O assessor especial da presidência brasileira, Celso Amorim, participou do Fórum Internacional de Segurança de 2026 em Moscou nesta semana. Além de ter se reunido com algumas das principais autoridades do governo russo, Amorim concedeu uma entrevista exclusiva ao Brasil de Fato na qual comentou os conflitos atuais e questões de soberania brasileira.
O tema inclusive ficou em alta nos últimos dias após o governo dos Estados Unidos ter classificado o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. Amorim foi um dos primeiros a reagir à divulgação em nome do governo brasileiro.
Em discurso, o assessor afirmou que “outra grave ameaça à segurança [brasileira] é o crescimento do crime organizado. O governo brasileiro está agindo decisivamente para desmantelar redes criminosas, inclusive aumentando as penalidades legais e trabalhando em estreita colaboração com as autoridades locais para reforçar suas capacidades. O crime organizado deve ser combatido com o máximo de energia e determinação. Equiparar o crime organizado ao terrorismo, no entanto, não é útil. Compreender as motivações é essencial para a eficácia do combate a todos os tipos de crime.”
Na entrevista ao Brasil de Fato, sobre o atual estado da relação com o país, ele crê que haja um estreitamento, mas “também falei francamente com os russos. O maior déficit comercial que o Brasil tem é com a Rússia. Então, isso tem que mudar”. Por outro lado, politicamente, “há uma grande reaproximação. Há 11 anos […] não havia reunião de alto nível [da Comissão de Alto Nível Brasil-Rússia].”
Em relação aos diversos ataques de Washington pelo mundo, Amorim expôs a condenação do governo brasileiro à invasão da Venezuela, à guerra contra o Irã e se mostrou muito preocupado com a situação em Cuba: “Eu acho que uma solução de força não vai dar certo e vai implicar em muita morte, muito sofrimento”.
Amorim relembrou, com detalhes, a tentativa brasileira e turca de mediar um acordo nuclear com o Irã em 2010, a pedido do então presidente estadunidense Barack Obama, e lamentou que não se tenha chegado a um acordo na época: “Podiam ter criado uma comissão para acompanhar o cumprimento do acordo, se surgissem algumas dúvidas, mas tudo o que nos foi pedido em relação ao Irã foi obtido“.
Por fim, o chanceler dos dois primeiros mandatos do presidente Lula e ministro da Defesa da presidente Dilma Rousseff levantou um debate fundamental para o Brasil — em meio à ofensiva imperialista de Washington e à remilitarização de países como Alemanha e Japão — sobre o que é preciso para defender nossa soberania: “Você tem que ter capacidade dissuasória. Eu acho que isso é o mínimo para você atuar nas relações internacionais. É muito bom ser pacifista, é muito bom procurar o diálogo, mas ter um apoiozinho na hora do vamos ver”.
Confira a entrevista completa:
Brasil de Fato: Em junho do ano passado, logo após os primeiros bombardeios dos EUA contra o Irã, na Guerra dos Doze Dias, o senhor deu uma entrevista ao vivo na TV e disse: “A ordem internacional acabou”. Depois daquilo, já tivemos os assassinatos extrajudiciais de pessoas em barcos pesqueiros no Caribe, a invasão da Venezuela, mais uma guerra contra o Irã, e Cuba pode ser a próxima. Como o Brasil está reagindo a isso?
Celso Amorim: O presidente Lula tem como base a ideia do diálogo. Você acabou de ver que, apesar de tudo que aconteceu antes, recebeu um convite para os Estados Unidos. Foi lá, conversou, estamos conversando sobre comércio, podemos conversar sobre outros aspectos.
Eu acho que o presidente Trump foi muito respeitoso no diálogo conosco. Isso é uma coisa positiva. Agora, indiscutivelmente, nós condenamos o que ocorreu na Venezuela e estamos muito preocupados com Cuba, muito mesmo. Eu comentei algo, acho que com o Lavrov: “Nós estamos aqui em Moscou. A Cuba comunista já tem quase o mesmo tempo que existiu a União Soviética. E a União Soviética é a marca do século 20”. Então, é uma coisa muito dramática.
Já tentaram de tudo, fizeram boicote, embargo. Eu não sei o que mais podem tentar. Eu acho que será muito difícil tentar conseguir uma coisa [como na Venezuela]. Eu também não esperava que acontecesse o que ocorreu na Venezuela, mas acho que em Cuba ainda é mais difícil.
Eu acho que, embora possa haver insatisfação com a situação econômica, com outros aspectos também — eu não estou defendendo o sistema —, Cuba poderia evoluir, mas eu acho que uma solução de força não vai dar certo e vai implicar em muita morte, muito sofrimento. E eu acho que Cuba tem um lado simbólico na América Latina, mesmo para os países que não concordam com o regime.
