Ao longo dos últimos anos, setores conservadores da política brasileira construíram uma operação conceitual e comunicacional que buscou associar valores como fé, família e pátria exclusivamente ao seu discurso. Essa percepção não foi construída a partir de entregas concretas para a população, mas da repetição sistemática de narrativas falsas, que transformaram adversários políticos, movimentos sociais, educadores, artistas, universidades, minorias e até instituições democráticas em supostas ameaças aos valores da sociedade.
Por meio da exploração do medo, da desinformação e da criação permanente de inimigos, consolidou-se a percepção de que a defesa da família, da fé e da nação seriam pautas da direita e que esses temas não ocupavam lugar central no projeto político do campo progressista.
A operação foi tão profunda que conseguiu transformar em bandeiras da direita valores cuja expressão mais concreta sempre esteve associada à ampliação de direitos, à redução das desigualdades e à construção de um projeto nacional de desenvolvimento. Ou seja, as lutas da esquerda.
Afinal, o que é defender a família senão combater a fome, o desemprego, o endividamento e a pobreza? O que é defender a fé senão garantir a liberdade religiosa e proteger a convivência entre diferentes crenças? O que é defender a pátria senão construir um projeto soberano de país, capaz de gerar oportunidades, ampliar direitos e melhorar a vida da população?
Durante anos, milhões de brasileiros foram levados a acreditar que suas famílias estavam sob ameaça permanente, que sua fé corria risco e que o país estava sendo tomado por inimigos internos. Essa narrativa produziu indignação, medo e senso de urgência. O problema é que, enquanto a população era mobilizada por ameaças muitas vezes imaginárias, os desafios reais continuavam presentes dentro de casa: a fome, o desemprego, o endividamento, a violência e a falta de perspectivas para os filhos. A disputa deixou de ser sobre a solução dos problemas concretos para se tornar uma batalha permanente contra inimigos cuidadosamente construídos pela retórica política.
Os movimentos mais recentes da política brasileira ajudam a revelar essa contradição. Pesquisas apontam redução da rejeição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva entre evangélicos e uma melhora gradual da percepção de parte desse segmento sobre o governo. Mais do que um dado eleitoral, o fenômeno sugere algo relevante para quem observa a comunicação política: quando o debate retorna para a realidade concreta da vida das pessoas, algumas certezas construídas nos últimos anos começam a perder força.
Política da vida real
A pergunta central, portanto, não é quem fala mais sobre família, fé e pátria. A pergunta é quem transforma esses valores em condições reais de vida, liberdade e futuro para a população. Nenhum pai ou mãe acorda preocupado com disputas ideológicas abstratas. As preocupações são muito mais concretas. Colocar comida na mesa. Pagar as contas no fim do mês. Garantir educação para os filhos. Conseguir atendimento de saúde quando necessário. Ter segurança para voltar para casa. É justamente nesse ponto que a política encontra a vida real. E é justamente nesse ponto que a defesa da família deixa de ser discurso e passa a ser uma questão de sobrevivência e dignidade.
Tomemos como exemplo a família, talvez o conceito mais presente na comunicação política brasileira da última década. Quando observamos aquilo que realmente ameaça as famílias, dificilmente encontramos os inimigos apontados pelos discursos de ocasião. O que desestrutura famílias é a fome. É o desemprego. É a pobreza e o endividamento. É a falta de acesso à saúde. É a evasão escolar. É a violência. É a ausência de perspectivas para os filhos.
Sob essa perspectiva, os fatos falam por si. O Brasil voltou a sair do Mapa da Fome da ONU ao registrar menos de 2,5% da população em situação de subalimentação. A pobreza caiu ao menor nível da série histórica iniciada em 2012. O país alcançou a menor taxa média anual de desemprego da série da PNAD Contínua (IBGE).
Milhões de brasileiros recuperaram renda, ampliaram sua capacidade de consumo e voltaram a planejar o futuro. Mais de 5 milhões de famílias deixaram o Bolsa Família desde 2023 após aumento de renda. Programas como o Pé-de-Meia contribuíram para reduzir o abandono escolar entre jovens de baixa renda. O fortalecimento do SUS, a ampliação da Farmácia Popular e a recuperação das coberturas vacinais ampliaram a rede de proteção social para milhões de famílias.
