Política

A importância estratégica das eleições para o Senado Federal em 2026 

Mulheres lideram ou figuram entre as principais candidaturas do campo democrático no país

No audio source provided.
Plenário do Senado Federal durante sessão deliberativa ordinária
Plenário do Senado Federal durante sessão deliberativa ordinária | Crédito: Marcos Oliveira/Agência Senado

A misoginia deixou de ser constrangimento para se tornar plataforma política. Enquanto aumentam a violência política de gênero e raça, os crimes contra a dignidade sexual de mulheres e meninas, a violência doméstica e os feminicídios, também cresce a naturalização de discursos de ódio e menosprezo que, até pouco tempo atrás, seriam amplamente rechaçados. 

No Brasil e em nível internacional, influenciadores digitais, parlamentares, ministros de Estado e até pré-candidatos à Presidência da República voltam a defender, sem qualquer pudor, que mulheres não deveriam votar, jogar futebol, dirigir. Para eles e, irônica e contraditoriamente, para muitas delas, o lugar da mulher deve se restringir aos afazeres domésticos e à submissão ao marido. 

Michelle Bolsonaro (PL-DF) vem trabalhando, há anos, para construir uma ampla rede nacional de candidaturas femininas conservadoras, antifeministas, especialmente por meio do PL  Mulher, com o objetivo declarado de ampliar a presença desse campo político no  Congresso Nacional, sendo ela a figura mais proeminente das “esposas troféu”. Mesmo assim, homens de direita a têm atacado ferozmente. Mesmo sendo elas faces da mesma  moeda. 

Não se trata apenas de uma guerra cultural. Trata-se de um projeto de poder que disputa valores, instituições e segue firme o propósito de colocar em xeque a própria democracia brasileira, ainda que por caminhos aparentemente contraditórios. 

É nesse contexto que a eleição de 2026 para o Senado Federal assume uma dimensão  que ultrapassa a escolha de representantes ou uma hierarquia de preferências em voto duplo. Estarão em jogo 54 das 81 cadeiras da Câmara Alta, justamente a Casa responsável por julgar autoridades, aprovar ministros dos tribunais superiores e definir os rumos de parte significativa da agenda nacional.  

É por isso que a extrema direita transformou o Senado em sua prioridade estratégica. E é por isso, também, que o campo democrático tem posicionado nesse tabuleiro alguns de seus principais quadros femininos. 

O voto para o Senado costuma ser a última escolha da “colinha” às vésperas da eleição. Talvez por ser o voto mais distante – a pessoa eleita tem mandato de oito anos – ou por se tratar do sistema de votação mais complexo de entender. Mas, desta vez, vai ser preciso calcular e decidir melhor.

Senado na mira da extrema direita

Já faz algum tempo que a extrema direita anuncia que dará prioridade máxima para ampliar e consolidar maioria naquela Casa. Além do impeachment do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, o combo vem acompanhado de uma agenda marcada por pautas  reacionárias e de restrição de direitos. 

Por exemplo, é no Senado que está parada a PEC que põe fim à escala 6×1. Foi lá também que aprovaram, em pouco mais de um minuto e sem registro de oposição, o PDL que susta resolução do Conanda e obstrui ainda mais o direito ao aborto legal para meninas. 

Hoje, esse campo conta com pelo menos 32 senadores/as e consegue chegar a 40 em algumas votações. Vários deles têm mais uma legislatura (quatro anos) pela frente. Basicamente, apesar de se autoproclamarem outsiders, elegeram Ministros de Estado, deputados federais ou estaduais com muitos mandatos, celebridades e até Vice-Presidente da República. 

A receita da extrema direita para 2026 é a mesma. Eles continuam apostando em nomes experimentados e de grande projeção, boa parte deputados federais.

A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL), que deve concorrer pelo DF, até poderia ser apontada como uma exceção a essa regra, não fosse ela a mulher na política mais reconhecida no país, à frente da atual primeira-dama Janja da Silva, da ministra Carmen Lúcia e da ex- presidente Dilma Rousseff, segundo dado da pesquisa Meio/Ideia divulgada no dia 8 de julho.