Também não há uma percepção de que eles estão over-extending, não a capacidade militar, que todo mundo sabe que é enorme, mas até a capacidade política de mobilização. Tem um filme que eu vi quando era criança, era um filme estadunidense, chamava “Um Fio de Esperança”. Era um avião que estava ameaçado. Então, quando houver um fio de esperança, a gente tem que trabalhar e ir nele. Antigamente, eu falava em “brecha”, mas hoje as brechas já estão muito curtas, então tem que ir em um fio de esperança.
E o presidente Lula falou sobre Cuba com o Trump nessa última visita?
Ele falou da preocupação. Eu não estava na reunião, então não sei. Também não fiquei perguntando. Mas, pelo que ele comentou, acho que manifestou a preocupação.
Como o senhor avalia hoje a posição do Brasil na guerra que os EUA e Israel provocaram contra o Irã? Porque o Brasil já tentou mediar esse conflito entre o Ocidente e o Irã há muitos anos, como o senhor narra no seu livro “Teerã, Ramalah, Doha”, né?
Essas questões todas dependem muito das circunstâncias. Por exemplo, hoje, quem está ativo nisso é o Paquistão, que só costumava tratar do interesse dele. Eu acho isso muito positivo e até elogiei no meu discurso. Claro que ele também participava da ONU e do G77. Não estou querendo diminuir a importância, mas ele nunca tinha se colocado como mediador nesses conflitos. Tem lá o problema dele, que a gente sabe, sobretudo com a Índia.
Agora surgiu um momento em que eles estão conversando. Eu acho que o Qatar está voltando para uma conversa, que é algo muito importante também. Obviamente, não conheço detalhes, mas acho que isso dá alguma esperança. Vamos torcer para que funcione. Sabe, também não precisa ser o Brasil. A gente está interessado na paz.
Aliás, no caso que o presidente Lula sempre menciona na Declaração de Teerã [a tentativa de mediação do Brasil junto com a Turquia em 2010], foi o Obama que pediu. O que eu não entendo é a mídia brasileira dizer: “Por que o Brasil se meteu?”. O Brasil não se meteu. O Obama pediu com três expressões, escreveu assim: 1) O maior problema hoje no mundo é o programa nuclear iraniano; 2) eu estendi a minha mão e não fui correspondido; e 3) eu preciso de amigos que falem com quem eu não posso falar.
Essas três frases já bastavam, né? E, para não restar dúvida, ele mandou para conversar comigo o Bill Burns [que viria a ser vice-secretário de Estado de Obama] e que depois foi diretor da CIA no governo Biden. Eu era ministro das Relações Exteriores. Depois, o [Mahmoud] Ahmadinejad [presidente iraniano na época] foi ao Brasil. Nós fomos mantendo uma conversa, alargando a confiança. E, no final, havia dúvida.
Houve um momento em que eu mesmo disse: “Presidente, acho que não vai dar, porque nós tivemos um encontro lá em Washington, com os turcos também, que foi muito negativo”. Aí, quando chego ao Brasil, nós tínhamos uma reunião dos Brics. No dia seguinte, eu abro uma cópia da carta do Obama para o Lula, reiterando exatamente os mesmos pontos. Aí eu falei: “Agora a gente tem que tentar”.
Claro que ainda havia uma diferença pequena de quantidade de urânio enriquecido, mas foi discutido e foi alcançado. Os franceses também nos fizeram apelo, porque tinha uma moça francesa presa. Nós tivemos uma conversa com o presidente [Nicolás] Sarkozy, talvez em Manaus — porque eles também se consideram da Amazônia [a Guiana Francesa é um “departamento francês de ultramar”, uma espécie de colônia da França] — e ele disse: “Mas eu não posso conversar com o Irã enquanto eles não soltarem”. Aí eu falei: “Mas, quando eles soltarem, vocês conversam imediatamente sobre o tema?”. Ele disse que sim, mas levaram mais de três meses para conversar.
Aí já tinham sanções. Enfim, isso tudo é passado. Mas isso mostra que é possível, com boa vontade, chegar a uma coisa que não é fácil, porque, claro que os países também são divididos. Às vezes um quer fazer, o outro não quer.
Mas por que não deu certo? Foi boicote dos EUA?