Foi graças a essas políticas que milhões de famílias voltaram a fazer planos, recuperaram renda, conseguiram manter os filhos na escola e retomaram uma sensação que parecia distante para boa parte do país: a esperança de que o futuro poderia ser melhor do que o presente. E poucas coisas são mais importantes para uma família do que a possibilidade de acreditar novamente no amanhã.
O mesmo processo ocorreu com a fé. Poucas dimensões da vida brasileira foram tão utilizadas como instrumento de mobilização política quanto a religião. Aos poucos, consolidou-se a percepção de que existiriam forças políticas mais comprometidas com a fé e outras supostamente distantes dela. Mas essa narrativa ignora um aspecto fundamental da própria experiência religiosa brasileira: sua diversidade.
O Brasil é uma das sociedades religiosamente mais diversas do mundo. Milhões de brasileiros expressam sua espiritualidade por diferentes tradições, crenças e formas de religiosidade. A convivência entre essa diversidade de manifestações não foi construída pela imposição de uma crença sobre as demais. Foi construída pela defesa da liberdade religiosa, pelas garantias constitucionais e pelo fortalecimento da democracia, pautas sempre defendidas com rigor pelo campo progressista.
A defesa do Estado laico jamais representou oposição à religião. Pelo contrário. Sempre foi a principal garantia de que diferentes manifestações de fé possam coexistir em liberdade, sem perseguições, privilégios ou interferências indevidas. Quando o campo progressista combate a intolerância religiosa, defende a liberdade de culto e protege comunidades historicamente alvo de discriminação, está defendendo justamente aquilo que torna possível a experiência religiosa em uma sociedade democrática: a liberdade.
Brasil soberano
Também é necessário resgatar o verdadeiro significado de pátria. Talvez nenhum conceito tenha sido tão reduzido nos últimos anos. Em muitos momentos, patriotismo passou a significar bandeiras, slogans e palavras de ordem. Mas uma nação não se fortalece pela intensidade de seus símbolos. Ela se fortalece pela capacidade de construir um projeto coletivo de futuro.
Uma pátria forte não é aquela que apenas exalta a si mesma. É aquela que reduz a fome, gera empregos, amplia oportunidades, fortalece sua educação, investe em ciência, desenvolve sua economia e melhora a vida do seu povo. O patriotismo que transforma uma nação não é performático. É concretude e política pública executada.
Por essa razão, a ideia de um projeto soberano de país sempre ocupou lugar central nas tradições progressistas. Um país soberano é aquele capaz de produzir conhecimento, fortalecer suas instituições, desenvolver sua capacidade produtiva, proteger seus recursos estratégicos, ampliar sua autonomia econômica e garantir oportunidades para sua população.
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Não existe soberania sem educação. Não existe soberania sem ciência. Não existe soberania sem desenvolvimento. Não existe soberania quando milhões de pessoas permanecem excluídas dos direitos mais básicos.
Foi justamente a partir dessa visão que o Brasil viveu alguns de seus períodos mais expressivos de inclusão social e desenvolvimento. A redução histórica da pobreza, a ampliação do acesso ao ensino superior, a expansão dos institutos federais, os investimentos em ciência e tecnologia, a valorização do salário mínimo, a geração de empregos e a retirada do país do Mapa da Fome não foram apenas políticas executadas. Foram expressões concretas de um projeto nacional que compreende o desenvolvimento como instrumento de fortalecimento da própria nação.
É justamente nesse ponto que fé, família e pátria voltam a se encontrar. Famílias precisam de direitos para viver com dignidade. A fé precisa de liberdade para existir plenamente. A pátria precisa de desenvolvimento para construir seu futuro. Nenhuma dessas condições surge espontaneamente. Todas dependem de escolhas políticas, investimentos públicos, fortalecimento democrático e compromisso com a redução das desigualdades.
Os fatos mostram que fé, família e pátria não são temas estranhos ao campo progressista. Pelo contrário. São prioridades de quem historicamente lutou para combater a fome, reduzir a pobreza, ampliar direitos, garantir liberdade religiosa, fortalecer a democracia e construir um projeto soberano de desenvolvimento nacional.
