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Da guerra híbrida à força aberta: a escalada da intervenção imperialista na Venezuela

Perseguição à Revolução Bolivariana serve de alerta para cada nação que pretende trilhar caminhos próprios

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Manifestante segura cartaz com os dizeres: “Trump, tire suas patas da Venezuela”, durante ato do MST em Salvador (BA).
Manifestante segura cartaz com os dizeres: “Trump, tire suas patas da Venezuela”, durante ato do MST em Salvador (BA). | Crédito: Larissa Lopes/MST

Da fracassada Operación Gedeón, em 2020, ao sequestro do presidente Nicolás Maduro, em janeiro de 2026, é possível traçar uma linha de continuidade inescapável na ação dos Estados Unidos em relação à Venezuela.

Longe de episódios isolados ou respostas conjunturais a desavenças políticas, esses eventos demarcam as etapas de uma mesma estratégia estrutural: a política de mudança de regime como pilar da hegemonia estadunidense na América Latina. Esta política, inserida na lógica do imperialismo e sua necessidade de controle geopolítico sobre territórios e recursos estratégicos, caracteriza-se pela violação sistemática da soberania nacional e pela instrumentalização de um amplo espectro de coerções políticas, econômicas, jurídicas, midiáticas e militares.

A Gedeón e a arquitetura da Guerra Híbrida

A Operación Gedeón representou a face mais visível da guerra híbrida em seu estágio inicial de intervenção indireta. Ao utilizar uma força composta por ex-militares venezuelanos desertores e mercenários ligados a empresas privadas de segurança dos EUA, a ação buscou criar um fato político-militar que atuasse como uma “cunha” para uma escalada maior ou para uma implosão institucional.

A operação, embora rudimentar e fracassada, revelou os pilares da nova arquitetura intervencionista: a terceirização da violência como mecanismo de negação plausível, a captura de setores da oposição para lhes dar uma vertente armada e o uso do discurso da “restauração da democracia” como cortina de fumaça ideológica.

Este método, uma atualização das táticas da Guerra Fria, insere-se em uma tradição latino-americana onde invasões e ações clandestinas, como as que derrubaram Jacob Arbenz na Guatemala (1954) ou João Goulart no Brasil (1964), são apresentadas como iniciativas “internas” ou “autônomas”, ocultando o papel ativo do imperialismo.

Reconfiguração do cerco: sanções como arma de destruição em massa

O fracasso tático da Gedeón não implicou o abandono da estratégia, mas sim sua reconfiguração para formas de pressão não cinéticas, porém igualmente letais. Os anos seguintes testemunharam a intensificação do cerco por meio de um pacote de medidas conhecido como “máxima pressão”: sanções unilaterais e secundárias, bloqueio financeiro asfixiante, perseguição a ativos no exterior, isolamento diplomático e a judicialização internacional, com a instrumentalização de organismos como o Tribunal Penal Internacional.

Estas medidas, chamadas por alguns de “sanções inteligentes”, funcionaram na prática como uma guerra econômica total, um bloqueio naval do século 21. Seu objetivo declarado era forçar uma mudança de governo; seu efeito real foi a criação de uma crise humanitária induzida, com impactos profundos sobre a economia e as condições de vida da população venezuelana.

Ao transferir o sofrimento para a sociedade civil, Washington buscou gerar um desgaste que levasse a uma ruptura institucional “orgânica”, poupando-se dos custos políticos de uma invasão. Tratava-se, portanto, de uma forma de guerra não declarada, que combinava a precisão cirúrgica do discurso com a brutalidade difusa de seus efeitos.

2026: o salto qualitativo e a ruptura da ordem internacional

Nesse contexto, o sequestro de Nicolás Maduro em 2026 não pode ser compreendido como um ponto fora da curva, mas sim como um salto qualitativo na ofensiva imperialista. Ao capturar um chefe de Estado em exercício, em território soberano, e transferi-lo à força para os Estados Unidos para ser submetido a um tribunal doméstico, Washington rompeu abertamente com qualquer mediação jurídica ou diplomática.

A ação afirmou a primazia da força bruta sobre o direito internacional, revelando o esgotamento das formas indiretas de pressão e a disposição de recorrer à intervenção direta quando os mecanismos de asfixia falham em produzir a rendição esperada.

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Esta operação escancarou o caráter extraterritorial e imperial da jurisdição norte-americana, que se arroga o direito de julgar o mundo com base em leis como a Lei Helms-Burton. Ao fazê-lo, os EUA reafirmaram uma lógica colonial do século 19, na qual certas nações são tratadas como protetorados ou entidades subordinadas, incapazes de exercer plenamente sua soberania.

A reação internacional, ainda que marcada por ambiguidades de potências que oscilam entre a defesa da norma e seus próprios interesses, revelou o profundo impacto desse gesto sobre a ordem global. O sequestro de Maduro não foi apenas um ataque à Venezuela, mas um ataque ao princípio da não intervenção e da igualdade soberana entre os Estados, pilares do sistema de Westfália e da Carta da ONU, agora explicitamente violados pela potência que ajudou a redigi-los.