Eu acho que havia uma divisão nos Estados Unidos. Eu escrevi sobre isso, longamente. Mas já faz tempo. Tinha a midterm elections [eleições de meio de mandato para o Congresso e o Senado dos EUA]. A própria secretária de Estado [Hillary Clinton] era candidata a presidenta. Eu notava uma certa nuance, pelo menos, entre a secretária de Estado e o presidente. Enfim, havia uma série de coisas. O Irã também não era fácil. Levávamos as coisas, eles demoravam, voltávamos para trás etc. Mas, no final, acertou.
Agora, eu acho que há um outro fator que mais me surpreendeu em tudo. Claro que o que foi decisivo [para o fracasso] foi a atitude estadunidense. Quer dizer, tinham pedido, eles estavam querendo. Mas me surpreendeu, para falar a verdade, que todos os membros permanentes [do Conselho de Segurança da ONU] votaram a favor da resolução de imposição de sanções. E aí ficou na minha cabeça a ideia de que certos problemas, somente eles [é que podem resolver]. Especialmente na área nuclear, porque os P5 [os cinco membros do Conselho de Segurança] são também os N5. São os cinco países reconhecidos como potências nucleares pelo Tratado de Não Proliferação. Tem outros que têm, mas não são reconhecidos. É a Índia, o Paquistão, a Coreia do Norte, Israel.
Israel não reconhece que tem, né?
É ambíguo, né? Mas todo mundo sabe que tem. Se você falar, eles não negam.
Eu acho que eles consideram, de certa maneira, que a questão nuclear é o monopólio deles. Eu acho. É a única explicação que eu tenho. Porque eles deram uma vantagenzinha para a Rússia, uma vantagenzinha para a China, liberaram as exportações de petróleo do Irã para a China e para a Rússia permitiram terminar até uma usina nuclear — mas não de enriquecimento — em Bushehr. Só o Brasil e a Turquia votaram contra. Foi a única vez que o Brasil votou contra uma resolução que passou no Conselho de Segurança. E o Líbano se absteve.
Isso foi em que ano?
2010. Um mês e meio depois da declaração.
A primeira coisa que eu fiz, quando eu saí, eu falei com o Lavrov, rapidamente, telefonei para Teerã, e a primeira conversa longa que eu fiz foi com a Hillary. Ela tinha pedido. “Ah, não adianta, nós vamos continuar com o nosso pedido de sanções”.
Eu acho que aquilo foi um desastre. Não quero dizer que o Brasil podia melhorar, podia alguém entrar, complementar, porque tudo tem dúvidas, né? Você assina um acordo, mas não tem certeza de como é que vai ser cumprido. Podiam ter criado uma comissão para acompanhar o cumprimento do acordo, se surgissem algumas dúvidas, mas tudo o que nos foi pedido em relação ao Irã foi obtido.
Mas e quanto à situação do conflito hoje?
Eu não sei o que ocorrerá, mas eu acho que os objetivos inicialmente anunciados pelos Estados Unidos, pelo menos retoricamente — de levar o Irã para a Idade da Pedra — não vão se realizar. O Irã é uma civilização antiga, das mais antigas. Eu sempre cito que a primeira peça de teatro grego que existe começa com uma frase sobre a Pérsia.
Ninguém vai bombardear um país para que ele se torne uma democracia. Não é assim. É conversando, discutindo, percebendo as diferenças de culturas. Claro que nós também, em certas coisas, somos críticos. Seríamos críticos, mas respeitando a autodeterminação dos povos. Cada povo tem a sua evolução. Olhem para o Brasil de 50 anos atrás, como eram tratados indígenas, negros e tal, isso justificaria bombardear o Brasil? Não, a gente tem que evoluir.
O senhor mencionou a questão do Conselho de Segurança da ONU, como a Rússia apoia, inclusive, o ingresso do Brasil como membro permanente. O senhor acredita que há um estreitamento maior da agenda multilateral entre Rússia e Brasil a partir de Donald Trump?
Eu espero que sim. Eu estive com várias pessoas. Na realidade, todas que eram do meu interesse, com exceção do presidente Putin, que não pedi, mas deixei uma carta do presidente Lula para o Putin sobre a Bachelet.
Acho que há um estreitamento. Agora, também falei francamente com os russos. O maior déficit comercial que o Brasil tem é com a Rússia. Então, isso tem que mudar. Eu sei que a guerra levou a um aumento da autossuficiência, eles importavam carne e agora não importam. Nós importamos diesel e fertilizantes. Aliás, cada vez mais caro. Não por culpa deles, mas, de qualquer maneira, são mais caros. E a gente está exportando muito pouco.