O desafio urgente deste ano eleitoral não é convencer o campo progressista a falar sobre fé, família e pátria. É comunicar à população que essas sempre foram prioridades de quem lutou para reduzir desigualdades, combater a fome, ampliar oportunidades, garantir liberdade religiosa e construir um projeto soberano de desenvolvimento nacional.
Reconstruir conexões e combater a desinformação
Os resultados existem. O problema é que, durante muito tempo, eles foram apresentados como números, programas e indicadores, enquanto seus adversários os transformavam em histórias, emoções e identidades. A política contemporânea não é apenas uma disputa sobre o que foi feito. É também uma disputa sobre o significado do que foi feito e como essa história é contada: estratégia de comunicação.
Mas talvez exista uma questão ainda mais profunda. Não basta fazer, nem apenas comunicar o que foi feito. Muitas vezes, falta o gesto profundo. Falta dizer às pessoas, de forma simples e sincera, que suas preocupações são legítimas. Que a angústia de um pai que teme pelo futuro dos filhos, a fé de quem encontra força na religião para enfrentar as dificuldades da vida e o orgulho de quem sonha com um país melhor merecem ser acolhidos e respeitados.
Os indicadores e resultados concretos são fundamentais e necessários, mas não têm leitura no popular, no coração. Porque a vida das pessoas também é feita de afetos, valores, crenças e pertencimento. Elas não querem apenas saber que uma política pública existe, querem sentir que alguém compreende seus medos, suas esperanças e seus sonhos.
A tarefa é justamente reconstruir essa conexão. Mostrar que combater a fome é um ato de amor às famílias. Que defender a liberdade religiosa é respeitar a fé que sustenta milhões de brasileiros em momentos difíceis. Que construir um país mais justo é acreditar que nossos filhos podem ter oportunidades melhores do que tivemos. Porque, no fundo, é disso que estamos falando: de pessoas, de cuidado e de esperança.
Também é verdade que, em alguns momentos, declarações de setores da esquerda foram exploradas para alimentar a percepção de que o campo progressista estaria em conflito com a fé e a família. Enquanto essas polêmicas ganhavam espaço no debate público, ficavam em segundo plano as políticas que efetivamente protegem famílias, ampliam direitos e melhoram a vida da população.
Foi nessa ausência de domínio de narrativa de comunicação direta e massiva das verdades, que muitas distorções prosperaram.
Por isso, enfrentar a desinformação exige mais do que checar fatos. Exige democratizar o acesso à informação, ocupar os espaços onde a opinião pública é formada e comunicar de forma clara como as políticas públicas impactam a vida das pessoas. Combater a fome é defender famílias. Garantir a liberdade religiosa é defender a fé. Construir um projeto soberano de desenvolvimento é defender a pátria.
É preciso fazer com que os brasileiros saibam, com clareza, quem combateu a fome, quem ampliou oportunidades, quem protegeu a liberdade religiosa, quem fortaleceu a educação, quem gerou empregos e quem trabalha pela construção de um país mais justo, desenvolvido e soberano. Porque fé, família e pátria não se defendem apenas no discurso. Elas se fortalecem quando as pessoas têm comida na mesa, liberdade para viver suas crenças, oportunidades para seus filhos e esperança no futuro.
A grande virada de chave para o campo progressista talvez seja compreender que a disputa não acontece apenas nas entregas, mas também na construção dos significados. Quem não comunica seus resultados permite que outros atribuam a eles narrativas diferentes da realidade. E foi exatamente assim que valores historicamente associados à ampliação de direitos, à redução das desigualdades e ao desenvolvimento nacional passaram a ser percebidos como propriedade de um único campo político.
Afinal, a disputa não é apenas por votos. É pela compreensão da realidade. E a verdade precisa voltar a ocupar o centro do debate público.
*Marcela Canéro é jornalista cultural, estrategista, mestranda e pesquisadora em Cultura e Territorialidades pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com especialização em Gestão Estratégica de Marketing.
**Paulo Loiola é estrategista político, sócio-fundador da BaseLab e fundador do PerifaLab, com ampla experiência em marketing político e consultoria para campanhas progressistas no Brasil.
***Este é um artigo de opinião e não representa necessariamente a linha editorial do Brasil do Fato.