A singularidade venezuelana na tradição intervencionista

Do ponto de vista histórico, a ação dos EUA contra a Venezuela insere-se em uma longa tradição que remonta à Doutrina Monroe (1823) e ao “Destino Manifesto”. No entanto, a Venezuela ocupa um lugar singular nesse processo. Não se trata apenas de suas vastas reservas de hidrocarbonetos, que a colocam no centro da disputa energética global.

Desde o início do século 21, o país se constituiu como um símbolo de contestação à hegemonia norte-americana na região. O chavismo representa uma tentativa inédita de afirmação da soberania nacional, de integração regional autônoma (ALBA, UNASUL, CELAC) e de questionamento da ordem neoliberal.

A ofensiva contra Maduro, portanto, não se dirige apenas a um governo, mas a um projeto político, por mais complexo que possa parecer para um certo campo político que se diz progressista, que ousa desafiar a lógica de subordinação histórica da América Latina.

A Venezuela tornou-se, assim, um laboratório de métodos de dominação para o século 21. Nela, testam-se as ferramentas da guerra híbrida: a ciberguerra, a guerra jurídica (lawfare), a manipulação midiática em escala global, a cooptação de lideranças, o uso de ONGs como braços políticos e, finalmente, a força aberta.

O que se vê em Caracas é um ensaio geral do que pode aguardar outros países da região que ousem trilhar caminhos autônomos, um aviso político explícito em um contexto de crise do capitalismo global e de disputa crescente entre potências.

O antídoto na organização popular

Da Operación Gedeón ao sequestro de Maduro, o que se observa é a reafirmação do imperialismo como prática concreta, que combina violência, coerção econômica, guerra jurídica e, em última instância, intervenção militar.

Estes episódios revelam a disposição dos Estados Unidos em impor seus interesses pela força e expõem os limites da soberania nacional sob o capitalismo imperialista. Para a América Latina, a lição é dupla: a luta pela soberania nacional é indissociável do enfrentamento ao imperialismo, e nenhum processo político que desafie essa ordem estará imune à intervenção externa.

As agressões contra a Revolução Bolivariana seguem à risca o manual das guerras híbridas: começam com a desestabilização política, midiática e lawfare, avançam para a asfixia econômica por meio de sanções criminosas e, quando necessário, escalam para a operação militar direta. No entanto, a história já demonstrou que o antídoto contra essas táticas não está em acordos com as elites golpistas nem na ingênua esperança de que, de repente, “pintou uma química” com o imperialismo e sua suposta “boa vontade”.

A única defesa verdadeiramente eficaz, ainda que complexa, cheia de desafios e contradições, continua sendo a organização popular, o elevado nível de consciência política e a capacidade de resistência ativa, que se expressa na construção de zonas de maior controle popular, de forma criativa e coletiva, para defender não apenas um governo, mas o próprio direito de existir como nação soberana.

Mais do que resistir, é preciso aproveitar a conjuntura para avançar de forma estruturada nas relações soberanas com outras nações, fortalecendo alianças estratégicas baseadas em projeto nacional. Nesse contexto, a solidariedade internacionalista deixa de ser um mero gesto simbólico de apoio, uma nota de repúdio, uma bandeira erguida em uma marcha  e se transforma em trincheira fundamental na luta pela soberania e libertação nacional dos povos.

Ela se materializa no apoio concreto às experiências de resistência, na denúncia ativa dos mecanismos de dominação imperialista e na articulação de uma rede global de proteção aos processos que ousam desafiar a ordem vigente. Mais do que um ato de generosidade entre nações irmãs, a solidariedade internacionalista é uma arma estratégica: quanto mais se expande a consciência sobre a luta do povo venezuelano, mais se fortalecem as barreiras contra a intervenção externa e mais se multiplicam os focos de resistência em outras partes do mundo.

A Venezuela, nesse sentido, não luta sozinha. Sua causa é a causa de todos os povos que aspiram à autodeterminação, que recusam o papel de colônia e que compreendem que a libertação nacional, no século 21, só se completa na articulação internacional dos oprimidos.

O sequestro de Maduro, a perseguição à Revolução Bolivariana e o cerco imperialista contra a Venezuela são, ao mesmo tempo, um ataque direto e um alerta para cada nação que pretende trilhar caminhos próprios. Por isso, responder com solidariedade ativa, com mobilização, com pressão política, com construção de alianças, não é apenas apoiar um povo irmão; é defender a própria possibilidade de um mundo multipolar, justo e soberano.

A solidariedade internacionalista, assim, deixa de ser gesto e se torna movimento. Deixa de ser discurso e se converte em ação coordenada. Deixa de ser esperança distante e se materializa como trincheira aberta na luta global pela emancipação dos povos.

*Beto Palmeira e Tairi Felipe são militantes do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA).

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Clivia Mesquita

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