Em um cenário internacional marcado por guerras, crises humanitárias e o aprofundamento das desigualdades sociais, o Brasil está recebendo a visita do ministro geral da Ordem dos Frades Menores (OFM), frei Massimo Fusarelli. A partir deste domingo (19) ele estará no Rio Grande do Sul e o Brasil de Fato vai acompanhar parte das atividades.
A presença do principal dirigente da ordem franciscana no estado, entre os dias 19 e 21 de abril, ocorre em meio a um momento histórico de tensões globais e reforça a atualidade da mensagem de São Francisco de Assis: a construção da paz a partir da justiça, da partilha e do compromisso com os mais pobres.
A visita integra uma agenda internacional iniciada após a Páscoa, que já levou Fusarelli a diversos países da América Latina. O objetivo é percorrer as províncias franciscanas ao redor do mundo até 2027, quando será realizado o Capítulo Geral da ordem, no Vietnã – espaço decisivo de avaliação e definição dos rumos da missão franciscana.
Jubileu, memória e compromisso com o presente
No Rio Grande do Sul, a visita acontece em um contexto simbólico e profundamente político para os franciscanos. O ano de 2026 marca três importantes marcos históricos: os 800 anos da morte de São Francisco, os 100 anos da chegada dos frades holandeses ao estado e os 50 anos de autonomia da Província São Francisco de Assis.
Mais do que celebrações, os jubileus são entendidos como um chamado à memória viva e à atualização do compromisso com os territórios e os povos.
Segundo o ministro provincial, Frei Olávio Dotto OFM, a presença de Fusarelli representa um momento de articulação internacional da ordem diante dos desafios contemporâneos, inserindo a visita em um esforço global de escuta, unidade e reorganização da missão franciscana.
“Mais ordem, menos província”: unidade para enfrentar as crises
Diante de um mundo fragmentado por conflitos, nacionalismos e exclusões, a ordem franciscana tem reafirmado a necessidade de fortalecer sua dimensão internacionalista e missionária.
“O Ministro Geral sempre tem dito: ‘Mais ordem, menos província’. Ou seja, essa abertura que ele nos chama a termos para a dimensão missionária de toda a ordem”, afirma Frei Dotto.
A expressão sintetiza uma crítica à lógica do isolamento institucional e aponta para uma prática comprometida com a solidariedade entre os povos e a presença ativa em realidades marcadas por injustiça social.
“Podemos estar aqui no Brasil assim como podemos trabalhar em outros continentes, outras realidades desafiadoras.”
Espiritualidade e militância pela paz
Historicamente ligada à defesa dos pobres, à promoção da justiça social e à construção de alternativas ao modelo econômico excludente, a tradição franciscana ressurge, neste contexto, como uma referência ética e política diante da crise civilizatória em curso.
Para os frades, a espiritualidade não se dissocia da ação concreta. Ao contrário, se expressa como militância cotidiana pela vida, pela dignidade e pela paz. “É um contexto jubilar, onde a gente tem essa grata alegria de recebê-lo”, resume Frei Dotto.
A figura do ministro geral – conhecido como “Pai Seráfico” – carrega o papel de animar e articular essa missão em escala global. “Ele assume o lugar de São Francisco de Assis. É o animador de toda a ordem, de toda a missão, de toda a vida dos frades.”
Em tempos de aprofundamento das desigualdades, colapso ambiental e violência, a visita de Fusarelli ao Brasil reacende um chamado que atravessa séculos: “reconstruir a paz a partir de baixo, com os pobres, em defesa da vida e contra todas as formas de opressão”.
Franciscanos na linha de frente dos conflitos e apelos globais por paz
A presença franciscana em territórios marcados por guerras e ocupações segue sendo um dos testemunhos mais concretos da opção histórica da ordem pela paz com justiça.
No Oriente Médio, o cardeal Pierbattista Pizzaballa, patriarca latino de Jerusalém, tem atuado diretamente em meio à escalada de violência na região. Em meio aos conflitos recentes, Pizzaballa chegou a se colocar à disposição para possíveis trocas humanitárias e tem feito constantes visitas a comunidades atingidas, denunciando a crise humanitária e defendendo o cessar-fogo.
Sua atuação expressa uma tradição franciscana que não se limita à mediação simbólica, mas se insere concretamente nos territórios em disputa, ao lado das populações mais vulnerabilizadas.
Papa desafia mudanças de atitude para construção da paz
No mesmo sentido, o papa Leão 14 tem intensificado seus apelos pela paz mundial, denunciando a “terceira guerra mundial em pedaços” e convocando a comunidade internacional a romper com a lógica da guerra e da indiferença.
Em pronunciamentos recentes, o pontífice voltou a pedir o fim imediato dos conflitos armados, o respeito ao direito internacional e a construção de saídas diplomáticas que coloquem a vida acima de interesses econômicos e geopolíticos.
Em um mundo atravessado por guerras, a atuação de lideranças religiosas e movimentos comprometidos com a justiça social recoloca no centro do debate a urgência de uma paz construída com dignidade, diálogo e solidariedade entre os povos.

Serviço:
19 de abril: Chegada ao RS, celebração e encontro com as Irmãs Clarissas, encontro com os frades ligados a formação e vocações, encontro com as lideranças das paróquias franciscanas, com a Jufra, OFS e Família Franciscana, na Paróquia São Francisco em Porto Alegre. Às 19h será realizada Missa na Paróquia São Francisco seguida de confraternização no salão da paróquia.
20 de abril: Encontro com os frades da Província no Seminário de Santa Cruz do Sul.
21 de abril: Encontro com o Definitório provincial em Porto Alegre.