No DF, a força das mulheres de direita ficou evidente em 2022, com a eleição de Damares Alves (Republicanos), após uma virada impressionante sobre Flávia Arruda. A ex-ministra da Mulher e da Família, embora estreante nas urnas, já era uma das principais lideranças do fundamentalismo religioso e do bolsonarismo. No último pleito, o principal cabo eleitoral de Damares foi Michelle e, este ano, elas prometem inverter os papéis. 

Para 2026: retomar a unidade de esquerda 

Estamos às portas da eleição que pode dar a Lula (PT) seu quarto e último mandato de Presidente. E, na capital, estamos diante de uma catástrofe administrativa e escândalos de corrupção no GDF que têm deteriorado Ibaneis Rocha (MDB), a ponto de fazê-lo desistir de disputar o Senado para “descansar” e romper com Celina Leão (PP) por “decepções”. 

As coisas mudaram rapidamente. Meses atrás, estávamos assistindo Ibaneis fazer de Celina sua sucessora, com grandes chances de vitória. A seu lado, a dobradinha Michelle e Bia Kicis, ambas do PL, avançavam de maneira aparentemente mais coesa. 

Ocorre que, há algumas semanas, Michelle e Damares passaram a ensaiar seu distanciamento de Flávio Bolsonaro, o herdeiro escolhido do clã Bolsonaro para disputar a presidência. Enquanto Bia o apoia incondicionalmente e critica as correligionárias. 

No campo democrático, o cenário é diferente. A deputada federal Erika Kokay (PT) e a senadora Leila Barros (PDT) não são do mesmo partido, têm nichos eleitorais e atuam em fronts relativamente distintos, mas representam o melhor das bancadas femininas da Câmara e do Senado atualmente. 

As pesquisas indicam que Erika Kokay e Leila Barros partem de patamares semelhantes de intenção de voto e alternam a segunda e a terceira posição, atrás apenas de Michelle.

Longe de significar competição inevitável entre elas, esse equilíbrio revela a possibilidade de uma dobradinha forte, capaz de dialogar com eleitorados complementares da esquerda e da centro-esquerda. 

A história recente do DF mostra que as disputas majoritárias oscilam, mas preservam um núcleo expressivo de votos progressistas em torno de 30%, o que é excelente para  uma eleição majoritária em que não há segundo turno. O cenário permanece aberto.

Há jogo a ser jogado e as eleições para o Senado raramente são vencidas por candidaturas improvisadas e, desta  vez, o DF tem dois dos melhores nomes do país.

Ao longo de três décadas de vida pública, Erika Kokay se consolidou como uma das  principais lideranças do DF e do Congresso Nacional. Ela atua em cada cidade, em cada  categoria profissional, em cada movimento social e é reconhecida por isso. Seu voto transcende o voto meramente petista, o que poderá ser comprovado em sua primeira eleição majoritária. 

Leila Barros, por sua vez, existe como Leila do vôlei para o Brasil antes da política. Posicionada mais ao centro que Erika, em pouco tempo no Senado, surpreendeu na  oposição ao governo Jair Bolsonaro e por assumir posições firmes em defesa da  democracia durante os momentos mais críticos. 

Certamente, existe o voto baseado em emoções, tradições e o voto que busca  maximizar ganhos individuais. Assim, eleitores fazem as combinações mais variáveis, sobretudo em razão da dificuldade de administrar dois votos ao Senado,  haverá mesclas entre as candidatas de direita e de esquerda também. Só não pode haver  “voto útil” na direita.

Fato é que, se a dobrada Erika & Leila conseguir atingir um bom nível de coordenação e  complementariedade, independente de outras combinações que o eleitorado fará, será  possível maximizar o voto duplo e a esquerda elegerá uma ou até duas senadoras. 