Do ponto de vista político, há uma grande reaproximação. Há 11 anos, portanto desde o governo da Dilma, não havia reunião de alto nível [da Comissão de Alto Nível Brasil-Rússia], [liderada] pelo primeiro-ministro [russo] e o nosso vice-presidente. Nosso vice-presidente, agora, se desincompatibilizou do [ministério] da Indústria e do Comércio Então, era uma pasta grande. E o próprio presidente Lula foi ao almoço, para prestigiar. Em seguida, já houve uma reunião de nível técnico-político; o ministro do desenvolvimento deles foi ao Brasil, teve lá com a nossa ministra interina das relações exteriores.
Então, eu acho que é um momento muito propício para diálogo. O próprio Lavrov lembrou que, quando houve a invasão da Venezuela, o sequestro [do presidente Nicolás Maduro], quem pediu uma reunião dos Brics foi o presidente Lula.
Eu acho que é um momento bom da relação bilateral. Somos defensores da multipolaridade, mas também somos defensores da paz. Reconhecemos que, historicamente, a expansão da Otan mexeu com os nervos da Rússia, com razão, talvez, ou pelo menos compreensivelmente, mas também não queremos uma solução com mortes de muitos civis.
Então, por isso é que o Brasil e a China propuseram uma solução pelo diálogo. Antes de Trump se interessar por esse assunto, propusemos e criamos o Grupo de Amigos da Paz. Quem sabe não é a hora de nos valermos disso? Agora, obviamente, com as atenções concentradas no Irã, e, se for o caso — que eu espero que não seja —, em Cuba, tudo também fica difícil, porque nós estamos hoje já vivendo uma guerra mundial. Quer dizer, não é uma guerra mundial em que todas as armas estão sendo empregadas, mas não há nenhuma região livre.
Nem a América Latina, que é tão calma. Teve uma invasão da Venezuela. E a gente não sabe o que vai acontecer em Cuba. Isso é extremamente preocupante. E o Brasil tem que defender a sua soberania. Não pode ficar olhando isso: “Ah, conosco isso nunca vai acontecer, porque o Brasil é pacífico”. Não tem isso. Eu fui ministro da Defesa. O dia que precisarem, um ou outro, não quero acusar ninguém; a gente tem que ter uma capacidade de dissuasão. A herança que ficou do governo militar criou uma resistência muito grande, mas eles sabem disso.
Esse é um tema que está voltando com muita força no Brasil. A gente está vendo o caso do Irã. Muitos analistas concordam que os Estados Unidos estão perdendo a guerra, mas o Irã passou quase 40 anos se preparando para isso, desenvolveu as capacidades de defesa, dissuasão, mísseis, drones. Está na hora de o Brasil voltar, por exemplo, a discutir armas nucleares ou outras capacidades de dissuasão?
O Brasil botou na Constituição [a proibição de armas nucleares]. E eu acho que, hoje em dia, claro que arma nuclear é importante, ninguém nega, mas eu acho que tem meios de dissuasão importantes que o Brasil pode ter. Às vezes, as pessoas têm uma visão errada: “Ah, você não vai ter uma guerra com o país A ou B porque você vai perder a guerra”. Não é isso. É você ter capacidade de criar, digamos, um impacto, uma dor que seja suficiente para dissuadir.
Porque antes, quando afundavam um navio alemão e um inglês, o [Winston] Churchill [ex-primeiro-ministro do Reino Unido] ficava contando que morreram 200 ingleses, mas, em compensação, morreram 300 alemães. Hoje em dia não é assim. É totalmente diferente, porque quando os sacos de cadáveres começam a chegar não interessa que você está ganhando a guerra.
Se você for contar quantos vietnamitas morreram ou quantos americanos morreram, não tem comparação. Mas quem ganhou a guerra?
Então, eu acho o seguinte: a gente tem que ter uma capacidade de dissuasão. A gente tem que ter capacidade de dizer assim: “Eu não quero, e você, pela força, não vem. Vamos conversar, vamos dialogar.”
Isso pode ser sobre minerais críticos, isso pode ser sobre outro assunto qualquer. Temos que ter. E não é um país específico, é qualquer um. É porque o pessoal está mais acostumado com os Estados Unidos dominando lá, mas é qualquer um amanhã. Pode acontecer. Você tem que ter capacidade dissuasória. Eu acho que isso é o mínimo para você atuar nas relações internacionais. É muito bom ser pacifista, é muito bom procurar o diálogo, mas ter um apoiozinho na hora do vamos ver.
A China parou o Trump com as terras raras: “Não vendemos mais para vocês”. O Trump recuou na hora.
Agora o Irã parou os Estados Unidos, uma desproporção imensa. Então é isso: aumentar o custo de uma aventura intervencionista.
