'El Tigre' caribenho

Abelardo de la Espriella largou ‘vida doce’ na Itália para ser o ‘Tigre’ da extrema direita: quem é o presidente eleito da Colômbia?

Inspirado na nova extrema direita latina, De la Espriella promete linha-dura contra o crime e liberalização do Estado

No audio source provided.
O presidente eleito da Colômbia, Abelardo de la Espriella. Candidato foi eleito em votação apertada contra Iván Cepeda.
De la Espriella disputou o primeiro político em 2026, sendo eleito para suceder Gustavo Petro. | Crédito: Juan Barreto / AFP

Abelardo de la Espriella, 47 anos, já era um advogado conhecido na Colômbia quando se candidatou à presidência do país. O novo presidente eleito da Colômbia, que teve sua vitória confirmada nesta quarta-feira (24), largou a “dolce vita” que dizia ter em Florença, na Itália, para se tornar ‘El Tigre’ e liderar o movimento de extrema direita Defensores da Pátria.

De la Espriella tem tripla nacionalidade: colombiana, estadunidense e italiana. Foi no último país que fez morada. Ainda antes do pleito, sua esposa, Ana Lucía Pineda Aruachan, disse que uma eventual derrota não seria tão grave assim. Voltaria para a Itália, onde já teria “a vida resolvida”. Nas redes sociais, o casal exibe fotos da vida que levava na Toscana, entre restaurantes celebrados e lojas de luxo.

O valor exato da fortuna de De La Espriella é desconhecido. Mas a origem chegou a ser tema de polêmica na campanha eleitoral. Além de advogado, o futuro presidente da Colômbia negocia roupas pela “De la Espriella Style”. Os vinhos e runs são vendidos pela Dominio De la Espriella. Há tempos, o ‘outsider’ ostenta uma vida de luxo nas redes sociais e, em entrevistas, não hesita em exaltar a própria condição.

Durante a campanha, ele apostou na pirotecnia política e na proliferação de ideias conservadoras: moldado por uma empresa de marketing político, vestiu a camisa da seleção colombiana, promoveu comícios nos quais imitava rugidos de tigre e fez valer a retórica da “anti-política” para prometer aumento de forças de repressão e maior proximidade com os EUA.

Nesta semana, Espriella foi eleito em uma votação apertada contra o senador de esquerda Iván Cepeda, que reconheceu a derrota. A confirmação oficial foi dada pelo Conselho Nacional Eleitoral (CNE) da Colômbia, que indicou que o candidato de extrema direita obteve 12.960.166 votos, contra 12.708.312 do candidato apoiado pelo presidente Gustavo Petro. No Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) parabenizou a eleição de Espriella, lembrando que a relação entre os dois países “transcende ideologias”.

Violência, eixo central da campanha

O tema ainda assombra a população colombiana, remontando aos piores tempos da guerra civil entre o Estado, paramilitares e grupos guerrilheiros como as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Segundo a Corporación Excelencia en la Justicia, a taxa de homicídios no país é de 25,9 a cada 100 mil habitantes. Os dados têm se mantido estáveis nos últimos dez anos, mas o problema cresce diante do número de sequestros: eram 223 em 2023, mas saltaram para 651 em 2025.

Além disso, o país também tem altos níveis de assassinatos contra lideranças sociais e membros de movimentos populares. Segundo dados do Instituto de Estudios para el Desarrollo y la Paz (Indepaz), foram 1.891 assassinatos de líderes, mulheres líderes e defensores dos direitos humanos, entre 2016 e 2025.

Nem aqueles que assinaram o Acordo de Paz de 2016, que buscou encerrar décadas de conflito com as Farc, escaparam da violência: foram 477 assassinatos, segundo o mesmo instituto.

Antes da política, Abelardo já estava habituado a esse contexto: na prática da advocacia criminal, dedicou boa parte da carreira a defender paramilitares e acusados por tráfico de drogas, além de agentes políticos acusados por práticas de corrupção.

Ao longo da campanha, De la Espriella já diz que vai desfazer a política de paz do governo Petro. Outro alvo do futuro presidente é a Jurisdição Especial para a Paz (JEP), um órgão de justiça de transição criada no marco do Acordo de Paz.

Apesar da aparente autenticidade, as propostas de Espriella são inspiradas nas do presidente salvadorenho Nayib Bukele: “eliminação” de narcotraficantes e grupos armados, e criação de megapresídios. Nestes, os detentos seriam mantidos “dez andares abaixo da terra”, segundo o então candidato. Na campanha eleitoral, o colombiano chegou a dizer que pretende derrubar qualquer avião ou embarcação que, no território colombiano, esteja carregando drogas. O futuro presidente também quer que o Estado lucre com essas medidas. A ideia, segundo ele, é legalizar 10% dos recursos provenientes do narcotráfico, da mineração ilegal e de outros crimes. 