Foi assim com Cristovam e Rollemberg e, melhor, está sendo assim com as “Senadoras  do Brasil” em outros estados. 

Senadoras do Brasil 

A disputa pelo Senado em 2026 não será protagonizada por mulheres apenas no Distrito  Federal. Em diversos estados, as pesquisas apontam um cenário semelhante: mulheres competitivas lideram ou figuram entre as principais candidaturas do campo democrático para enfrentar chapas organizadas pela direita e pela extrema direita. 

Em São Paulo, Marina Silva (Rede) e Simone Tebet (PSB) despontam como as principais alternativas para enfrentar Ricardo Salles (Novo) e Guilherme Derrite (PP). Apesar de trajetórias distintas e até divergências, elas entenderam a urgência de estarem juntas, e assim têm ampliado as chances de vitória sobre candidaturas do bolsonarismo e do governador Tarcísio de Freitas. 

No Rio de Janeiro, Benedita da Silva (PT) aparece liderando as pesquisas de intenção de voto e poderá desempenhar papel decisivo para impulsionar uma segunda candidatura do mesmo campo, como a de Mônica Benício (Psol).  

Em Minas Gerais, Marília Campos (PT) também lidera e pode cumprir o mesmo papel em relação à candidatura de Áurea Carolina (Psol)

No Rio Grande do Sul, a disputa permanece bastante aberta, tendo Manuela d’Ávila (Psol) como única mulher pré-candidata até o momento. Manuela tem liderado alguns cenários à frente de Marcel Van Hattem (Novo) e Sanderson (PL). 

No Ceará, Luizianne Lins (Rede) cresce nas pesquisas e disputa posição com o policial Capitão Wagner (União). A presença de Cid Gomes (PSB), anunciada mais recentemente, tende a ampliar sua competitividade. 

Em Pernambuco, Marília Arraes (PDT) e Humberto Costa (PT) também aparecem na liderança, formando uma das chapas mais consistentes do país. 

O Distrito Federal integra esse mesmo movimento nacional. A desistência de Ibaneis alterou significativamente a configuração da corrida e pode provocar uma polarização. Ao mesmo tempo, a unidade da direita passou a conviver com sinais de divergências estratégicas, especialmente diante das diferentes posições assumidas por Michelle Bolsonaro e Bia Kicis em relação ao seu candidato à presidência. 

Por outro lado, Lula se recupera, principalmente graças ao eleitorado feminino, e não paira qualquer dúvida sobre seu apoio tanto a Erika quanto a Leila. 

Não há que se falar, portanto, em projetos concorrentes. Não há contexto para se projetar rivalidades entre as duas. Escolher apenas uma, em detrimento da outra, pode comprometer a eleição de ambas. 

A principal disputa colocada é entre dois projetos de país. Transformar duas candidaturas competitivas em adversárias interessa apenas ao campo que já atua de forma unificada. 

Se a direita trabalha para eleger mulheres conservadoras comprometidas com sua agenda de retrocessos, faz sentido que o campo democrático também construa uma estratégia comum capaz de disputar as duas vagas, em todos os estados e no DF. 

Essa é a lógica que inspira a ideia das Senadoras do Brasil: mulheres com trajetórias mais ou menos distintas (nunca antagônicas), bases eleitorais complementares e um compromisso comum com a democracia, os direitos e a representação feminina no Senado Federal.

*Talita Victor Silva é cientista política, especialista em processos políticos do legislativo, feminista e primeira suplente de deputado distrital pelo Psol.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato DF.


Apoie a comunicação popular no DF:

Faça uma contribuição via Pix e ajude a manter o jornalismo regional independente. Doe para [email protected]

Siga nosso perfil no Instagram e fique por dentro das notícias da região.

Entre em nosso canal no Whatsapp e acompanhe as atualizações.

Faça uma sugestão de reportagem sobre o Distrito Federal, por meio do número de Whatsapp do BdF DF: 61 98304-0102

Editado por: Clivia Mesquita

|

Newsletter