira reunião oficializada, com o grupo aumentado, foram eleitos, a Diretoria e o Conselho Deliberativo. Com cotização de todos foi alugada a velha casa na rua Ramiro Barcelos, 1853, e iniciado o caminho desta entidade que hoje é parte importante da história cultural da cidade. Após alguns anos a casa alugada foi comprada com cotização de um grupo de associados o que solidificou materialmente a ideia inicial, agora o Clube era uma realidade perene. Mais uns anos e se concretiza a operação exitosa em que se constrói edifício, entrando o Clube com o terreno e recebendo em troca o espaço da atual sede.”

Baumann complementa os dados históricos: seu pai, Hans Baumann, foi presidente durante muitos anos. Ele teve a sua vida praticamente dedicada para a cultura. “Ele e a companheira dele, a minha mãe Floripes da Rosa Baumann também. Depois que os filhos já estavam crescidos a mãe também trabalhou no Clube de Cultura. Ela pegou uma época, lá nos anos 1980, de muita escassez de atividades.

Com orgulho, ela conta que o Clube nunca fechou as portas, somente na pandemia, onde foi uma coisa involuntária. “Fora este período ele nunca fechou, mas foi uma época muito difícil e a minha mãe trabalhou lá para fazer a manutenção da sede que estava já começando a sentir os efeitos do tempo. Foi a minha mãe que revitalizou ali uma das salas do Clube que virou e ainda é até hoje a sala de exposições André Paulo Frank. Ele é um dos fundadores do Clube de Cultura.”

Ela lembra que seu pai foi militante do Clube durante toda a vida dele até o final e sua mãe também. “O que acabou me levando para lá também. Iniciei ainda criança, e aí comecei a me interessar.”

A intelectualidade de Porto Alegre frequentava o Clube. Hans Baumann lembra em um discurso na Câmara Municipal que o início do Clube de Cultura foi modesto, em uma pequena casa promovendo no âmbito das letras com Aparício Torelly, o Barão de Itararé, Graciliano Ramos e Jorge Amado. Nas artes plásticas, exposições e debates com os membros do Clube da Gravura, como Carlos Scliar, Danúbio Gonçalves e Vasco Prado entre outros.

O Clube também foi pioneiro no ensino de artes plásticas para crianças nos anos de 1950. Na mesma época formaram o próprio coral. A instituição tornou-se viável com a construção do Condomínio Clube de Cultura, na rua Ramiro Barcelos 1853, inaugurado com apresentação da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre e palestra de Erico Verissimo.

Durante a ditadura foi um dos palcos da resistência no Rio Grande do Sul. O Clube teve Departamento de Teatro, com elenco próprio e importantes encenações, destacando-se a recuperação de importante autor gaúcho em memorável montagem com repercussão nacional – Qorpo Santo. Grupos de fora também se apresentaram, entre eles o Teatro de Arena de São Paulo, o CPC da UNE e grupos argentinos e uruguaios.

O espaço também acolheu diversos grupos que, em diversas épocas, basearam no Clube suas atividades: a Frente Gaúcha de Música Popular; a Compor – Cooperativa dos Músicos de Porto Alegre; Grafar- Grupo de Cartunistas; Clube de Cinema; e muitos outros. Grandes personalidades nacionais fizeram palestras em diversas épocas: Jorge Amado, Graciliano Ramos, Vinicius de Moraes, Ciro Martins e Dyonelio Machado.

Editado por: Katia Marko

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