Para dar conta da empreitada, De la Espriella quer contar com o apoio de Israel e Estados Unidos. Na linha do presidente estadunidense Donald Trump, o colombiano também é adepto do uso da expressão “narcoterroristas”. 

Conservadorismo caribenho

Outra amizade de Abelardo é Javier Milei, presidente argentino. Assim como Milei, De la Espriella se apresenta como um “inimigo ferrenho” da esquerda na política e na economia. Do mesmo modo que o presidente argentino, diz-se judaico-cristão, na tentativa de se aproximar de setores mais conservadores da sociedade colombiana. Tal qual o “Leão” argentino – como o próprio Milei se define –, o “Tigre” colombiano propõe uma forte redução do Estado, a diminuição de impostos e o apoio ao setor empresarial.

Levemente inspirado em Milei, Abelardo quer abrir a economia colombiana para a entrada de dólares. Enquanto o atual presidente argentino prometia, enquanto candidato, até mesmo substituir o peso (moeda local) pelo dólar, o colombiano reconhece que se trata de um processo “muito complexo”, mas justifica, ao dizer que “[o dólar] é uma moeda forte e fundamental”.

“Vamos considerar a possibilidade de permitir que as pessoas na Colômbia tenham contas em dólares para se protegerem da inflação”, explicou Abelardo, em entrevista à Rádio Caracol, no início de junho. A inflação no país vizinho fechou em 5,10% em 2025, segundo o Departamento Administrativo Nacional de Estatística (DANE), número bem menor do que os cerca de 13% registrados em 2023.

De la Espriella nega que tenha relação com a extrema direita, definindo-se como alguém de “extrema coerência”. Mas é difícil encontrar alguma proposta da direita que ele, direta ou indiretamente, não apoie. Já criticou a legalização do aborto, se disse preocupado com a suposta “ideologia de gênero” e, aqui e acolá, simpatiza com a farta lista da cartilha da ultradireita. 

Desde antes da campanha, De la Espriella chamou a atenção por comentários de cunho abertamente machista.  Em entrevista dada anos antes da corrida presidencial, o então advogado foi criticado por mostrar as genitálias à jornalista que conduzia a entrevista. Já na corrida pela presidência, chegou a mencionar que a postura teria feito com que ele ganhasse votos do eleitorado feminino.

Imperialismo na Colômbia

Se, no plano interno, as propostas de De la Espriella são abertamente inspiradas na tropa de choque da extrema direita latino-americana e estadunidense, o mesmo acontece no plano externo. Convencido de que o multilateralismo é uma ideia ultrapassada, o futuro presidente colombiano já prometeu revisar a participação do país em instituições como a Organização das Nações Unidas (ONU) e a Organização dos Estados Americanos (OEA). Reconhece, em ambas, a perda de relevância, mas aponta uma suposta influência dos grupos de esquerda nas instituições. 

Para De la Espriella, os negócios vêm antes da política. Com esse norte, promete fechar parte das embaixadas colombianas, transformando os postos em órgãos voltados à promoção de investimentos privados. Abelardo ainda se diz mais “uribista” que o próprio ex-presidente Álvaro Uribe [2014-2020], quando trata da comparação entre a sua base conservadora e a do antigo mandatário.

A ideia do futuro presidente é atualizar o “Plano Colômbia”, um pacote de ajuda militar de Washington a Bogotá, viabilizado no início dos anos 2000. Agora, com Donald Trump de olho no fluxo de drogas na América do Sul, Abelardo quer criar um “Plano Colômbia 2.0″.

O projeto, segundo ele, pode liberar a presença de bases militares estadunidense em território colombiano. “Não haverá zonas proibidas para o Estado, não haverá criminosos impunes e intocáveis”, disse, logo após o resultado preliminar da eleição. Assim, pretende reverter a política de “Paz Total” de Petro, que não chegou a acordos definitivos. 

Os termos da proposta de Abelardo foram elaborados sob medida para a política do governo Trump para a América Latina. Assim, em franca sintonia, o republicano não hesitou em dizer, ao congratular o próximo presidente da Colômbia, que estava “muito honrado” em apoiar ‘El Tigre’ e que espera a construção de uma relação sólida entre os dois países.

Editado por: Lucas Estanislau

|

Newsletter