Agroecologia

Escola de Bioinsumos na China: Sul Global pode suprir até 50% da demanda de fertilizantes com resíduos orgânicos

Pesquisadores e movimentos populares debatem uso de bioinsumos para romper dependência de químicos; assista no Bem Viver

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Em entrevista ao Bem Viver, programa do Brasil de Fato, durante a sexta edição da Escola Internacional de Bioinsumos, em Suzhou, na China, o professor Li Ji, da Universidade de Agricultura da China (UAC), afirmou que os países do Sul Global poderiam cobrir entre 30% e 50% de sua demanda por fertilizantes aproveitando os resíduos orgânicos produzidos localmente.

“Com o tempo, isso lhes permitiria construir sistemas nacionais autônomos de produção de fertilizantes e, por extensão, sistemas alimentares mais resilientes”, disse Li Ji, responsável pelo Instituto de Pesquisa de Reciclagem Orgânica de Suzhou e um dos pesquisadores da UAC que conduziram o programa de formação.

A China foi, durante décadas, a maior consumidora de fertilizantes químicos, com cerca de 50 milhões de toneladas por ano, segundo o Escritório Nacional de Estatísticas (NBS), e hoje é o único país que reduziu esse consumo, segundo dados da FAO.

Fertilizantes químicos são nutrientes sintéticos (nitrogênio, fósforo e potássio). Seu uso excessivo degrada solos, contamina aquíferos e emite óxido nitroso, um gás de efeito estufa.

A escola, organizada pela UAC em parceria com a Associação Internacional para Cooperação Popular (AICP) Baobab e a empresa Beijing VOTO Biotech Group, sob orientação do Ministério da Ciência e Tecnologia da China, foi realizada na Escola de Revitalização Rural de Suzhou de 15 a 30 de junho.

O programa reuniu participantes de 13 países: Argentina, Bangladesh, Brasil, Egito, Gana, Iraque, México, Marrocos, Mongólia, Nepal, Nigéria, Paquistão, Tanzânia, entre outros. As sessões combinaram aulas sobre microbiologia, compostagem e produção de fertilizantes, com quatro visitas técnicas a unidades em operação em Jiangsu e Xangai, e dois dias finais dedicados ao intercâmbio entre delegações sobre a gestão de resíduos orgânicos em cada país.

Um sistema alimentar construído na dependência

Bárbara Loureiro, coordenadora do Baobab no Brasil, contou que o contexto da 6ª Escola Internacional de Bioinsumos está inserido “em um processo de construção dessa rede de cooperação do Sul Global, por problemas dos países do Sul Global que são muito semelhantes, estão vinculados a um sistema agroalimentar que foi sempre construído numa lógica de subordinação e de dependência com o Norte Global”.

A construção de uma rede soberana de produção de bioinsumos, segundo Loureiro, “visa também romper com essa lógica de dependência”. Para ela, o acesso à tecnologia conecta-se diretamente à soberania alimentar: “Você ter o direito de escolher como produzir o seu alimento, para quem produzir, também passa por essa lógica de você também organizar essa produção dos bioinsumos”.

China e Brasil, tecnologias complementares

O professor Li Ji conduziu dois dias de aula sobre o estado atual da tecnologia de compostagem na China, apresentando resultados de quase 30 anos de pesquisa da UAC, que incluem tecnologias e equipamentos para compostagem em escala industrial. Na China, segundo Li Ji, estima-se que ao menos 50% dos fertilizantes químicos poderiam ser substituídos pelo reaproveitamento adequado dos resíduos orgânicos. O pesquisador nota que, após a guerra entre Rússia e Ucrânia e os conflitos no Oriente Médio, “praticamente todos os países do Sul Global enfrentam escassez severa de fertilizantes químicos”. “Essa crise os está forçando a construir seus próprios sistemas domésticos de fertilizantes.”

Caroline Gomide, co-coordenadora da escola e pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB) e da UAC, destacou uma combinação tecnológica que Brasil e China desenvolvem conjuntamente. “A tecnologia chinesa de acelerar a compostagem por meio dos reatores e microrganismos é combinada com os remineralizadores, nos quais o Brasil é pioneiro e tem também essa tecnologia já madura que existe no Brasil há mais de 20 anos”, disse Gomide. “Nós estamos combinando essas duas tecnologias que geram, então, um fertilizante organomineral, nessa perspectiva de incluir o pó de rocha durante o processo de compostagem.” Os minerais, além de nutrientes, “são capazes de capturar amônia”, reduzindo as emissões típicas do processo.

O risco dos bioinsumos inseridos no modelo do agronegócio

Para Paula Veliz, da equipe técnica de bioinsumos do Baobab, o crescimento do setor de bioinsumos, de cerca de 15% ao ano, traz um risco que os movimentos populares precisam enfrentar. “Nosso desafio, como movimentos populares, é garantir que essa tecnologia não seja novamente subordinada às lógicas do agronegócio, do empaquetamento e da privatização deste tipo de tecnologia, como aconteceu, por exemplo, com as sementes”, afirmou Veliz. A meta é “manter essa tecnologia na mão dos agricultores e das suas cooperativas para que possam servir aos interesses populares de produzir de forma sustentável.”

“Não tem como massificar a agroecologia, construir uma perspectiva de enfrentamento ao agronegócio em resposta à crise, se não tem reforma agrária, se não tem acesso aos direitos garantidos sobre a terra”, afirmou Loureiro. Os bioinsumos são, para ela, “um dos pilares centrais para a massificação da agroecologia”, dentro de uma resposta que tem “no campesinato esse sujeito central” para enfrentar o que descreve como “crise ambiental, ecológica, alimentar, civilizatória, como parte também dessa crise estrutural do capitalismo”.

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Editado por: Gia Matheus Almeida

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